Escolha as suas informações

O senhor Janeiro e a mulher
Editorial Sociedade 5 min. 07.01.2021

O senhor Janeiro e a mulher

O senhor Janeiro e a mulher

Foto:DR
Editorial Sociedade 5 min. 07.01.2021

O senhor Janeiro e a mulher

Filipa MARTINS
Filipa MARTINS
A crónica de opinião semanal da escritora Filipa Martins.

Isto aqui é um bairro típico, não me venham com conversas. As vizinhas são viúvas e escondem os ódios pequeninos, cochicham encostadas ao balcão do café e tratam-se todas por menina, têm maleitas, vão a funerais, recrutam carpideiras, falam na semana seguinte sobre as qualidades do morto, sobre o bom fato do morto, a barba por fazer do morto, e têm cautelas, que compram a meias, para a lotaria do Dia de Reis.

Isto aqui é um bairro típico, nem se sente que o IC19 passa já ali atrás, os carros estacionados nas bermas estão amolgados por causa das bicicletas dos miúdos, os cocós dos cães não são apanhados com sacos de plástico, a polícia só aparece quando há chatices ou para fazer operações STOP na curva da via rápida e os sorrisos dos políticos nos cartazes têm os dentes pintados a marcador preto.

Já disse, não me venham com conversas. Isto aqui é um bairro típico. Há um engenheiro que mora no sótão dos pais por medo de casar, uma divorciada deixada para trás entre lenços de papel, há ruturas de canos que nos cortam a água sempre de manhã, quando uma pessoa está cheia de sabão, flores de plástico em jarras, gatos de loiça e naperons sobre as televisões.

Isto é um bairro típico. As avós acham que os netos ainda são pequeninos, o café não aceita fiado, o carteiro mete as cartas na caixa do correio errada, as chaves da porta são atiradas pela janela e, à hora de jantar, é ouvir as vozes, umas mais agudas do que outras, a chamar a garotada para a mesa.

Não me venham com conversas. Apesar de haver ecopontos, o saco do lixo é posto na papeleira mais próxima, cada um tem o seu lugar para o carro no largo, num mapeamento imaginário que só conhecem os autóctones, as mini-doses custam 5,50 sem ovo e 6 euros com ovo estrelado, as pessoas queixam-se à janela e conversam para o outro lado da estrada.

Isto é um bairro típico. E por ser um bairro típico, ao sábado há um festival de gente a sair de pijama à rua, em chinelos e meias de dormir, só para ir ali comprar uma carcaça, e os meus vizinhos de cima são o senhor Janeiro e a mulher.

Diz-se que o senhor Janeiro viu as duas guerras, um homem tão pequenino e enrugado como um papel no bolso, que eu diria apenas que as viu. Padece de surdez e gosta dos concursos da RTP porque o ajudam a adormecer no sofá. Pela hora a que chego a casa, antes de pôr o rolo de carne no congelador ao lado das refeições pré-feitas, sou inquirida frequentemente sobre a localização da nascente do rio Ganges e tento enumerar as espécies protegidas da África Austral. No final do concurso, já o senhor Janeiro adormeceu no sofá, a mulher do senhor Janeiro muda para a TVI, para acompanhar a história daquelas duas pequenas, irmãs que foram separadas à nascença e estão grávidas do mesmo homem. Como isto é um bairro típico, sobre a mulher do senhor Janeiro apenas se sabe que é mulher do senhor Janeiro.

Ao fim de semana e nas vésperas de consultas no médico, um Rover de 1995 para em frente à porta com um vendedor de automóveis ao volante, de gravata de fantasia sobre uma camisa axadrezada, uma menina de refegos no banco de trás e a filha do senhor Janeiro e da mulher atrasada para a marcação da pintura das raízes no cabeleireiro. Segue-se uma carreira de sacos com couves, panelas de sopa seladas ainda quentes, sacos de plástico com mantas e colchas e um pacote de línguas-de-gato para a menina dos refegos, tudo encaixado no porta-bagagem do Rover de 1995, sob a inspeção, pelo retrovisor, do vendedor de camisa axadrezada. O senhor Janeiro e a mulher acomodam-se e o carro arranca.

Como isto é um bairro típico, por altura das férias da Páscoa e do Verão, o mesmo Rover de 1995 para à porta com o vendedor de automóveis ao volante, de boné do restaurante Churrasqueira Alegria e t-shirt 60% algodão, e a filha do senhor Jacinto e da mulher com o cabelo armado e novo tom de acobreado. No porta-bagagem, o fogareiro e quatro cadeiras de montar para o parque de campismo da Ericeira, tabuleiros de sardinhas já salgadas e a mesma panela de sopa.

Da última vez, o senhor Janeiro não voltou de férias e, quando coloco o rolo de carne ao lado das refeições pré-feitas no congelador, apenas oiço aquelas duas pequenas, irmãs da novela da TVI. Como nunca perguntaram à mulher do senhor Janeiro o que era feito dele, não chamaram carpideiras e não elogiaram o bom corte do fato do morto, aguardo que, um dia destes ao chegar a casa, seja inquirida sobre a altitude da capital do Nepal em troca de um prémio de dez mil euros. Isto aqui é um bairro típico, não me venham com conversas. 

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.