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O vírus é o colonialismo
Opinião Sociedade 4 min. 02.12.2021
Pandemia

O vírus é o colonialismo

Cidadãos nigerianos aguardam a toma da vacina contra a covid-19, obrigatória para os funcionários públicos do país desde 1 de dezembro.
Pandemia

O vírus é o colonialismo

Cidadãos nigerianos aguardam a toma da vacina contra a covid-19, obrigatória para os funcionários públicos do país desde 1 de dezembro.
Foto: AFP
Opinião Sociedade 4 min. 02.12.2021
Pandemia

O vírus é o colonialismo

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
A limitação de viagens de ou para África só pode ser o resultado de uma postura colonial dos governos do norte global e das farmacêuticas ao seu serviço.

A África do Sul tem capacidade científica para fazer estudos sobre a evolução de Covid na população, e detectar e sequenciar novas variantes. A África do Sul identificou pela primeira vez uma nova variante, Ómicron, e partilhou essa informação com a Organização Mundial de Saúde e demais especialistas. Informação útil que será, inclusive, utilizada pelas farmacêuticas que desenvolveram vacinas contra a Covid-19 para as tornarem eficientes perante esta variante.

O que decidem fazer os países ricos? Fecham a porta aos africanos e apropriam-se do conhecimento partilhado por cientistas sul-africanos para desenvolver vacinas mais resistentes para a sua população.

Quanto mais tempo passa desde que vivemos na era Covid, novas variantes se multiplicam. Mas há um vírus que não tem variantes e continua activo, propagando-se com gravidade, intensidade e letalidade, que é o colonialismo dos governos ricos do norte global.

As limitações agora impostas a viajantes de ou para países africanos vem com a "punição exemplar" de a nova variante (que já foi detectada em inúmeros países, um pouco por todo o mundo, e inclusive detectada em principio de Novembro na Europa) ter sido sequenciada (e não necessariamente desenvolvida) na África do Sul. É importante realçar a diferença entre a descoberta e a propagação da variante Ómicron, porque, confesso, também eu caí no erro de dizer (porque o que tinha lido e escutado em vários meios de comunicação) que esta se tinha desenvolvido na África do Sul.

Qual é a diferença? Nem sempre se consegue saber a origem de uma variante. O vírus circula na população e mutações acontecem frequentemente. Mas à semelhança da variante Delta, primeiramente detectada na Índia, ela só o foi porque tanto a Índia como a África do Sul são países com tecnologia de ponta, preparadas para não só desenvolverem investigação científica sobre Covid, mas também, e por incrível que pareça aos cidadãos do norte global confortavelmente sentados sobre o privilégio da terceira dose de reforço, vacinas. Aliás, ambos os países produzem vacinas ou componentes de vacinas para as farmacêuticas cá no norte. E só não produzem vacinas próprias contra a Covid porque o lobby das farmacêuticas, e os governos que as sustentam, não quebram as patentes.

Há, então, aqui três 'punições exemplares' dos países privilegiados aos africanos, a quem se corta as pernas e depois se pede que se levante e caminhe.

Como lembrou Ana Sá Lopes esta semana no Público, no Parlamento português apenas o PCP e o Bloco de Esquerda defenderam o levantamento das patentes, "e no resto do mundo perigosos comunistas como o presidente americano Joe Biden, o secretário-geral das Nações Unidas António Guterres, o ex-presidente da Comissão Europeia Durão Barroso e a Organização Mundial de Saúde". Sindicatos de enfermeiros de 28 países, incluindo Portugal, apresentaram queixa na ONU contra a UE, o Reino Unido e outros países por impedirem o levantamento da propriedade intelectual para a produção de vacinas contra a Covid-19, lembrando que, ironicamente, estas foram desenvolvidas com fundos públicos. 


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"Enquanto os países ocidentais não perceberem, ou percebendo, não fizerem nada no sentido de libertar as patentes das vacinas, o mundo continuará a correr sérios riscos", disse a dirigente do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses, Guadalupe Simões, à Lusa.

Há, então, aqui três "punições exemplares" dos países privilegiados aos africanos, a quem se corta as pernas e depois se pede que se levante e caminhe. A primeira, a impossibilidade de inúmeros países africanos terem acesso às vacinas (mesmo aqueles que as poderiam produzir), a sua distribuição tem sido lenta, o que leva a que o vírus continue a propagar-se e que milhões de pessoas não estejam ainda contra ele protegidas – 45% da população mundial não recebeu ainda qualquer dose. A segunda, o fecho de fronteiras discriminatório, unilateral, racista, mesmo. A terceira, a continuação do extractivismo, da pilhagem do sul global, e das relações de poder (neo)coloniais que a Europa e os países ricos perpetuam. Não é só ouro, petróleo, diamantes, lítio ou cobalto. Ciência e conhecimento também.

(Autora escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.)

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