O meu órgão externo
O meu órgão externo
Até ao café a conversa é solta, espoleta alguns arreganhares de lábios, ensejos de sorrisos, abstrações do pensamento, bocejos interiores - confesso. As respostas mais sérias que me exigiram até à última colher da mousse e encharcada versaram sobre um portal de vendas de carros em segunda mão, o plantel do Sporting, património imobiliário, atividade bolsista, como perder barriga sem perder massa muscular, cronometragem sexual, posologia vária, sintomas corporais de gripe e avaliação de amígdalas.
(Vê lá se estou com febre. Não tenho os olhos amarelados, pois não? Tu não me mintas!)
Antes, ainda me faziam perguntas sobre o coração. Mas, agora, sou um desempregado na matéria. Vivo do rendimento social de afetos – parcos e caridosos, pedinchados e atribuídos por compaixão e pena. Mesmo antes, quando ainda era praticante da vida afetiva, os pareceres amorosos sempre me causaram nervoso e dores de estômago.
(A Clarinha quer o divórcio. A cabra. A cabra! Ouviste? E pensar que deixei de fumar por ela)
E eu, baloiçante na cadeira, a sentir os olhos dos outros comensais sobre mim, pedia ajuda ao guardanapo estático no colo.
(Mais de três anos sem dar uma. Desde que nasceu o João Maria que está deprimida. Chega à cama e vira-me as costas. E agora quer o divórcio, a cabra!)
Nos programas de televisão temos quatro hipóteses, duas completamente disparatadas, que nos limitam a resposta correta a um jogo de probabilidades com cinquenta por cento de hipóteses de sucesso. Em frente à bica e sem os artifícios do audiovisual, pensava numa resposta à vista, pouco comprometida. Mas optava, por norma, pela franqueza.
(É pá! Não sei.)
O que desanimava o interlocutor.
(Não lhe passa, não é! A cabra!)
Quando me começo a entusiasmar com o novo avançado do Sporting, chega o café e é o diabo. O último, antes que o empregado voltasse com o adoçante e um cheirinho de bagaço, levou-me um terço do pulmão direito e o fôlego para subir a rua de Santa Justa.
(Tenho o resultado dos teus exames, Francisco. Tens de parar de fumar, Francisco)
Ao último golo de cafeína já me vergava no arrastar lento e custoso do carrinho do oxigénio – um órgão externo, mas contíguo ao ser humano, metálico, que vence a calçada combatendo os socalcos do passeio com rodinhas de borracha e que comunica com o restante corpo por um tubo de plástico transparente enroscado às narinas.
(De plástico ou de matéria orgânica? O tempo que decida.)
Pela hora do café, casei-me. Depois de duas mexidas na chávena com a colher, o açúcar mal dissolvido.
(Francisco, estou grávida)
Não me perdoaste o silêncio. A hesitação de segundos. O excesso de palavras dentro da boca, amontoadas, impedindo aos encontrões as certas de saírem.
(Comprei-te um faqueiro de prata, Clara. Tem o teu nome gravado nos cabos dos garfos.)
Pela hora do café, divorciei-me. Perguntavas, já com a bica a esfriar.
(Não me ouves, Francisco?)
E eu ouvi. Juro-te. Mas não podia, Clara. Como é que eu podia sair pelo restaurante em passo de corrida no encalço das tuas lágrimas? A bica fria e os meus pulmões. Cortaram-me um terço do direito, não tardou.
Pela hora do café, fui encornado.
(A mãe arranjou namorado)
Era professor de ioga ou instrutor de código da estrada? Arranjou na coluna de biscates do Correio da Manhã? Avisa-o, por favor, para não beber café, Clara. Bebe café e é o diabo.
Pela hora do café, fico mais pobre.
(Bati com o carro, pai. Mas a culpa não foi minha.)
E também perdi amigos pela hora do café.
(Sabes quem morreu?)
Nunca sabia.
O café é o último propugnáculo de coragem. A linha fina entre o medroso e o cobarde. Uma espécie de ou falas agora ou te calas para sempre. Aprendi a proteger-me, levanto-me à socapa na sobremesa e carrego o carrinho do oxigénio entre toalhas, mesas e copos de vinho. Se me cruzo com o tabuleiro dos cafés na fuga, alegro-me. Safei-me, na certa, ao anúncio solene da minha morte.
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