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OPINIÃO: A emigração luxemburguesa e a imigração portuguesa, temas de história revisitados (parte 1)
Sociedade 4 min. 08.10.2014 Do nosso arquivo online

OPINIÃO: A emigração luxemburguesa e a imigração portuguesa, temas de história revisitados (parte 1)

António de Vasconcelos Nogueira é investigador, membro do Centro de Línguas, Literaturas e Culturas, da Universidade de Aveiro, autor de “Os Portugueses no Luxemburgo, Contribuição para a história das migrações”

OPINIÃO: A emigração luxemburguesa e a imigração portuguesa, temas de história revisitados (parte 1)

António de Vasconcelos Nogueira é investigador, membro do Centro de Línguas, Literaturas e Culturas, da Universidade de Aveiro, autor de “Os Portugueses no Luxemburgo, Contribuição para a história das migrações”
Foto: Manuel Dias
Sociedade 4 min. 08.10.2014 Do nosso arquivo online

OPINIÃO: A emigração luxemburguesa e a imigração portuguesa, temas de história revisitados (parte 1)

Por António 
de Vasconcelos Nogueira - Muito se tem escrito sobre as migrações humanas. Trazemos duas histórias sobre o Luxemburgo dos professores Jean-Marie Kreins e Michel Pauly dessa Universidade.

Por António 
de Vasconcelos Nogueira - Muito se tem escrito sobre as migrações humanas. Trazemos duas histórias sobre o Luxemburgo dos professores Jean-Marie Kreins e Michel Pauly dessa Universidade.

1) A história do prof. Kreins insere-se na colecção francesa “Que sais-je?”, que reúne séries didáticas em formato livro de bolso. Sete capítulos, sem introdução nem conclusão, com uma orientação bibliográfica, da pré-história ao “Grão-Ducado na integração europeia”.

Temas como a emigração dos luxemburgueses durante o séc. XVIII, para a província do Banat, no Império Austro-Húngaro, cujo território é partilhado actualmente pela Roménia, Sérvia e Hungria, para as Américas (Guatemala, Brasil, Argentina e EUA) e para as regiões da Lorena, Paris e Bruxelas, durante o séc. XIX e a primeira década do séc. XX, são omissos.

Kreins considera “uma imigração importante” (p. 82) a de alemães e italianos, em apenas três linhas. Não há referência à imigração portuguesa ou outra. Alude ao exílio da família grã-ducal e de membros do seu governo, em Portugal. Há citações e referências sem precisar as fontes, como, por ex., a Gilbert Trausch, Michel Foucault ou Raymond Aron.

2) Passemos à história do prof. Pauly, formato livro de bolso, o original é alemão (2011), com introdução e desenvolvimentos da pré-história à história contemporânea, uma selecção bibliográfica, mas sem conclusão.

Pauly demarca-se da perspectiva nacionalista luxemburguesa sobre as casas dinásticas consideradas “estrangeiras” até 1890 e a propósito da relação Estado-Nação. Propõe uma leitura transnacional sobre a história do Luxemburgo, integrando-a na Grande Região (Sarre, Lorena, Valónia) e na Europa Ocidental. A sua narrativa interpela-nos sobre temas complexos, como a Cristianização e o papel de Willibrord e da Abadia de Echternach, ou as origens do Condado, ou o papel do Absolutismo e as reformas durante a proto-industrialização do Luxemburgo, no período dos Habsburgos Austríacos, e de emigração de luxemburgueses para o Banat, um tema que não é objecto da sua análise. Portanto, omisso.

No cap. 14, utiliza o conceito de “Revolução Industrial”, polémico, como se a passagem da agricultura à industrialização fosse súbita, uma “revolução” física ou mecânica, quando tal não se verifica nem em Inglaterra, nem tardiamente no Luxemburgo. Com a industrialização intensifica-se a emigração dos luxemburgueses, à qual dedica no último parágrafo, sete linhas.

A referência ao exílio da família grã-ducal e membros do seu governo, em Portugal, tem nove linhas. Sobre os Judeus, a anexação do Luxemburgo, a “neutralidade” luxemburguesa, a “resistência”, o “colaboracionismo”, os luxemburgueses na Wehrmacht, as compensações e reparações do pós-guerra, a legitimação da actual casa dinástica, o prof. Pauly trata com clareza e pertinência. Não obstante, reúne alguns elementos de estatística sem precisar as fontes.

Nos dois últimos capítulos fala-nos sobre a imigração para o Luxemburgo, a dos alemães, italianos, e dos portugueses, a partir da Lorena, nos anos 1960. Reconhece que “nem o mercado imobiliário, sob enorme pressão, nem o sistema escolar, estão adaptados a esta nova situação.” (p.141). Considera os imigrantes italianos e portugueses “praticamente integrados” (p.142), como se não houvesse mais imigração dentro desta história, que é o nosso tempo.

3) Do comentário à reflexão: Que utilidade tem a história? E este tipo de publicações, sem introdução nem conclusão? Por que motivo a emigração dos luxemburgueses persiste em ser contornada e a imigração portuguesa contemporânea sumidamente referenciada? Porque não se precisam as fontes nem os elementos de estatística simples? Como se pode estudar a imigração portuguesa no Luxemburgo, ignorando as fontes e a pesquisa realizada no país de origem desses imigrantes? (parte 2, na próxima edição)

António de Vasconcelos Nogueira

O autor, António 
de Vasconcelos Nogueira, é investigador, membro do Centro de Línguas, Literaturas e Culturas, da Universidade de Aveiro, autor de “Os Portugueses no Luxemburgo, Contribuição para a história das migrações” (Lisboa: Sítio do Livro, 2011)


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