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O que o calor já está a mudar nas nossas vidas
Sociedade 10 min. 19.07.2022
Clima

O que o calor já está a mudar nas nossas vidas

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O que o calor já está a mudar nas nossas vidas

Foto: AFP
Sociedade 10 min. 19.07.2022
Clima

O que o calor já está a mudar nas nossas vidas

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
Julho está abater recordes de temperatura na Europa e nem os países tradicionalmente mais frescos parecem conseguir escapar. Do sul ao centro, os constrangimentos são os mesmos e já não afetam só as zonas rurais e do interior.

Transportes atrasados, avisos para evitar deslocações nas horas mais quentes do dia, adaptação das atividades laborais exteriores, eventos deslocalizados, churrascos e festejos com fogos de artifício proibidos ou desaconselhados. A realidade dos verões na Europa, cada vez mais quentes e com vagas de calor prolongadas no espaço e no tempo, já está a afetar a época estival tal como a temos conhecido e vivido até aqui.

Se é verdade que muitas das situações já foram experienciadas em determinadas zonas noutros anos e que nem todas têm o mesmo tipo de gravidade - como acontece com as povoações afetadas pelos incêndios - também é certo que o número de regiões atingidas em simultâneo e com uma frequência crescente por essas situações é maior.  E as implicações no dia a dia começam a fazer-se notar e a obrigar à alteração das rotinas de milhares de europeus.

Problemas de circulação e atrasos nos transportes

Os transportes são um dos exemplos. Desde ontem que países como França e Reino Unido emitiram avisos para atrasos de comboios que terão de circular mais lentamente devido ao risco de dilatação dos carris. 

Foto: AFP

Em Londres, as pessoas foram aconselhadas a não utilizar a rede de transportes públicos da cidade a não ser para "viagens essenciais", noticiou a CNN. O serviço de meteorologia do Reino Unido emitiu um aviso laranja de calor extremo de domingo a terça-feira, com algumas zonas, incluindo a capital do país, a passarem para vermelho. O país espera temperaturas recorde que podem superar os 40ºC. Esta terça-feira, refere o organismo no seu site, "foi registada em Heathrow uma temperatura provisória de 40,2°C, às 12,50 de hoje que, se confirmada, irá bater o recorde anterior de 38,7°C estabelecido em 2019".

Segundo a BBC, já na segunda-feira foram introduzidas em quase toda a Inglaterra e País de Gales restrições de velocidade dos comboios para prevenir o sobreaquecimento dos carris e a sua deformação. A Network Rail, que gere a maior parte da rede ferroviária britânica, aconselhou os passageiros a realizarem apenas viagens essenciais e avisou que as que fossem realizadas levariam significativamente mais tempo do que o habitual, havendo também mais hipóteses de cancelamentos. Os que tivessem mesmo de viajar foram ainda aconselhados a usar roupa fresca, levar pequenas ventoinhas de mão e reservas de água suficientes.


O fogo perto da praia em Pyla sur Mer, em França, ao lado de um hotel de 5 estrelas nesta localidade.
Finalmente assustados?
Já podemos romper a conspiração de silêncio e falar sobre o assunto que verdadeiramente importa: a nossa sobrevivência na Terra.

 A estação Kings Cross, de Londres, um dos centros ferroviários mais movimentados do país, estava, hoje de manhã, vazia, sem comboios a partir da movimentada linha da costa leste, que liga a capital ao norte e à Escócia, refere a Lusa, acrescentando que aeroporto de Luton, também na capital, teve de fechar a sua pista por causa dos danos causados pelo calor.

Em França, onde na segunda-feira foram batidos recordes absolutos de calor em 64 cidades, sobretudo ao longo da costa atlântica, o cenário não tem sido muito distinto. O país, que espera igualmente temperaturas recorde e horas de canícula esta terça-feira, preparou um plano nos transportes para a adaptação ao calor, passando por limites de velocidade.

Em Paris, onde as previsões apontavam para que os termómetros atingissem, esta terça-feira, os 41ºC, além da desaceleração em algumas linhas, a RATP planeou distribuir vários milhares de garrafas e pequenos ventiladores, assim como a transmissão de mensagens de vigilância face ao calor. A empresa responsável pelos transportes públicos da capital francesa disse, segundo o Le Parisien, estar também a testar um novo dispositivo de pulverizadores em Vincennes e Denfert, uma vez que os carris são muito sensíveis ao calor. A temperatura deverá atingir 57°C em algumas partes da via na terça-feira à tarde, "exigindo, como medida de segurança, a limitação da velocidade dos comboios", disse a empresa numa declaração citada pela AFP. 

