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O primeiro ano do resto das nossas vidas
Editorial Sociedade 3 min. 18.11.2020

O primeiro ano do resto das nossas vidas

O primeiro ano do resto das nossas vidas

Florin Balaban
Editorial Sociedade 3 min. 18.11.2020

O primeiro ano do resto das nossas vidas

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
A sucessão de novos coronavírus exige que para além de se mitigar a extensão da catástrofe, se tente ir à origem do problema. É necessário um modelo de desenvolvimento mais justo, sustentável, respeitador dos equilíbrios da natureza.

No conhecido filme “Underground”, do realizador sérvio Emir Kusturica, um conjunto de pessoas vive num mundo subterrâneo convencidos que à superfície o planeta está numa guerra total e praticamente destruído. Um resistente oportunista que tinha montado com um amigo uma fábrica subterrânea de armas, convence, este e umas dezena de pessoas, a continuarem escondidos nas profundezas da terra, fazendo um trabalho escravo, que contribui para a riqueza do aldrabão.

O filme, de três horas, começa com uma cena em que ao amanhecer de um domingo de 1941, dois turbulentos boémios, Crni e Marko voltam de uma farra dando tiros para o ar, seguidos por uma orquestra musical diabólica e ruidosa. Aos sons da festa misturam-se as explosões de um bombardeamento nazi que faz estremecer Belgrado. As bombas deixam um rasto de fogo no jardim zoológico da cidade, matando animais e deixando feras à solta pelas ruas, rondando como espetros.

Durante a ocupação nazi, os dois amigos montam uma fábrica de armas nos subterrâneos da cidade. Mas a guerra acaba e Marko que está na superfície “esquece-se” de avisar os outros, mantém seus amigos do subterrâneo na ignorância, dizendo que a guerra e a ocupação continuam, e que o seu esforço e sacrifício é fundamental para uma longínqua vitória, mas certa.

O filme é uma alegoria da implosão da Jugoslávia. Mostra que perante determinadas circunstâncias a nossa civilização tem um fino verniz, em que irrompe a pior das selvajarias. A cena inicial, das feras assustadas pelas bombas, dá o tom.

É óbvio que esta guerra existiu e que determinados conflitos e violências podem estar sempre latentes. Como é evidente que a pandemia é bem real e os seu desfile de infetados e mortes, matraqueados a cada segundo, não são inventados.

Mas mais que os mortos que ela vai causar, aquilo que pode perdurar é o medo, a miséria, a desigualdade e os métodos que são usados para a combater. A utilização do estado de exceção, como forma de política corrente na gestão das crises, arrisca-se a perdurar.

Os motivos parecem pios e a defesa da saúde pública uma razão poderosa, mas a forma como se aborda a doença e a gigantesca crise económica que se avizinha vai determinar a forma como vamos viver as próximas décadas.

Se vamos viver como em subterrâneo e escravizados pelo medo, que nos é incutidos por aqueles que nos querem permanentemente submissos, e ganham com uma situação social cada vez mais desigual; ou se percebemos as razões por que é que esta crise pandémica começou e as suas implicações.

O nosso modelo de desenvolvimento baseado numa industrialização desenfreada, com o lucro como primeiro critério de vida, tende a destruir o planeta. Tal como no filme, a nossa capacidade destrutiva entra em todos os espaços e liberta as feras.

O problema não é novo, foi há dez mil anos, com o nascimento da agricultura, que as pestes e as epidemias começaram. Foi nessa altura que algumas das doenças hoje comuns e facilmente curáveis entraram na história humana. O contacto com vírus selvagens e de animais domesticados levou às primeiras epidemias. O armazenamento de grãos favoreceu a proliferação de ratos que, por sua vez, transmitem doenças como a peste bubónica. As gripes originaram-se de vírus endémicos em galinhas, e o vírus da varíola humana resultou da mutação do vírus da varíola bovina, só para dar alguns exemplos.

O que mudou agora foi a aceleração exponencial do nosso desenvolvimento. A sucessão de novos coronavírus exige que para além de se mitigar a extensão da catástrofe, se tente ir à origem do problema. É necessário um modelo de desenvolvimento mais justo, sustentável, respeitador dos equilíbrios da natureza e que não condene a maioria da humanidade a sobreviver , cada vez mais pobre e fechada.

Para nosso bem, desta crise devia resultar não só o reforços dos serviços nacionais de saúde públicos, como uma outra economia mais ecológica e democrática.

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