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"O objetivo do inquérito é reduzir todas as formas de discriminação e racismo"
Sociedade 8 min. 19.05.2021

"O objetivo do inquérito é reduzir todas as formas de discriminação e racismo"

"O objetivo do inquérito é reduzir todas as formas de discriminação e racismo"

Sociedade 8 min. 19.05.2021

"O objetivo do inquérito é reduzir todas as formas de discriminação e racismo"

Madalena QUEIRÓS
Madalena QUEIRÓS
Cerca de 15 mil inquéritos serão distribuídos no Grão-Ducado para identificar comportamentos racistas e de discriminação, explica o investigador Frédéric Docquier, do Liser. A comunidade portuguesa no país será um dos grupos a ser analisado.

 Qual é o objetivo deste estudo sobre racismo e discriminação no Luxemburgo?

O estudo foi pedido ao ministério da Integração, Família e Grande Região, pela Câmara de Deputados. O objetivo é lançar um grande inquérito para recolher as perceções da população luxemburguesa e estrangeira sobre o racismo e a discriminação.


A pele em mim - Ser negro no Luxemburgo
Uma reportagem multimédia sobre a história de cinco pessoas negras e de que forma a discriminação racial se manifesta nas suas vidas.

Existe um inquérito anterior "Ser negro no Luxemburgo" que tentava medir a dimensão da amplitude do racismo sentido pela população negra, no país. Mas a Câmara dos Deputados pretende ter uma visão mais global do racismo e discriminação. O ministério pediu-nos para levar a cabo este inquérito e recolher informação sobre os indivíduos que vão responder às seguintes questões: Se são originários de outro país ou do Luxemburgo? Se falam a língua ou não? Onde residem? Se são ou não expostos às migrações?

Vamos recolher dados individuais e fazer a relação com a sua perceção do racismo. Para começar pretendemos perceber as suas atitudes em relação racismo através de determinadas questões: Se pensam que há muitos migrantes e se devem diminuir? Se acham que há raças superiores? Se o racismo aumentou ou diminui, nos últimos anos? Se pudessem escolher os seus vizinhos se evitariam uma determinada categoria da população? Estas são algumas das questões.

O objetivo final do estudo é reduzir todas as formas de discriminação no Luxemburgo. Esperamos que as minorias mais afetadas pela discriminação respondam.


A comunidade imigrante portuguesa do Luxemburgo será um dos grupos a ser analisado?

Sim. Já construímos as amostras a ser tidas em conta, de acordo com os indicadores da população que constam da Segurança Social.

Pretendemos entrevistar cerca de 15 mil pessoas. Não quer dizer que todas respondam, mas enviaremos questionários a esse universo. Dessas 15 mil pessoas teremos cerca de 8150 pessoas que serão tiradas à sorte da totalidade da população. Se os portugueses são cerca de 20% da população total do Luxemburgo, representaram 20% desse grupo. Os restantes a ser questionadas serão escolhidos das populações mais representadas no Luxemburgo e que correm mais risco de discriminação. Os portugueses, que são cerca de cem mil no Luxemburgo, estão entre as populações mais representadas. Vamos reservar-lhes uma percentagem de questionários proporcional ao peso da população. E vamos juntar inquéritos a mais 1150 portugueses. Esperamos assim, apesar da percentagem de respostas possa ser mais baixa, ter portugueses suficientemente representados no inquérito.

E depois haverá cinco mil inquéritos enviados para a população mais em risco de discriminação como os originários de países terceiros da África Subsariana, da África do Norte e do Médio Oriente.


O Tribunal Europeu de Justiça tem assento no Luxemburgo.
Nacionalidade é o primeiro fator de discriminação no Grão-Ducado
De acordo com o último inquérito do Observatório da Discriminação, 20% dos residentes no Luxemburgo confessam já se terem sentido alvo de discriminação. Destes, 46% garantem que a nacionalidade foi um fator determinante.

O Luxemburgo é um dos países com mais migrantes de toda a União Europeia, não poderá ser considerada um exemplo de integração?

É certo que, em termos de rendimento por habitante, o Luxemburgo é um país muito rico. E em termos de percentagem, os migrantes representam quase metade da população, o que representa uma situação atípica na União Europeia. Porque na maioria dos países europeus ou nos EUA, os migrantes representam entre 12% e 15% da população e no Luxemburgo temos quase 50%. Podemos dizer que o Luxemburgo é um país em que os migrantes se integram bem. Mas se olharmos para as estatísticas da imigração, no Luxemburgo os salários são mais elevados que noutros países de imigração como França, Bélgica e Alemanha. Mas o nível de remunerações e o vínculo de emprego dos imigrantes é diferente do dos luxemburgueses. Quando olhamos para as minorias da União Europeia, que vêm de países terceiros como a África Subsariana, Médio Oriente e África do Norte, constatamos que a remuneração é mais elevada que em França, Bélgica ou Alemanha, porque a produtividade é mais elevada, mas a diferença do salário face ao pago aos luxemburgueses é elevada. Em geral, no Luxemburgo, os imigrantes não são tratados de forma totalmente negativa mas constatamos que, apesar de tudo, há uma diferença importante de rendimento dos imigrantes face aos luxemburgueses.

O estudo ’Crossing Borders’ conclui que revelar os estereótipos inconscientes reduz os comportamentos discriminatórios...

O estudo que publicamos através do programa ’Crossing Borders’ em que contactamos investigadores de todas as universidades do mundo, que trabalham sobre as temáticas da migração, para que disponibilizem um resumo de um artigo importante que publicaram. O que fazemos é identificar todos os artigos que têm uma mensagem importante a passar sobre as migrações e fazemos o convite para publicar no nosso centro um resumo de quatro a cinco páginas.

