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Opinião. A Europa tem um problema
Comentário Sociedade 3 min. 14.05.2020

Opinião. A Europa tem um problema

Opinião. A Europa tem um problema

Foto: AFP
Comentário Sociedade 3 min. 14.05.2020

Opinião. A Europa tem um problema

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
... de imagem. A Europa tem um grave problema de imagem. Sabendo-o, passou anos a deixá-lo marinar para ver se ele, à custa da prosperidade e do bem-estar, se resolvia sozinho. Não resultou. Agora chegou mesmo o momento de enfrentar o monstro, pois este está a tornar-se uma ameaça existencial: não se fará a Europa sem que os europeus vejam nela uma força para o bem.

Sim, porque os alicerces da construção europeia repousam decididamente sobre os ombros dos cidadãos do continente. Bem ao contrário do que insinua uma narrativa muito difundida, a UE tem uma dupla legitimidade democrática, em que as suas instituições são diretamente eleitas pelos votantes (o Parlamento), constituídas pelos governos nacionais eleitos livremente (o Conselho) ou por pessoas da sua confiança (a Comissão). Os equilíbrios de poder estão desenhados para que nenhum país, indivíduo ou grupo de interesse consiga obter um poder desmesurado (até por vezes caindo no exagero de chegar a consensos sofríveis só para que todos os possam aceitar). 

Os esforços para atingir a ausência de discriminações, a igualdade de oportunidades, a proteção das minorias e a ajuda ao desenvolvimento das regiões europeias mais pobres não têm paralelo em mais nenhum canto deste mundo. Quanto a democracia estamos conversados, mas tudo isto acarreta um corolário incómodo: a UE só existe enquanto o povo europeu quiser que exista. E o sentimento de estar num casamento por conveniência não basta, de certa forma têm-se perdido demasiadas oportunidades de demonstrar amor. Os europeus estão magoados, sentem-se abandonados.

 Sem que os europeus vejam nela uma força para o bem, não se fará a Europa.  

Atravessamos uma crise sem precedentes nas últimas três gerações, aquele proverbial momento de necessidade em que, reza a lenda, definimos com quem podemos contar e quem nos abandona. E as primeiras reações – aquelas que ficam na retina e na memória humanas – pareceram retiradas de um poema de Brecht, em que cada país, vendo a casa do vizinho ultrajada, correu a trancar as portas e as janelas para se safar sozinho. 

A tudo isto a Europa assistiu débil e impotente, débil porque Ursula von der Leyen é (mais) um desastroso erro de casting imposto pela senhora Merkel; impotente porque tem zero poderes em matéria de saúde. Zero. As competências de saúde estão todas firmemente nas mãos das capitais nacionais. Resumidamente, a Europa não pode fazer nada contra o vírus porque os governos não deixam, para logo em seguida se queixarem que a Europa não faz nada; poucos cidadãos conhecem este simples facto, mas já sabemos, há um problema grave de imagem.

Hoje, dois terços dos italianos têm uma imagem da UE pior que há três meses, antes do início da crise. Mais de metade dos espanhóis, quase metade dos austríacos, até um terço dos portugueses se desencantou com a Europa nas últimas semanas; esta apenas melhorou aos olhos de 10% de todos os europeus, uma pequena minoria. Muitos daqueles a quem desejei "um bom Dia da Europa" no passado sábado 9 de Maio respondiam invariavelmente "ah, este deve ser o último". Talvez seja injusto, mas o certo é que o mal está feito e esta batalha comunicacional está perdida. Mas da derrota há duas lições cruciais a retirar para que nas próximas crises ambos, Europa e europeus, possam obter vitórias decisivas.

A primeira é que necessitamos urgentemente de uma política de saúde comum, pan-europeia, coordenada, competente, bem financiada. A segunda é que – não esquecendo que do amor ao ódio vai um pequeno passo – a Europa não pode novamente dar-se ao luxo de, como há dez anos, falhar na resposta à brutal crise económica que está a começar.

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