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Um detetive especialista em infidelidade analisa o amor

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Um detetive especialista em infidelidade analisa o amor

Um detetive especialista em infidelidade analisa o amor
Relações

Um detetive especialista em infidelidade analisa o amor


por Ricardo J. RODRIGUES/ 28.07.2022

Foto: António Pires

Sérgio Fernandes, ou Bruce, é um detetive privado luxemburguês de origem portuguesa. Nos últimos 25 anos investigou mais de uma centena de casos de adultério no Grão-Ducado. Estas são as suas lições sobre amor, respeito e traição.

Há um único dia no ano que Bruce Fernandes sabe que vai estar de folga. É 14 de fevereiro, Dia de São Valentim. “Já tive de andar em investigações no Natal, no Ano Novo e na Páscoa. Mas, nessa data, é certo e sabido que um homem só vai trair a amante, nunca a esposa”, atira com uma gargalhada. “Não vale a pena perder tempo a investigar uma infidelidade no Dia dos Namorados. Há muitos olhares, muito controlo e muito compromisso em cima da mesa. Quem trai e não quer ser apanhado sabe muito bem que este é o momento de guardar as aparências.”

Bruce chama-se na verdade Sérgio, mas quando o assunto é profissional, é a alcunha que vale. Tem 50 anos e metade deles foram passados a investigar casos de adultério no Luxemburgo. “Na minha carreira de detetive privado tive de andar atrás de muita coisa, mas mais de noventa por cento dos casos foram por causa de suspeitas de traição conjugal – e metade dos meus clientes eram portugueses.”

Bruce começou a exercer a atividade em 1997, depois de fazer um curso de guarda-costas. Investigou mais de 100 casos de infidelidade.
Bruce começou a exercer a atividade em 1997, depois de fazer um curso de guarda-costas. Investigou mais de 100 casos de infidelidade.
Foto: António Pires

Seguiu homens, seguiu mulheres, e não consegue dizer que eles traiam mais do que elas. “Antes de me meter neste ramo, tinha a ideia de que o sexo masculino era mais propenso a trair. Depois, com o tempo, percebi que não era assim. Os homens têm sim mais tendência a gabar-se e falar do que fizeram ou deixaram de fazer. As mulheres são mais discretas, mas também têm maior capacidade de perdoar”, diz. “Sobretudo quando é um casamento com filhos que está em causa.”

Ninguém pode controlar a vida de ninguém. Há sempre um lado abusivo quando isso acontece.

Bruce Fernandes, detetive privado

Quem olha para ele nunca suspeitaria que fosse um detetive privado. Quando está a trabalhar, é mais fácil vê-lo de jeans e ténis do que de gabardina e chapéu de feltro. “A imagem que as pessoas têm da minha profissão é um bocadinho aquela que foi criada pelos filmes de Hollywood, quando na verdade o mais importante é passarmos da forma mais normal e discreta possível”, conta. Fala de uma série de técnicas para preservar o disfarce, e isso há de valer umas boas horas de cavaqueira. Já lá se há de chegar.

Mas agora a conversa é sobre a dor de um coração partido. “Neste quarto de século percebi que, quanto mais forte é uma história de amor, mais forte é o ódio que começa a crescer no dia em que o romance termina”, diz enquanto puxa de uma cigarrilha e a acende com uma puxada de ar profunda. Bruce faz uma pausa, como se quisesse medir bem o peso de cada palavra antes de proferi-la. Dá um golo de cerveja para aclarar a voz. “Um coração que vibra pode tornar-se muito rapidamente num coração de pedra. Às vezes a dor de perder alguém é tão grande que as pessoas deixam de acreditar, não se querem expor a um sofrimento que as torne amargas e com uma tristeza permanente no peito”, diz.

Mais um golo de cerveja, mais um bafo da cigarrilha. Em 25 anos, o homem viu tudo – e aprendeu muito, também. “Aos primeiros minutos de conversa com um cliente consigo perceber se aquele é um amor que funciona ou não, se pode ou não recuperar de uma queda, se o companheirismo entre um casal é real”, explica. Bruce Ferreira pode não ter curso certificado de psicologia, pode não ser conselheiro matrimonial nem escrever livros de autoajuda, mas dificilmente haverá alguém que perceba tão bem o que faz funcionar ou não uma relação entre dois seres humanos. E isto é o que ele tem a dizer sobre o assunto.