Sobretudo para as linhas à superfície do metro, em alguns elétricos como o T2 e no RER foram anunciadas reduções de velocidade. Os comboios RER, por exemplo, só circularão a uma velocidade máxima de 60 km/h em vez dos habituais 100 km/h e o metro a 30-40 km/h em vez dos 60 km/h, refere a agência de notícias francesa. 


Calor. Alerta vermelho para todo o país na terça-feira
De acordo com o instituto de meteorologia, as temperaturas podem chegar aos 38ºC.

No Luxemburgo, que também está hoje em alerta vermelho, o CFL dá conta de algumas perturbações, nas linhas 90, 70 e 10, citando problemas técnicos mas sem se referir diretamente ao calor.

Em Portugal, a vaga de calor das duas semanas anteriores, que também levou o país a bater os recordes de calor deste século, foram registados problemas nos comboios. No dia 8 de julho, o ar condicionado de um comboio Alfa Pendular com destino a Braga avariou a meio da tarde e os passageiros tiveram de passar para dois comboios regionais para concluírem a viagem. Também na mesma tarde, perto de Pombal, a locomotiva de um comboio Intercidades avariou o que levou a atrasos de mais de uma hora e a CP, a empresa de caminhos de ferro portuguesa, a emitir avisos de limitações à velocidade  e consequentes atrasos à circulação de comboios de longo curso no dia seguinte e apelando aos passageiros para evitarem viajar nas maiores horas de calor.

Eventos e atividades de verão em risco

Em Portugal, e tal como está a acontecer agora em França, com cerca de 16.000 pessoas que foram evacuadas na região da Gironda, para fugirem aos incêndios, foi declarado até esta segunda-feira o estado de contingência, com uma série de proibições de atividades em espaços rurais, devido ao risco de fogos. A realização de alguns grandes eventos como a Concentração Motard de Faro e o Festival Super Bock Super Bock, no Meco, suspensos durante a pandemia quase que estiveram para não acontecer, tendo de se readaptar e retirar-se das zonas de campo. No caso deste último, que se realiza numa zona arborizada, entre a lagoa de Albufeira e a praia do Meco, no concelho de Sesimbra, a única opção foi mesmo deslocar o festival, a três dias do seu início, para a zona do Parque das Nações, em Lisboa.


A piscina Sky Pool, em Londres, enche-se de pessoas que se refrescam do calor que atinge a capital britânica.
A arte de fugir ao calor na Europa. Lagos e praias cheias
Depois da Península Ibérica a vaga de calor atinge esta semana os países do centro da Europa e o Reino Unido, onde as temperaturas podem atingir mais de 40ºC.

O evento regressa em 2023 ao Meco, mas numa localização diferente, que está ainda a ser estudada com a autarquia a fim de precaver as consequências de novas ondas de calor e que garanta a segurança e a acessibilidade que a lei exige. Ou seja, "um espaço que não seja florestal, que seja urbano ou agrícola, e que tenha bons acessos” disse o promotor Luiz Montez à agência Lusa.  

A circulação em florestas, a realização de queimadas, trabalhos nos espaços florestais ou agrícolas com recurso a maquinaria ou a utilização de fogo-de-artifício ou outros artefactos pirotécnicos, usuais nas festas de verão que decorrem pelo país, nesta altura, continuam proibidas, uma vez que o território português, embora já sem o estado de contingência em vigor, ainda está em estado de alerta.

No Luxemburgo, os bombeiros também deixaram, entre outros conselhos, a recomendação para a população limitar os churrascos aos locais apenas destinados para esse efeito.

Habitações pouco preparadas para o calor e sem ar condicionado

O problema das vagas de calor não se vive só no exterior. Em muitos países da Europa e mesmo em zonas mais frias dos estados do sul do continente, as habitações estão preparadas para as temperaturas baixas mas não para as mais altas.

Poucas casas particulares e até pequenas empresas possuem ar condicionado ou forma de climatizar os espaços de forma a torná-los mais frescos.  

Fechar persianas, cortinas e janelas durante o dia, e abrir só à noite para entrar ar fresco, é uma das soluções alternativas recomendadas pelas autoridades.