Este estudo que publicamos da autoria de dois investigadores da Universidade Bocconi e uma investigadora italiana que está na Universidade de Harvard, nos EUA, sobre a revelação dos estereótipos tem atualidade para nós, porque queremos lançar este inquérito sobre racismo e discriminação.

Os luxemburgueses poderão interrogar-se quanto à razão de lançar este inquérito. Para começar serve para fazer um “estado de arte”, um balanço da situação atual.

Mas o que nos mostra este estudo é que quando lançamos um inquérito sobre comportamentos discriminatórios e informamos a população em causa, neste caso os professores do ensino secundário italiano, que têm um comportamento discriminatório o que acontece? Para uma parte dos docentes isso nada vai mudar, se são racistas e se discriminam quando lhes dizemos que estão a discriminar nas classificações isso acaba por não mudar nada no seu comportamento.

Mas existe um outro grupo de docentes que não consideram que se deve dar prioridade aos italianos, face aos estrangeiros, e que apesar, de tudo no seu estereótipo revelam preferências, mas preferências inconscientes. Quando são informados que se comportam de forma discriminatória eles mudam e param de se comportar de forma discriminatória. Pelo contrário, têm a tendência em aplicar a discriminação positiva e dar a prioridade e vantagem às minorias.

O que é interessante neste estudo é que, para uma parte da população que por causa da sua educação tem estereótipos e pequenas preferências discriminatórias inconscientes, o facto de os informar muda o seu comportamento, no bom sentido. E o inquérito que vamos aplicar vai permitir informar a população desse comportamentos que, por vezes são completamente inconscientes.

E para aqueles que têm um comportamento discriminatório inconsciente, o facto de os informar que há discriminação no Luxemburgo, no local de trabalho, na habitação, nos transportes públicos, isso poderá influenciar e acabar com esse comportamento discriminatório.

Já há alguma ideia da proporção dos comportamentos discriminatórios no Luxemburgo?

No Luxemburgo vamos lançar este inquérito, mas não temos qualquer ideia da proporção de indivíduos que vão, por exemplo, dizer: “Se houver uma falta de lugares no mercado de trabalho ou de habitação, os luxemburgueses devem ser prioritários”; “Penso que há demasiados imigrantes no Luxemburgo, que os imigrantes não se integram bem, não sabem falar bem a língua luxemburguesa”. Haverá uma série de indivíduos que vai responder de forma anti-imigração e de forma racista. Nestes casos revelar que há muita discriminação no Luxemburgo, não sabemos ainda se será o caso, mas imaginemos que chegamos a essa conclusão, mas não deverá alterar o seu comportamento porque já tem uma ideia preconceituosa.

Mas existem muitos outros que vão dizer: “Não penso que haja raças superiores ou inferiores”; “Não sou racista”; “Penso que a imigração gera efeitos positivos para a comunidade luxemburguesa”.

Mas depois vamos dizer-lhes: “Sabia que no Luxemburgo há discriminação no mercado de trabalho, no alojamento, nos transportes públicos, no acesso à saúde?”

Ao revelarmos essa discriminação é possível, segundo o estudo que já falamos, que revelar isso, a pessoas que não têm comportamentos racistas conscientes, ou estereótipos muito marcados, que isso mude radicalmente a sua perceção da sociedade e que se tornem mais atentos e mais cautelosos quando vão interagir com os estrangeiros.

Vão fazer um estudo também sobre a discriminação no sistema educativo? O relatório do PISA da OCDE revela que o Luxemburgo é o país em que as condições socio-económicas dos estudantes são mais determinante nos seus resultados…

Para começar devo clarificar que o inquérito não vai centrar-se nas medidas discriminatórias nos diferentes sectores.

Não vamos medir no terreno a discriminação, o que vamos é perguntar às pessoas a sua perceção. Efetivamente na sua perceção vamos perguntar-lhes se acham que há uma discriminação no Luxemburgo que é baseada numa série de características étnico-raciais, como a cor da pele, a forma de se exprimirem ou a religião. Haverá características que geram mais discriminação que outras? Depois vamos perguntar-lhes se pensam que há locais ou setores da sociedade em que há mais discriminação como, por exemplo, na procura de trabalho, na habitação, no acesso à saúde e também no setor da educação. Vamos pedir às pessoas sondadas que nos deem a sua perceção da discriminação, enquanto testemunhas, ou enquanto vítimas. Enquanto vítimas podemos ter testemunhos de estrangeiros que dizem que os seus filhos são sistematicamente discriminados na escola ou que, por exemplo, o insultam com base na sua origem. Vamos tentar perceber esta perceção, sem ir ao terreno.

Esta é uma forma de decompor a questão. De tentar identificar as formas de discriminação e os meios onde elas mais se exercem.

Espero que o ministério, se identificarmos os setores em que a discriminação é muito forte e marcada, nesse momento nos dê os meios e fazer um inquérito no terreno e mais experimental para medir essa discriminação no terreno. Mas essa será uma segunda etapa.

Imaginemos, por exemplo, que 60% da população pensa que há discriminação na escola. Nesse caso vamos centrar a investigação na escola e vamos fazer uma análise com técnicas diferentes sobre o tema da discriminação.  

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Os cidadãos europeus compõem a maioria da imigração no Luxemburgo, país que, sem surpresas, regista a taxa mais elevada de imigração na UE. Em 2015 havia 42 imigrantes por 1.000 habitantes no Luxemburgo.