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Lições de enamoramento
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A fórmula da felicidade conjugal é muito mais simples do que seria de esperar. “O que faz uma relação funcionar é a confiança. A partir do momento em que a sombra da suspeita se começa a levantar, o caldo começa a ficar realmente entornado”, profetiza. Dá um exemplo de um cliente que uma vez lhe pediu que espiasse a noiva. “Ele estava convencido que ela o traía e eu segui-a durante dias, mas não encontrei nada. Nicles. Zero. Então o homem ficou furioso comigo, a achar que tinha gastado dinheiro para nada – porque eu não tinha encontrado provas. Na cabeça dele já estava escrita a narrativa da infidelidade e, mesmo que ela não acontecesse, ele já tinha uma decisão na cabeça”, diz.

Quando um cliente se lhe dirige para contratar os seus serviços, Bruce passa uma boa hora a fazer perguntas. Não é curiosidade perversa, mas a minúcia ajuda-o a perceber o estado da relação. “As alterações bruscas de comportamento sexual são o traço mais óbvio de todos. Num casal que deixa de ter relações íntimas sem razão aparente, ou de repente começa a tê-las de forma sistemática e rotineira, as probabilidades de haver um caso de traição são maiores”, conta o detetive. 

“Se as saídas tardias do trabalho e os planos fora aumentam, então também é provável que esteja a acontecer algo. Mas, uma coisa eu sei: para as coisas começarem a falhar há um percurso de desinteresse na conjugalidade que começou muito antes. A infidelidade raramente é uma causa, na maior parte das vezes é um efeito.”

No adultério, alguém está a roubar qualquer coisa do outro. Até ser apanhado

Bruce Fernandes, detetive privado

E, segundo ele, é nas relações mais controladoras que os casos acontecem. “Fico sempre desconfiado das pessoas que têm perfis de casal juntos nas redes sociais. Às vezes podem pensar que estão a dar uma prova de amor ao mundo, mas na verdade estão a anular a individualidade de cada um dos elementos da relação”, diz. O mesmo se aplica a quem pede ao outro que lhe forneça a password do email, ou peça para ler as mensagens que recebeu no telefone, ou faça chamadas constantes quando o companheiro ou a companheira vão sair sozinhos com amigos. “É um sinal de que a relação parte de um lugar de desconfiança, de uma tentativa de controlo da vida do outro. E é neste tipo de vínculo manipulador que, mais cedo ou mais tarde, as coisas tendem a estoirar.”

Num amor saudável, diz Bruce, o melhor a fazer é depositar confiança no outro. “Ninguém pode controlar a vida de ninguém. E há sempre um lado abusivo quando isso acontece. A natureza humana faz-nos fugir daquilo que nos coloca amarras, do que nos torna menos livres. Os matrimónios mais felizes que conheci foram de pessoas que davam espaço uma à outra. Podia haver ali infidelidade? Podia. Mas o outro não estava obcecado em esmiuçar a vida do seu companheiro, e isso faz-me pensar que as possibilidades de traição de alguém que se sente livre são muito menores”, opina.

Na sua opinião, às vezes é melhor não querer saber todos os passos que o nosso companheiro ou companheira cumprem. Antes dar-lhe tempo e espaço para encontrarem a sua própria individualidade numa vida a dois. “Claro que se uma pessoa estiver constantemente a fazer planos que não incluem o outro, então cria-se um desequilíbrio que também não é saudável. E aí temos de saber proteger-nos e guardar-nos, de dizer ao espelho que somos o plano A de nós mesmos. E que nunca vamos querer ser plano B para ninguém”, suspira o detetive. 

“Mas também temos de ter consciência que a pessoa com quem escolhemos partilhar a vida tem direito ao mesmo, a querer formar o seu projeto.” O truque, diz ele, é conversar e fazer os planos coincidirem. “Mas a partir do momento em que queremos que o outro se comporte de acordo com as nossas expectativas, dificilmente a felicidade triunfará.”


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Olhar a realidade de frente
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Entrar em negação é uma circunstância comum nos casos que têm passado pelas mãos de Bruce Ferreira. “Desde o primeiro dia que me especializei em apanhar as pessoas em flagrante delito e faço isto porque, muitas vezes, as pessoas não querem olhar para a realidade de frente”, diz ele, e agora vem outra cerveja para a mesa. A conversa, que havia sido planeada para hora e meia, há de acabar por durar seis e continuar num outro dia. Quando o assunto é o amor, parece nunca haver palavras suficientes para gastar.

No adultério, alguém está a roubar qualquer coisa do outro. Até ser apanhado.

