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O trabalho afetivo é trabalho
Opinião Sociedade 5 min. 21.11.2020

O trabalho afetivo é trabalho

Anil

O trabalho afetivo é trabalho

Anil
Foto: Getty Images
Opinião Sociedade 5 min. 21.11.2020

O trabalho afetivo é trabalho

Jessica LOPES
Jessica LOPES
Nos setores dos serviços e dos cuidados, mas não só, não se vendem apenas serviços, vendem-se emoções que requerem recursos de uma fonte que normalmente ligamos de uma forma profunda e integral aquilo que constitui a nossa individualidade. Um texto de Jessica Lopes.

 Já passaram meses que as minhas tarefas no trabalho mudaram. Esta semana o meu Facebook relembrou-me que “há um ano, neste dia” aconteceu a grande manifestação, em que os três sindicatos representativos a nível nacional reuniram mais de 2.000 trabalhadores numa sala do Parc Hôtel para se oporem ao ataque ao modelo de dialogo social luxemburguês pela maior organização patronal. Olho para as fotografias do evento, um mar de gente, e percebo que hoje tudo é diferente. O trabalho para os dirigentes sindicais, mas não só, mudou e temos de assumir novos papeis.

Num raro momento de calma durante a confusão destes últimos meses, os meus colegas e eu brincamos que nunca pensamos que o nosso trabalho ia transformar-se em grande parte em prestação de suporte emocional às pessoas. Comentamos que nos tornámos numa espécie de linha telefónica de apoio, e falamos de como passamos horas dos nossos dias a responder a perguntas e preocupações de quem trabalha. Desde "o que acontecerá se a empresa em que estou a trabalhar for à falência?" , até ao “já não consigo pagar renda, o que devo fazer?”. Longe vão os tempos em que a nossa principal função era negociar melhores condições laborais nas empresas, agora somos obrigados a lidar com emoções e contribuir para manter o espírito de luta vivo nas pessoas.

Mantemos uma atitude positiva. Mantemos a nossa paciência ao explicar (novamente) como organizar uma reunião no Zoom. Falamos com trabalhadores essênciais que estão preocupados, assustados, stressados, ansiosos, zangados e tristes. Mantemos o profissionalismo quando nos pedem para fazer mais e mais rápido. Mantemo-nos calmos quando algo corre mal e tentamos resolver as coisas o mais depressa possível. Ouvimos as queixas e respondemos, mesmo quando não somos responsáveis pelo mal que está a acontecer. Não baixamos os braços quando nos foi pedido que trabalhássemos a partir de casa - aliviados por estarmos seguros, mas com grandes dificuldades por estarmos separados da comunidade de apoio profissional em que atuávamos.

Fazemos tudo isto enquanto lidamos com os nossos próprios desafios pessoais – sacrificando por vezes o tempo com os nossos familiares estando em casa e preocupados com os nossos pais idosos ou amigos vulneráveis - , mas sabendo que temos deixar todos estes problemas quando falamos com os trabalhadores em situações muitas vezes dramáticas. O que por fora se deve ver é profissionalismo, colaboração, abertura, vontade e tentar mostrar otimismo.

Mas hoje e muitas vezes estou exausta.

Estou esgotada não só porque tenho estado a trabalhar muito para ajudar nesta transição, mas também e sobretudo devido ao trabalho afetivo que é esperado de todos nós ao longo destes últimos meses e que continuará a ser pedido. 

O trabalho afetivo, tal como conceptualizado por Negri e Hardt no “Império” (2000), é o trabalho de contacto e interação humana, que envolve a produção e manipulação de afetos. Os seus "produtos" são relações e respostas emocionais: uma sensação de facilidade, bem-estar, satisfação, excitação ou paixão.

Quando comecei a minha carreira de ativista, inicialmente como mediadora intercultural, fiquei impressionada com os diferentes tipos de trabalho que se esperava de mim, e tive dificuldade em em perceber a razão que estava a ser tão difícil cumprir as minhas funções. Conhecia a matéria e a pedagogia de trabalho por dentro e por fora, então por que é que mesmo assim estava a ser tão difícil? Comecei a ler, investigar e a conversar com colegas e amigos. Quando tropecei num artigo sobre o trabalho afetivo, foi um alívio ter finalmente uma linguagem para pensar o que estava a sentir e perceber que nunca fui remunerada por esse aspeto importante do meu trabalho.

O que estava a acontecer comigo e que esta a acontecer comigo novamente hoje, não é algo de isolado ou pessoal, é sistemático e acontece a imensas pessoas. É trabalho tornado invisível e muitos leitores perceberão perfeitamente do que estou a falar. Pois nos setores dos serviços e dos cuidados, mas não só, não se vendem apenas serviços, vendem-se emoções que requerem recursos de uma fonte que normalmente ligamos de uma forma profunda e integral aquilo que constitui a nossa individualidade. Mas o que nos acontece quando a nossa capacidade privada de empatia e calor é posta ao serviço do nosso emprego? São hospedeiras, rececionistas, empregadas de caixa, cabeleireiras, trabalhadores sociais e muitos mais. De todos se espera mais do que apenas a realização de tarefas, espera-se bom humor, alegria, esperança e disponibilidade. Muitos de nós já passaram a inscrever essas qualidades no currículo “sou uma pessoa entusiasta com uma grande abertura de espírito e uma boa capacidade de comunicação” consta no meu. O trabalho afetivo também existe nas nossas vidas privadas. Os afetos que damos, o conforto aos familiares e o ouvido aos amigos. Também sabemos, que para muitos de nós, são as mulheres das nossas vidas que desempenham esse papel, embora os homens também possam fazê-lo.

 O que estamos a fazer é trabalho, trabalho real que merece ser reconhecido, compensado e celebrado. Trabalho que esgota. Reconhecê-lo e perceber a noção de trabalho afetivo possui um potencial subversivo para as lutas laborais, mas também para a política feminista. 

Temos de começar a ver esta crise, que sem duvida amplificou a necessidade de trabalho afetivo, como uma oportunidade de ter conversas mais produtivas sobre como este tipo de trabalho pode ser devidamente reconhecido. Faz parte do trabalho e temos de nomeá-lo como tal.

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