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O negócio negro dos medicamentos mais caros do mundo
Sociedade 5 min. 03.07.2019

O negócio negro dos medicamentos mais caros do mundo

O negócio negro dos medicamentos mais caros do mundo

Foto: Shutterstock
Sociedade 5 min. 03.07.2019

O negócio negro dos medicamentos mais caros do mundo

Bruno Amaral DE CARVALHO
Bruno Amaral DE CARVALHO
Os baixos rendimentos são, na maior parte das vezes, um obstáculo no acesso a tratamentos caros, quando não há comparticipação do Estado, nem sempre a política da indústria farmacêutica é a mais transparente.

Foi só no fim de maio que o departamento norte-americano responsável pela aprovação de medicamentos deu luz verde ao Zolgensma, que é já o medicamento mais caro do mundo, avaliado em 2,1 milhões de dólares. Mas há outras terapias, para além deste produto da AveXis, empresa de biotecnologia da farmacêutica Novartis. A encabeçar a lista de remédios inacessíveis aos bolsos da esmagadora maioria das pessoas está também o Luxterna com um custo de 850 mil dólares, também de dose única, que pertence à Spark Therapeutics e trata de problemas de visão. Ravicti é outro dos medicamentos com preços exorbitantes. É composto por um líquido comercializado pela Horizon que custa 793 mil dólares e que evita a acumulação de amoníaco no sangue de pacientes com problemas no ciclo da ureia. De acordo com o The Guardian, a farmacêutica Biogen é a que detém o tratamento prescrito em Portugal à bebé Matilde. O Spinraza foi aprovado em 2016 e é o medicamento mais avançado para esta doença rara. Totalmente comparticipado pelo Estado português, custa 740 mil dólares no primeiro ano e 375 mil dólares nos seguintes. Depois, está o Brineura, comercializado pela BioMarin Pharmaceutical e avaliado em 700 mil dólares, que reduz os sintomas de uma forma da doença neurodegenerativa de Batten, que aparece logo na infância. A fechar a lista dos cinco mais caros vem o Carbaglu, utilizado no tratamento de outra doença rara que provoca a falta de uma enzima hepática que provoca a acumulação elevada de amoníaco no sangue.

O negócio da indústria farmacêutica

Há uma semana atrás, a Organização Mundial de Saúde (OMS) denunciou, num comunicado à imprensa, que “três quartas partes das pessoas com epilepsia que vivem em países com rendimentos baixos não recebem o tratamento de que necessitam”. O aumento do risco de morte prematura nestes países é três vezes maiores do que naqueles que têm rendimentos altos. “O défice terapêutico da epilepsia é inaceitavelmente alto quando sabemos que 70% das pessoas que a padecem podiam deixar de ter crises se tivessem acesso a medicamentos cujo custo anual não supera os cinco dólares e que podem ser administrados através dos sistemas de cuidados primários”, afirmou o médico Tarun Dua, do Departamento de Saúde Mental da OMS.

Em 2017, Maria do Céu Machado, então presidente do Infarmed, afirmava, numa mesa redonda, não compreender os preços dos medicamentos inovadores. A responsável pela autoridade portuguesa que regula os medicamentos citou estimativas de que a inovação nos tratamentos aumentava “todos os anos entre 10% a 15%”. Médica há 45 anos destacou que a “inovação nunca teve este custo” e que isso representa um problema. “A inovação é incomportável neste momento se quisermos dar acesso a todos os doentes, a todos os medicamentos inovadores em todas as áreas. Temos de discutir qual a melhor forma deste acesso ser conseguido”.

No ano seguinte, a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) saudava a decisão histórica do governo sul-africano que aprovou uma lei com o objetivo de parar o registo“irracional” de patentes às empresas farmacêuticas. Durante quatro anos, a população levou a cabo a campanha Fixe the Patent Laws para pressionar o Estado sul-africano a garantir uma política equitativa no acesso aos medicamentos. Num dos exemplos apresentados pela MSF, sobre a tuberculose resistente, o tratamento estava disponível por 49 dólares enquanto que na versão genérica do mesmo medicamento, na Índia, estava por 8 dólares.

Foi precisamente no país asiático que se abriu uma guerra com a farmacêutica Novartis. Em 2013, o Supremo Tribunal da Índia negou uma patente da sua versão atualizada do medicamento para o cancro Glivec. Usado para a leucemia crónica mieloide, o tratamento mensal custava, então, 2600 dólares enquanto que o genérico valia 175 dólares. A obtenção de patentes garante às farmacêuticas 20 anos de exclusividade mas, depois deste período, outras empresas podem fazer cópias baratas do medicamento. A Novartis fez um pedido em 2006 alegando que tinha produzido uma nova versão mais fácil de ser absorvida e as autoridades indianas rejeitaram o pedido recorrendo a uma lei que impede as farmacêuticas de conseguir renovar patentes fazendo apenas pequenas mudanças na fórmulas dos medicamentos.

Mas se os baixos rendimentos são, na maior parte das vezes, um obstáculo no acesso a tratamentos caros, quando não há comparticipação do Estado, nem sempre a política da indústria farmacêutica é a mais transparente. Num setor económico que gasta por ano, em todo o mundo, segundo dados da Federação Internacional da Indústria Farmacêutica, aproximadamente 150 mil milhões de dólares em investigação e desenvolvimento de novos tratamentos – 5,5 vezes mais do que a indústria militar e aeroespacial – há vários anos que as empresas são acusadas de inflacionar os preços ou de abdicar de medicamentos que não dêem lucro. No mês passado, a farmacêutica norte-americana Pfizer descobriu que um dos seus medicamentos poderia reduzir os riscos de sofrer Alzheimer em 64% mas ocultou a informação do público. Segundo a informação avançada pelo Washington Post, a empresa não investigou os efeitos secundários do tratamento devido aos elevados custos. O medicamento em questão, o Enbrel, é um potente anti-inflamatório para a artrite reumática e um dos produtos mais vendidos pela Pfizer, no qual a farmacêutica detetou benefícios para o Alzheimer em 2015. Nesse ano, os investigadores da multinacional insistiram para que fossem realizados testes científicos rigorosos em milhares de pacientes para explorar e comprovar estes efeitos. A Pfizer decidiu não avançar com a investigação porque, de acordo com o Washington Post, do ponto de vista do mercado, estes efeitos positivos do medicamento no Alzheimer não significariam um aumento do lucro da empresa. “O medicamento já enfrentava competição de medicamentos genéricos”, referiu o jornalista norte-americano Christopher Rowland. No fim de 2018, a Pfizer anunciou um lucro de 11.546 milhões de dólares só entre janeiro e setembro desse ano, mais 28% que em igual período de 2017.

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