Bruce Fernandes, detetive privado

Num dos primeiros casos que investigou passou-se precisamente isso. A mulher desconfiava que o marido, motorista de autocarros, andava a traí-la. Ele seguiu-o durante uns tempos, fotografou-o com a amante, uma rapariga bastante mais nova que vivia em Bonnevoie. “Mas a mulher tinha dificuldades em acreditar, então um dia esperei que eles fossem até casa dela. Liguei à minha cliente e fi-la vir ter comigo.” Disse-lhe qual a casa onde eles estavam e ela bateu à porta. “O homem ainda assim dizia que aquilo não era o que parecia, mas ela aí já não acreditou. Meses depois, acabei por apresentá-la a um amigo meu que estava divorciado e ainda hoje estão juntos”, diz numa gargalhada. 

Outra vez foi contratado pela irmã de uma mulher que vivia em Portugal. O marido tinha vindo trabalhar para o Luxemburgo e eles só falavam por telefone. “Ele dizia-lhe sempre que ia sair com amigos, mas ela andava desconfiada. Então convencia-a a vir cá de surpresa no aniversário dele, sem lhe dizer nada”, conta. Ela assim fez. Chegou ao Findel, ligou ao marido e perguntou-lhe como ia celebrar a efeméride. Ele respondeu o costume, que ia sair com amigos. “Nessa noite, levei-a a um restaurante em Esch onde ele estava a jantar com a amante. Fiquei ali à porta e só saí quando a mulher começou a confrontar o marido. Foi, na verdade, uma peixeirada épica. Então saí e fui embora, o meu trabalho estava feito”, conta.


Pandemia faz disparar os divórcios no Luxemburgo
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Bruce leva os clientes até ao lugar onde a traição está a acontecer para que estes possam confrontar os seus cônjuges. Mas nunca fica para ver os resultados da discussão, nem mostra a cara. “Penso que o meu trabalho é válido, porque afinal de contas estou a trazer a verdade ao de cima. Mas, por outro lado, também sei que trabalho no departamento de corações partidos – e isso nem sempre é fácil de ver”, diz. Há alturas em que ele próprio percebe que as pessoas foram enganadas maliciosamente e fica cheio de pena delas. “Os sinais até podiam estar todos lá, mas quem é que consegue ser racional quando está apaixonado?”

Foto: António Pires

Bruce cobra 1.500 euros à cabeça de cada vez que um cliente o contrata. “Esse valor vai sendo descontado nas minhas horas de trabalho. Levo 60 euros por cada hora de vigia e são mais 50 diários para seguir o suspeito por GPS”, explica. Se o valor inicial for atingido e ainda faltar reunir provas, então sucedem-se pagamentos de 500 euros até o caso estar encerrado. “O máximo que ganhei foi graças a um homem de negócios luxemburguês, que sabia disfarçar muito bem a infidelidade. Acabou por custar à mulher 4.500 euros, mas também o apanhámos em flagrante delito. Estava num apartamento em Bruxelas com a amante e tive de segui-lo até lá.”

Há pessoas que sabem realmente tornar uma investigação difícil. “Há erros crassos quando se comete uma traição – e o maior de todos é levar alguém até à nossa própria casa quando o nosso companheiro não está. Porque, mesmo que não se seja apanhado na altura, vai sempre haver cabelos na almofada ou batom nos copos de vinho. Sei de um caso de uma mulher que foi apanhada pelo marido pelo simples facto de o amante ter usado a casa de banho e deixado a tampa da sanita levantada”, continua.

Um infiel experimentado esvazia todos os bolsos antes de chegar a casa e tem um amigo de confiança que sabe da história e lhe garante um álibi. “Porque se vais com a desculpa de que tens sempre trabalho até tarde já ninguém acredita. Sobretudo no Luxemburgo, onde se pagam bem as horas extraordinárias. Se esse dinheiro não cai na conta no fim do mês é fácil dar pela mentira”, diz Bruce Fernandes. Quem é apanhado, é normalmente pelos detalhes. “Basta o assento do carro estar numa posição diferente do habitual.”

O detetive diz ter outros truques na manga, mas recusa-se a fazer uma cartilha de traições eficientes. “Até porque assim ia perder o trabalho”, diz com uma gargalhada. Depois recompõe-se e recomeça a frase. “Agora a sério, olho para a infidelidade como olho para o roubo. No adultério, de facto, alguém está a roubar qualquer coisa do outro. Vai roubando um bocadinho e passa, então vai roubar mais. Até um dia ser apanhado.” E Bruce acredita que, mais tarde ou mais cedo, toda a gente é apanhada.

