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Opinião. A Europa ligada ao ventilador
Editorial Sociedade 2 min. 03.04.2020

Opinião. A Europa ligada ao ventilador

Médicos do hospital universitário em Hamburgo, na Alemanha, numa formação sobre como manobrar ventiladores em pacientes infetados com a covid-19.

Opinião. A Europa ligada ao ventilador

Médicos do hospital universitário em Hamburgo, na Alemanha, numa formação sobre como manobrar ventiladores em pacientes infetados com a covid-19.
Foto: AFP
Editorial Sociedade 2 min. 03.04.2020

Opinião. A Europa ligada ao ventilador

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Exigimos ambição. Visão. Humanismo. É agora ou nunca.

Quando escrevi neste mesmo espaço (há apenas duas semanas que parecem uma eternidade) sobre eventuais aspetos positivos trazidos pelo coronavírus, previ que a catástrofe iria derrubar tudo o que fosse líder político incompetente e demagogo. As mentiras sinistras dos Trumps, Bolsonaros, Putins e Johnsons deste mundo tornaram-se mais diretamente mortíferas, e o momento de pagar por elas também está mais perto.

A primeira vítima, no entanto, pode ser muito mais importante: a própria União Europeia. Com o seu sistema imunitário ainda debilitado pela crise de 2009 e as divisões dilacerantes que dela advieram, cuidada por elites cada vez menos capazes de lhe curar as maleitas de que padece, a Europa pertence a um grupo de risco: não está de todo preparada para um choque tão brutal como aquele que vivemos. Agora está em maus lençóis, de rastos e com respiração assistida, com metade das sociedades italiana e espanhola – outrora dois países afincadamente europeístas – a desejarem-lhe o pior, enquanto as restantes se interrogam sobre a bondade do velho projeto. Sim, porque a Europa é uma construção para melhorar a vida dos seus cidadãos, bem alicerçada na solidariedade e na união; sem estas não faz sentido.


Um pequeno passo e muito menos mortes na humanidade
Os balanços são mais fáceis de fazer no fim. Conhecemos ainda muito pouco do novo coronavírus, e, por muita projeção estatística que façamos, é difícil saber o que vai suceder.

A metáfora deve ser levada um pouco mais longe: a forma de salvar a Europa é fortalecê-la. É que a União não tem quaisquer poderes na área da saúde – e isso deveria ser repetido aos cidadãos desiludidos juntamente com o corolário: mas devia. Juntemos-lhe o motivo: os governos nacionais guardam ciosa e irresponsavelmente essas competências dentro de cada país. O resultado são sistemas de saúde nacionais muito desiguais, mas com a característica comum de serem perfeitamente incapazes de lutar contra um problema grave de saúde pública causado por um vírus que se ri das inúteis fronteiras. O único que Bruxelas pode fazer é insistir para que os países cumpram as regras, como aconteceu logo nos primeiros dias da pandemia quando alguns países queriam proibir ilegalmente a exportação de máscaras para outros Estados-membros.


O dia para salvar a Europa ainda não foi ontem
Quatro países bloquearam as chamadas coronabonds no Conselho Europeu. E a criação de um Plano Marshall para evitar a depressão económica foi adiada. António Costa, chamou de “repugnante” as declarações do ministro das Finanças holandês pedindo que Espanha seja investigada por não ser capaz de fazer face ao desafio económico provocado pela pandemia.

Se a Europa relativamente pouco pode fazer para resolver a crise atual, vai ser sim vital na que virá a seguir – uma brutal depressão económica que fará a de há uma década atrás, tão mal resolvida, parecer uma brincadeira de crianças. E com mais duas enormes diferenças: desta vez é um choque externo (não pode haver, portanto, a narrativa repugnante da "culpa" dos "gastadores em copos e mulheres") e também é simétrico, o que quer dizer que ataca todos, não há vencedores, só perdedores. Continuará a UE a seguir o diktat de Berlim & amigos ou aprenderá com os seus erros?

Os primeiros sinais não são nada encorajadores. Mas confio em que os medíocres políticos que temos no poder vão abrir os olhos a tempo e perceber que o risco é real: neste clima irrespirável, será preciso mais que um ventilador para salvar a Europa. Exigimos ambição. Visão. Humanismo. É agora ou nunca.

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