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Fez uma promessa e não a consegue cumprir? Há quem o faça por si
Sociedade 7 min. 13.05.2022
Religião

Fez uma promessa e não a consegue cumprir? Há quem o faça por si

O pagador de promessas tem como "clientes" mais assíduos as pessoas que por velhice ou por incapacidade física de outra ordem não possam fazer o trajecto como ele faz.
Religião

Fez uma promessa e não a consegue cumprir? Há quem o faça por si

O pagador de promessas tem como "clientes" mais assíduos as pessoas que por velhice ou por incapacidade física de outra ordem não possam fazer o trajecto como ele faz.
Foto: Valter Vinagre
Sociedade 7 min. 13.05.2022
Religião

Fez uma promessa e não a consegue cumprir? Há quem o faça por si

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Pelos insondáveis caminhos da fé, há quem não possa fazer a viagem. De Portugal para o mundo, eis Carlos Gil, um peregrino muito especial, que resolve esse problema. Ao Santuário de Fátima ou aos confins do mundo, paga as promessas que os outros fizeram e acerta as contas com a devoção. Como bom pagador, é pago.

Em mão cerrada, o polegar viaja, reverencial, ao centro, à testa, descendo ao peito, descrevendo a rota para o perdão dos nossos pecados, para a nossa tranquilidade, para o nossa absolvição, indo à esquerda, indo à direita, desenhando a nossa cruz. A cruz é o nosso pequeno mundo, o nosso mundo, o mundo maior que nós, o mundo que nos transcende, aquém e além, o mundo que temos, que não vemos, que queremos, os nossos mortos, os nossos vivos, as luzes, as sombras, as almas, mundo nenhum e o mundo inteiro, este e o outro. 

Se a linha fosse recta, recto era o caminho. E, se não houvesse carros na estrada, de nada servia a estrada. Mas, enquanto houver promessas por cumprir no Santuário de Fátima, à beira da estrada se encontrarão peregrinos a driblar a berma, lutando contra o cansaço e as tangentes do trânsito pesado do trilho mariano, que coincide com a Nacional número 1, outrora número um em acidentes.

Não será aí que encontram o pagador de promessas. Costuma sair de Cascais, onde reside, faz toda a marginal em direcção a Lisboa, a pé, sempre a pé, ao solinho pelos trilhos calcetados de praia ou no âmago de uma qualquer intempérie que o visite no trajecto. Se não for uma lesão muscular ou um imponderável próprio de quem faz tantos quilómetros a caminhar, nada detém este peregrino, que transporta a sua e a fé dos outros, caminhando como se estivesse numa viagem ao seu interior, levando consigo promessas que ele não fez, entregando-as à procedência, levando ao destino a vontade do remetente, cumprindo o mote, que não um "slogan", que apresenta na terceira pessoa, apresentando-se: "Se tem uma promessa por cumprir e não o pode fazer ou se simplesmente quer agradecer a Nossa Senhora de Fátima as boas graças recebidas ao longo da vida, Carlos Gil percorre por si o caminho de Fátima a pé. E transporta com ele o pagamento da sua promessa". Cada promessa, 2500 euros, salvo inflação.

"Engordo sempre nas peregrinações. Normalmente faço os 165 quilómetros desde Cascais a Fátima em seis dias, sete no máximo”.
"Engordo sempre nas peregrinações. Normalmente faço os 165 quilómetros desde Cascais a Fátima em seis dias, sete no máximo”.
Foto: Valter Vinagre

Carlos "Barbudo" Gil é de certo modo profissional no que faz, mas não entende esta sua actividade como profissão. Diz-se apenas um peregrino, modesto, como um peregrino se quer. As suas botas patrocinadas estão gastas do pó e dos quilómetros, o seu bastão, oferta do pai, que guarda religiosamente, é muitas vezes a sua única companhia. Se retirarmos do equipamento um telemóvel topo de gama, um impermeável tipo camping, a camisola térmica, a mochila, tipo 'tracker', e as calças, tipo Coronel Tapioca, é como se fosse uma reencarnação, variante pós-moderna, dos caminhantes da Idade Média, pagos por famílias abastadas para percorrer os caminhos sacros. Tem 57 anos mas, em peregrinação, as pernas não lhe pesam.

Epifania ao sol

De Cascais a Lisboa, já se sabe, o caminho não é lá muito sacro. Envolve pressa, acelerador e travões, semáforos e outras coisas mundanas como declarações amigáveis, ruído, poluição e, "graças a Deus, mar". Aliás, "para mim é a parte mais difícil de todo o percurso", diz Carlos Gil. O pagador de promessas gosta tanto da malha urbana da capital como o Diabo daquilo que serve alimento a Fátima. A sua primeira etapa até à zona da Expo, por isso, implica um certo esforço. Há tempos, pernoitava no albergue de juventude da Expo, mas hoje em dia nem isso. Normalmente, prefere seguir em direcção a Sacavém, tendo por simetria as margens do Tejo e do Trancão, percorrendo esta espécie de purgatório suburbano de cenário pós-apocalíptico, sujo e fumarento, antecipando as lezírias, pelo chamado Caminho do Tejo, noutro mundo.