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Técnicas de detetive
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Estar em boa forma física é essencial para um detetive. “Nesta profissão tens de saltar muros, tens de subir a árvores, tens de aguentar mudanças de ritmo constantes e para isso precisas de ter a máquina a funcionar”, diz Fernandes. Ele é mestre em artes marciais, ainda hoje treina e participa em competições de MMA – Mixed Martial Arts. “Comecei com o karaté aos 12 anos, mas também fiz taekwondo, jiu-jitsu, capoeira, kung-fu, kick-boxing e boxe tailandês. Por isso nunca precisei de andar armado. Em caso de necessidade, sei defender-me com o corpo”, diz.

Na garagem do edifício onde vive, ensaia hoje golpes para demonstração. Gira o corpo num pontapé, e tem uma capacidade de elevação extraordinária. Depois dá uns golpes no ar. Vai explicando o que fazer se alguém o ataca que frente, ou com uma faca, ou com um revólver. “Mas o truque é sempre evitares chegar a uma situação de conflito aberto”, explica. Nos seus 25 anos de carreira, nem por uma vez precisou de usar os punhos.

A alcunha Bruce vem aliás da sua paixão por Bruce Lee. “Desde muito miúdo tornei-me fã dos filmes dele, e depois dos do Van Damme e do Chuck Norris”, recorda. Lembra-se que em miúdo as televisões passavam todas as semanas um filme do género – e que ele seguia todos com fervor religioso. “Os meus outros filmes preferidos eram os de detetives, claro, e não falhava um episódio do Remington Steele [uma série dos anos oitenta protagonizada por Pierce Brosnan]. É curioso como desde muito pequeno a vida já parecia encaminhar-se para aqui.”

Mas, se a conversa é sobre a profissão, então há outra característica que ela considera ainda mais importante que a forma física. “Tens de ter uma paciência enorme. Às vezes tens de passar cinco ou seis horas à espera num carro para tirar uma fotografia em 15 segundos. Não podes sair, não podes ir comer, não podes ir à casa de banho”, advoga. 

Para aliviar necessidades urgentes leva uma garrafa de água de litro e meio vazia. “Sei que não é a coisa mais charmosa do mundo, mas às vezes é realmente necessário permaneceres no mesmo lugar. Já me aconteceu perder uma fotografia que provava uma traição por ter saído do carro para ir atrás de uns arbustos.”

Uma coisa que ele sabe é que um homem parado num carro levanta suspeitas. “Se não fores esperto há de haver um vizinho que vai acabar por chamar a polícia porque está ali um marmanjo a fazer sabe-se lá o quê”, explica. Não são raras as vezes em que leva consigo um cão, nas vigias mais curtas dá jeito o animal para passear pelas redondezas. “Quando é preciso esperar mais horas deito-me muitas vezes na mala do carro e deixo-a entreaberta para conseguir ver o alvo por uma fresta. É extremamente desconfortável, porque não cabes esticado lá dentro e podes ter uma cãibra. Mas faz-se o que for preciso fazer”, diz.

O ideal, no entanto, é andar acompanhado. “Se estiveres com uma mulher dentro de um carro ninguém vai achar estranho – podem estar a conversar, ou a namorar, ou qualquer outra coisa. A minha mulher acompanhava-me muitas vezes nas minhas vigias, até porque ir jantar sozinho, ou ir a uma discoteca sozinho, podia às vezes parecer estranho”, conta. “Nessas vezes, chegava muitas vezes a falar informalmente com o alvo, metia conversa com ele ou ela. Nunca desconfiavam de nada: nós éramos apenas mais um casalzinho que tinha ido parar ao mesmo espaço. E até atiras uma pergunta inocente que te pode dar a resposta que precisavas de saber.”

Se puderem ser dois carros a fazer espionagem, melhor. “Uma das coisas que percebi é que metade dos relacionamentos extraconjugais acontecem entre colegas de trabalho. Se estiveres num carro a seguir alguém e a pessoa virar para um descampado vai logo perceber que o carro que vai atrás está a segui-lo”, continua. “Agora se deixares passar, seguires em frente, e vem outro carro atrás a controlar a situação, aí já acontece um flagrante delito.” Bruce diz que é coisa bastante frequente nas noites de festa de natal das empresas. Ou num jantar de aniversário de um colega comum. À medida que os copos se enchem, esvaziam-se as inibições.