Trabalho e organização do trabalho

As temperaturas altas levam as autoridades a apelar a cuidados redobrados com a saúde. Entre eles está o evitar a exposição solar e as atividades no exterior nas horas de maior calor e concentração elevada dos níveis de ozono. 

Alguns setores profissionais como a construção civil ou a agricultura estão, pelas suas características, especialmente expostos às condições climatéricas adversas. 


O direito do trabalho prevê que em situação de calor extremo, as empresas possam recorrer ao subsídio por intempéries.
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Quando o calor se torna insuportável, trabalhar pode ser um pesadelo. Algumas recomendações para o bem-estar de quem trabalha no exterior ou no escritório.

No Grão-Ducado, o aumento das temperaturas não impede o trabalho, nem há uma definição dos valores acima ou abaixo dos quais um trabalhador tenha direito a interromper a sua função. 

No entanto, as recomendações das autoridades de saúde e as opções recomendadas devem ser seguidas, lembra a OGBL num post do Facebook, dirigido aos trabalhadores e empregadores da construção civil. "É importante que empregadores e empregados sigam as recomendações oficiais", refere a estrutura sindical, incentivando os trabalhadores a reportarem casos de incumprimento. 

Nos trabalhos ao ar livre, o empregador deve estabelecer "áreas de sombra, se possível, bem ventiladas", "fornecer 3 a 4 litros de água potável" e "reduzir os trabalhos que exigem ação física sustentada e prolongada perto, ou em contato com chapas, betão ou superfícies alcatroadas, sob luz solar direta” e “garantir que o uso de proteção individual seja compatível com altas temperaturas”, refere a Inspeção do Trabalho e Minas . 

Já nos trabalhos no interior de instalações, o empregador deve “monitorizar a temperatura das instalações fechadas” e “fornecer aos trabalhadores meios úteis para combater o calor (ventilador...)”.  

No Luxemburgo,  as empresas também podem, sob determinadas condições, recorrer a um regime de desemprego temporário devido a intempéries, incluindo calor extremo, embora este raramente seja acionado como referiu à RTL a ADEM, esta terça-feira. 

Em muitos casos, como reporta a estação pública, para evitar trabalhar nas horas mais quentes, nos estaleiros de construção civil, os horários são adaptados. Começa-se mais cedo para se terminar mais cedo e evitar-se o calor da tarde.

Saúde e qualidade do ar

Embora no Luxemburgo, o pior esteja previsto para hoje - as temperaturas baixam já esta quarta-feira para valores normais -, as vagas de calor tendem a suceder-se e o seu impacto na saúde pode ser grave e até mortal.

AFP

Há riscos de problemas de saúde generalizados, mesmo em pessoas saudáveis, como desidratação, riscos de AVC ou de situações que afetem pessoas vulneráveis como idosos, crianças, pessoas com doenças crónicas ou com problemas de saúde mental, que têm de tomar medicação ou que se encontrem isoladas.

Febre acima dos 40°C, pele quente, vermelha e seca, dores de cabeça, náuseas, sonolência, sede intensa, confusão, convulsões, perda de consciência são sintomas aos quais se deve estar atento.


Britânicos enfrentam temperaturas sem precedentes no país
A última noite no Reino Unido foi a mais quente de sempre para milhões de pessoas, num país acostumado a clima ameno e chuva, e as temperaturas devem hoje chegar a 40 graus Celsius.

Beber muita água regularmente durante o dia, evitar sair nas horas mais quentes do dia (11h-21h) usar roupas leves e chapéu, limitar as atividades físicas, manter as habitações o menos quente possível, tentar permanecer num local fresco ou com ar condicionado (supermercados, cinemas, etc.), molhar o corpo ao longo do dia são conselhos comuns nos países mais quentes da Europa, durante o verão, há várias décadas, mas também uma realidade cada vez mais presente no Luxemburgo, como testemunhava esta terça-feira a lista de recomendações das autoridades luxemburguesas na sequência do alerta vermelho emitido para o calor.

Especialistas em clima alertam que o aquecimento global aumentou a frequência de eventos climáticos extremos e probabilidade de países com climas mais amenos, como os do centro e norte da Europa, poderem registar temperaturas na ordem dos 40ºC com mais regularidade.

Além disso, a seca e as ondas de calor ligadas às mudanças climáticas também tornam os incêndios florestais mais difíceis de combater e a sua ocorrência mais dispersa no continente. 


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