Liberto dos resquícios de urbanidade, que lá mais à frente prometem reencontro, é como se as suas pernas se tornassem mais leves, pintando-se os campos com as cores vivas da clarividência, estacionados no tempo, como se tivessem sido inventados pelos neorrealistas, que haviam de dispensar as 'pickups' todo-o-terreno à porta dos celeiros e a maquinaria agrícola. Foi por ali, no interposto do Tejo dos avieiros, que um dia o pagador de promessas, ao nascer do dia, teve uma revelação, algures entre Vila Nova da Rainha e Valada, algures entre a expressão e o impressionismo: "Esperava pelo nascer do dia junto a uma ponte, quando a luz chegou e me colocou perante um campo imenso de girassóis. Acho que nunca tinha visto uma coisa tão bonita. Naquele instante, percebi perfeitamente a 'pancada' do Van Gogh".

Pelos campos, Carlos Gil já sabe perfeitamente onde pernoitar, onde encontrar uma casa que lhe dará guarida, um chão onde estender o saco-cama. E, evidentemente, alimento. Conhece tão bem as tascas e os restaurantes que o atravessam como um caixeiro-viajante em digressão. E, fenómeno estranhíssimo, "engordo sempre nas peregrinações". Não é que a caminhada, explica, não seja exigente fisicamente. "Normalmente faço os 165 quilómetros desde Cascais a Fátima em seis dias, sete no máximo".

Seguindo o velho pleonasmo cristão que o caminho se faz caminhando, o pagador de promessas já está em sacro-trânsito desde sábado passado. A peregrinação deste ano é a todos os títulos especial, não fosse a primeira depois de uma longa pandemia. Se tivesse de definir o sentimento antes da partida, ocorreu-lhe apenas uma palavra a dobrar: "alegria, alegria". A pandemia tem todos os ingredientes para um pagador de promessas. Este ano, Carlos Gil leva várias para cumprir. No entanto, há sigilo a respeitar. Faz parte do seu especial métier não discutir seja com quem for as promessas que transporta no seu alforge transcendental. Este ano, a primeira promessa que vai cumprir é sua. Irá partir de Agualva-Cacém, onde se cumpriu um dos sonhos da sua vida: a fundação da Quinta Pedagógica Casal dos Guerreiros, de acolhimento para pessoas carenciadas, na sua maioria de Cabo Verde. A sua promessa particular fez com que alterasse a sua rota normal, para a cumprir em Mafra, por razões pessoais.

O pagador de promessas tem como "clientes" mais assíduos as pessoas que por velhice ou por incapacidade física de outra ordem não possam fazer o trajecto como ele faz. "Muitos ex-combatentes da guerra do ultramar", refere. Depois de uma entrevista ao jornal The Guardian, britânico, e a uma cadeia televisiva alemã, já faz mais de uma década, Carlos Gil passou a atender pedidos de todo o mundo. Nas horas vagas, vende casas na Remax. Já teve de correr mundo, para pagar promessas. Já foi aos Andes, ao longínquo Machu Picchu, no Peru. Também se deslocou a Angola, ao santuário de Muxima, a cerca de 140 quilómetros de Luanda, no distrito de Bengo, onde tinha encontro marcado com a imagem de Nossa Senhora de Muxima.


Peregrinos ,negócios e ambientes.
Je vous salue Marie
No passado 13 de Outubro, que assinala a “sexta” aparição de Nossa Senhora do Rosário aos três pastorinhos, o Santuário de Fátima encheu-se de novo de gente. Algo que em 109 anos da sua existência, nunca tinha acontecido, aconteceu nos dois anos anteriores. Voltou a Fátima o seu alimento: a multidão.

No entanto, de todos os locais onde já foi peregrino, nenhum outro lhe oferece "paz de espírito e comunhão como o Caminho do Tejo", pelas lezírias sem fim, por diques e praias fluviais, pelo território da Cumeada, pelo maçico da Serra d'Aire, atravessando o Parque Natural da Serra d'Aire e Candeeiros. E, irrompendo da natureza, eis o peregrino ante força maior, que faz com que desligue o telemóvel, impondo-se silêncio, concentração absoluta na sua missão de agradecimento às boas graças concedidas, que sendo em nome de outrém, é sua. "Estudei alguns anos num colégio para padres em Braga. Se não fosse o 25 de Abril, era hoje o padre da família".

25 de Abril nenhum, isso Carlos Gil sabe melhor que ninguém, demoveriam a força de Fátima, a aura de inexplicabilidades que paira sobre o "Altar do Mundo". Sobre Fátima é mais o que não se explica do que o contrário: "Nota-se aqui uma força que nos faz sentir perante algo maior". É essa força que convoca o sorriso de quem não é capaz de se levantar de uma cadeira-de-rodas, que faz correr as lágrimas nas faces ou o sangue nos joelhos. Seja como for, "acho que cada um tem a sua cruz", nesta epifania colectiva que é a nossa individualidade.

Sendo assim, se cada um de nós tem a sua, então que cruz é esta? Será Deus a nossa mecânica? Guiar-nos-á? Será o primeiro divisionista ou o supremo unificador? Se o mundo é este, que Deus temos? Se temos Deus, que mundo é este? E, já agora, o que é que isto tem a ver com a fé? Provavelmente, nada. Fé, provavelmente, é outra coisa. "Fé é fé", resume Carlos Gil. Fé? Dela sabemos isto: é preciso ter fé para acreditar nela.

Não se julgue, pois, que só por ser fé, esta é pessoal e intransmissível. Se assim fosse, este peregrino não a podia levar consigo.

(Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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