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Olá mãe. Está tudo bem aqui, mas a avó não tem wifi
Opinião Sociedade 3 min. 22.06.2022
Andamos todos ao mesmo

Olá mãe. Está tudo bem aqui, mas a avó não tem wifi

Andamos todos ao mesmo

Olá mãe. Está tudo bem aqui, mas a avó não tem wifi

Opinião Sociedade 3 min. 22.06.2022
Andamos todos ao mesmo

Olá mãe. Está tudo bem aqui, mas a avó não tem wifi

A avó deixa-me comer doces, está-se nas tintas para esse pão moderno que tu comes (nem há disso cá), não olha para rótulos todos antes de eu escolher coisas no supermercado e não me pede para fazer exercícios de respiração. A Avó é cool, mãe.

(Paulo Farinha)

Olá mãe.

Gostei desta ideia que tu me deste de fazer um diário nas férias. Eu sei que tu preferias que eu escrevesse à mão, mas – Daaah – tem dó. Os teclados foram inventados para isto. Além disso, se eu me arrependesse de escrever alguma coisa e riscasse, já sei que tu ias tentar ver o texto original. Eu conheço-te, és minha mãe.

Esta cena do diário é fixe porque no próximo ano posso ler isto tudo outra vez e pensar se quero mesmo voltar a passar duas semanas com os avós aqui na aldeia, numa casa que não tem wifi, não tem Netflix e onde não tenho o tablet do pai para jogos. Mas pronto, eu sei que sou a neta mais velha e que tenho de aproveitar os avós enquanto eles têm saúde. E que eles gostam de me ter cá. E tenho cá alguns amigos, por isso não assim tãããão mau. Só um bocado seca.

O problema, mãe, é que os miúdos que estão cá são todos parvos. São rapazes, têm a minha idade. E os rapazes da minha idade são parvos. Os mais fixes são os mais velhos. E estes, com quem eu brincava quando era pequena, agora já não me dizem muito.

As miúdas não, elas são porreiras. Umas já conhecia, outras são amigas e primas que vieram com elas. Há aqui gente do Porto, de Braga, de Évora e alguns emigrantes: França, Suíça e Luxemburgo. Costumamos encontrar-nos em casa de uma delas porque os pais fizeram obras há pouco tempo e investiram numa coisa essencial: internet. Aquela casa tem wifi e ar condicionado. É um oásis.

Tinhas perguntado pelos avós: estão bem. O avô está surdo que nem uma porta e passa a vida a perguntar-se se eu já tenho namorado. Já lhe disse que tenho só 13 anos, mas tentei explicar-lhe que já dei um linguado, só que a avó abriu muito os olhos e eu calei-me (não, mãe, não foi outro linguado, foi esse de que tu também sabes porque eu te contei). A avó tem dores na anca. Sou eu que levo os sacos quando vamos às compras e ela apoia-se em mim para ir à missa – sim, mãe, eu fui à missa com a avó!  

Ela há dias quis comprar-me umas t-shirts no supermercado da vila, porque eram baratas e eram para sujar na terra e usar só por aqui, mas tive de dizer que nem morta usava aquilo. E que já não brinco na terra. E que se quiser comprar alguma coisa, temos de ir a algum sítio onde vivam mais de dez mil pessoas e haja lojas giras.

E olha, é mesmo verdade o que disseste: os avós servem para estragar o que tu e o pai tentam orientar. A avó deixa-me comer doces, está-se nas tintas para esse pão moderno que tu comes (nem há disso cá), não olha para rótulos todos antes de eu escolher coisas no supermercado e não me pede para fazer exercícios de respiração. A Avó é cool, mãe.

Eu... bem, vais ficar orgulhosa de saber que não estou armada em esquisita com a temperatura da água no duche, porque tenho tomado banho de mangueira no quintal. E não resmungo para pôr a mesa quando a avó pede. E até já lavei a louça – o avô diz que gasta muita água e muita luz e devíamos poupar.

E antes que penses que eu vou ser isto tudo quando voltar para casa... esquece. Há coisas que só fazemos nos avós e com os avós. Se no próximo ano me deixares trazer uma amiga e convenceres os avós a instalar wifi, ainda penso em regressar. E nessa altura já devo ter dado dois linguados. 

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