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Eis o homem
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Às vezes, Bruce tem saudades dos tempos antigos. Em que tinha de pegar numa câmara de vídeo, ou usar uma grande lente na máquina fotográfica para apanhar um suspeito à distância. “Houve uma revolução tecnológica importantíssima nos últimos anos e hoje consigo resolver tudo no telemóvel. Filmar, fotografar, de frente, de costas, o que quiseres. Também há aparelhos GPS que seguem o carro e evitam as perseguições. Por um lado a vida de um detetive tornou-se muito mais tranquila por causa da tecnologia, por outro às vezes sinto falta daquela adrenalina que só sentes quando sabes que tudo pode falhar.”

Cresci no Pfaffenthal, numa casa sem wc. E sempre sonhei com outra vida para mim.

Bruce Fernandes, detetive privado

A sua entrada neste mundo deu-se por coincidência. “Eu já era louco por artes marciais e em 1997 vi um anúncio para fazer curso de guarda-costas. Liguei e fui a única pessoa a inscrever-me. O professor era um homem chamado Jacques-François Catellani que tinha estado na Legião Estrangeira. Basicamente, aquilo era um curso de técnicas paramilitares”, recorda. O que ele não sabia era que o seu mestre era também dono de uma agência de detetives privados. “Ao fim de uns meses ele disse-me que precisava de alguém que falasse português, porque havia muita clientela. E eu falava tudo: luxemburguês, alemão, francês, português e inglês. Aceitei logo o convite.”

Na sua casa, sentando no sofá, e monitorizando os suspeitos a partir do telemóvel.
Na sua casa, sentando no sofá, e monitorizando os suspeitos a partir do telemóvel.
Foto: António Pires

Desde miúdo que se tinha disposto a viver uma vida de aventura. Bruce, aliás Sérgio, nasceu na capital do Grão-Ducado, filho de um trabalhador da construção civil e de uma emprega de limpeza de Pombal que emigraram à procura de vida melhor. “Não era isso que eu queria fazer, eu queria uma outra vida para mim”, diz agora. E conta a história de uma infância duríssima. “Cresci no Pfaffenthal, numa casa sem casa de banho. Lembro-me que nunca podia levar um colega da escola a casa, porque a casa não tinha condições. Que não havia presentes no natal, a menos que fossem brinquedos usados das casas onde a minha mãe trabalhava a dias. E cresci sempre com o sentido de que queria fazer uma coisa diferente”, diz.


João Micaelo, o português que é melhor amigo do líder da Coreia do Norte
Tinham 13 anos quando fumaram às escondidas o primeiro cigarro das suas vidas. Cresceram juntos até aos 16 na Suíça e reencontraram-se adultos em Pyongyang. Este é João Micaelo, cozinheiro português e melhor amigo de Kim Jong-un.

Catellani chamava-o para assistente de investigação. “Falávamos por walkie-talkie e fazíamos perseguições danadas. Fartei-me de aprender com ele – e ele incentivou-me a fazer pequenos cursos de psicologia, a conhecer as leis, a aprender técnicas de disfarce”, conta. Os seus primeiros dez anos na atividade foram assim, com estatuto de freelancer. 

Em 2009, decidiu abrir a sua própria agência. Assim nasceu a Octogane Investigations. A maior parte dos casos, já se sabe, eram casos de adultério. Depois houve uma altura em que começou a trabalhar para a Sandstone, empresa fundada por Frank Scheider – antigo vice-diretor dos serviços secretos do país, o SERL. “Foi antes do escândalo que tornou Shneider no inimigo público número um do Luxemburgo. Ele pedia-me apenas para entregar correio, vigiar alguns homens de negócios, tentar entender com que fundos de investimentos esta ou aquela pessoa estavam a trabalhar.”

Schneider foi detido pela polícia francesa em 2021 e é agora acusado pelas autoridades norte-americanas de trabalhar para a OneCoin, uma criptomoeda usada para lavagem de dinheiro que o jornal inglês The Times definiu como um dos “maiores esquemas de corrupção da história financeira.” Bruce nega qualquer ligação a este caso. “As relações do Schneider com a OneCoin começam em 2015 e eu trabalhei para ele antes disso”, defende-se.

Fernandes também serviu tempo de prisão, e não tem vergonha de admiti-lo. “Tive um ginásio em Sandweiller que ardeu e as autoridades desconfiaram que eu tinha posto o fogo para ganhar o seguro. Passei nove meses em preventiva, mas até hoje não tenho acusação formada.” Se o assunto desta história é o amor e a traição, essa conversa importa pouco para o caso. A única coisa que ele tem a dizer é que, se nos assuntos do coração, nem sempre há justiça, não se pode esperar perfeição de nenhum sistema legal. A única coisa que ele vai continuar a procurar como detetive é o mesmo que espera dos tribunais: a verdade e nada mais que a verdade.

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