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O que a minha filha nunca me disse, mas não importa
Opinião Sociedade 3 min. 26.10.2022
Andamos todos ao mesmo

O que a minha filha nunca me disse, mas não importa

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O que a minha filha nunca me disse, mas não importa

Foto: Unsplash
Opinião Sociedade 3 min. 26.10.2022
Andamos todos ao mesmo

O que a minha filha nunca me disse, mas não importa

Paulo FARINHA
Paulo FARINHA
"Abranda um pouco. Pela tua saúde e pela minha, pela nossa, mas sobretudo pelo teu bem-estar, abranda um pouco."

"Abranda um pouco, pai. Não corras tanto. O mundo não vai acabar amanhã e hoje, ao fim do dia, vais continuar a ter coisas para fazer. Elas continuarão a estar lá de manhã. E no dia seguinte. E no outro. Abranda um pouco. Pela tua saúde e pela minha, pela nossa, mas sobretudo pelo teu bem-estar, abranda um pouco.

Não queiras ir a todas. Há coisas que às vezes tens de deixar para trás. E há alturas em que terás de deixar tarefas para o dia seguinte. Para assim conseguires dormir. E ler. E ver televisão. E estar com os amigos. E fazer exercício. E passar tempo comigo e com a minha irmã.

Sabes aquilo que te ouço tantas vezes a aconselhar aos outros? Aquilo dos emails. Que nunca vão conseguir ter o inbox a zero. Nunca conseguirão ter os emails todos respondidos e a caixa de entrada imaculada. Porque enquanto respondem a um entram quatro. E depois mete-se uma coisa qualquer da vida. Sabes do que falo, não sabes, pai? Lembras-te? Põe em prática. Deixa coisas para concluir, assuntos para resolver, telefonemas para fazer. 

Às vezes vais achar que é procrastinação, outras vais perceber que és só tu a tratar da tua saúde mental. Umas coisas vão provocar-te ansiedade, mas outras vão trazer-te alívio. A sério, acredita na tua filha de 10 anos que não te está a dizer isto, mas que um dia, quando crescer, talvez tenha a capacidade de interiorizar tudo e o explicar da melhor forma possível. Porque tu precisas, já percebi. Sou uma pré-adolescente, mas já percebi que precisas disso.

Eu sei que esta conversa está só a existir na tua cabeça e que isto é só uma forma de tu te convenceres que estás a fazer tudo bem a partir daquela que é habitualmente a voz da consciência dos pais: os filhos.

Mas está mesmo tudo bem, pai. Se relaxares em algumas coisas, talvez te convenças mais facilmente que não precisas de correr em casa para não falhar no trabalho e não precisas de correr no trabalho para não falhar em casa. Quer dizer, há dias que tens de o fazer, para não deixar cair nenhuma bola. Eu sei. Mas nos outros dias, nos que não têm sobressaltos, naqueles em que os rios continuam a correr para o mar e o sol continua a nascer e a pôr-se, nesses dias podes abrandar esse sentimento de culpa constante e acreditar numa coisa em que eu penso muito, mas tu precisas de ouvir: estás a fazer tudo bem. Vá, repete comigo: estás a fazer tudo bem.

Estás a fazer o melhor que podes, com as ferramentas que tens, dentro do que tu controlas. Gostas de nós, queres dar-nos conforto e segurança, queres garantir que não falta comida na mesa, que aprendemos e que temos de aprender e que temos o coração no sítio certo. E o resultado está à vista: eu e a minha irmã estamos a crescer bem, somos seres humanos decentes e isso deve-se a ti e à mãe.

A sério, pai, relaxa. Tens mais motivos de orgulho do que de preocupação. Mais coisas para agradecer do que para pedir. Por isso relaxa. Ganhas tu, ganho eu, ganhamos todos.

Nesta correria constante em que tu e os outros adultos todos vivem – nomeadamente as maratonas e os sprints que fazem dentro das vossas cabeças, onde passam tanto tempo –, vocês têm tendência para não se lembrarem sempre disto. Parem um pouco, respirarem fundo e acreditem que estão só a fazer o melhor que podem. E isso não é coisa pouca.

Agora vai e diz isso aos teus amigos. Os filhos deles também agradecem."

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Passamos boa parte da vida a correr de um lado para o outro e a lamentar a falta de tempo para o que gostaríamos. Falta-nos sempre alguma coisa para nos sentirmos completos e cheios e concluídos e realizados.
Paulo Farinha
@Rodrigo Cabrita
Toda a vida estranhei os amigos que, ao contrário de mim e de tantos, não tinham uma aldeia dos pais a que voltavam no verão. Chegava agosto e eles não iam "à terra".
Os queixumes incluem também "estou entediada" e "isto é tão chato". As minhas filhas de 8 e 9 anos não são caso raro de aborrecidite, essa maleita que ataca as crianças habituadas a muitos estímulos.