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O meu novo amor
Opinião Sociedade 4 min. 13.05.2022
Diário sentimental

O meu novo amor

Diário sentimental

O meu novo amor

Ilustração: Alice Jorge
Opinião Sociedade 4 min. 13.05.2022
Diário sentimental

O meu novo amor

Diogo RAMADA CURTO
Diogo RAMADA CURTO
No meio de uma guerra estúpida e de tantas coisas sem sentido, a Primavera trouxe-me um novo amor. Veio de noite, sem nada exigir.

No meio de uma guerra estúpida e de tantas coisas sem sentido, a Primavera trouxe-me um novo amor. Veio de noite, sem nada exigir. Alta de olhos claros e pele sedosa, uma boca linda e um sorriso marcado pela tristeza de muitas noites adiadas. Carrega consigo uma vida que desconheço e não consigo, nem quero, imaginar. Encontrei-a na festa da minha aldeia, onde o meu pai e o meu avô cresceram, antes de virem para a cidade. Depois do baile, saímos cá para fora, descemos em direcção ao rio, quase em silêncio, e mergulhámos nas águas claras do nascer do dia.

O meu novo amor tem rosto e corpo. É assim. Não corresponde a nenhum conceito universal, nem se presta a pensamentos genéricos seja do que for. Nomeio, mas as palavras pouco me interessam: pureza, sentido do sublime, virtude, erotismo, inteligência… Toco-lhe no pescoço e encosta-se ao meu ombro, aperta-me com uma força que raras vezes senti. Emociono-me com a descoberta. Falo sem parar, mas de forma desconexa. Conto-lhe o que me aconteceu. Por onde andei. Sim, porque também eu lá estive em Ítaca, onde acumulei conhecimentos e experiências. Mas, quando voltei, tive de esperar muitos anos para que ela, finalmente, viesse ao meu encontro.

Gosto das suas rugas à volta dos olhos. Nada pior que os disfarces do novo pó-de-arroz, dos cremes e das pomadas. A transparência parece que tomou conta de mim. Não me interessam as convenções, nem nenhuma regra. Nela, reconheço a liberdade de quem teve de lutar para se emancipar e fugir das tristezas.

Foi ela quem me falou, de imediato, da paixão e das dificuldades em sentir. Um bálsamo para um coração empedernido. Em contraste com a memória que guardou do seu querido pai, tão seu amigo e fácil de contentar com pequenas coisas. Disse-mo com um sorriso triste de quem já tinha passado noites acordadas a pensar nisso. Revi-me nessa frustração de querer sentir e não conseguir. De querer amar e só chegar ao descontentamento. Percebi-me melhor nas suas palavras, mais simples, muito mais articuladas do que tudo o que eu poderia dizer.

Bem sei que nada pior do que procurar racionalizar os sentimentos. Para assim os matar. Mas como fugir disso, quando já sofremos com tantos desencontros? Como não pensar na dor para a conseguir controlar e lhe pôr um fim? Às urtigas com a inteligência emocional sugerida por uma ciência duvidosa, pois quando sofremos do mal do amor só nos restam duas saídas. Ou procuramos compreender até à exaustão as razões do falhanço que nos engoliu. Ou esperamos que chegue uma nova Primavera. 

À saída do rio, limpámo-nos à minha camisola. O frio da manhã não tinha o peso do orvalho. Espreitámos por cima de um muro e conseguimos roubar uma maçã que dividimos. Sentados num banco, a ver o nascer do Sol, continuei a falar de tudo o que me preocupava. Não me lembro bem. Apenas fiquei com a sensação que nenhuma palavra contava, se não fosse dita com sentimento. Por um instante, cheguei a ficar inseguro. Talvez não estivesse a ser sincero e convincente...

As minhas inseguranças, todos os meus falhanços, os medos por perdas irreparáveis, as tristezas por que passei, tantas delas devido à minha incapacidade de saber amar. Tudo isso, pelo menos naquela longa noite, desapareceu. É que, para quem não acredita em actos mágicos, só resta o toque sem vergonha de quem nos sabe levar pela mão. Sem esquecer a musiquinha de quem fala com uma pronúncia diferente.

Claro que tenho medo de muitas coisas. Dos jogos viciados pelas inércias da insegurança. Da distância criada pelo dia-a-dia que tudo mata. De não saber viver fora das sórdidas rotinas. E das composturas impostas pelas imagens que sobre nós próprios se abatem, para nos estrangular. 

Tenho medo de tudo isso que mata o encantamento, sufoca a alma e destrói a possibilidade de amar. Mais, ainda, do horror de vir a morrer sozinho, num canto, rodeado de livros, sem nada entender, a não ser ideias abstractas, sem chama. Fujo disso como diabo da cruz.

Ao seu lado, naquele banco de jardim a olhar o rio da aldeia que, antes de ser minha, já fora do meu pai e do meu avô, os quais nunca conheci, imaginei que poderia recomeçar de novo. Mas para que tal possa acontecer, preciso de pôr fim à orfandade que me marcou. Sair da responsabilidade de, em menino, já ter de cumprir como homem, para honrar os meus antepassados. De nunca ter tido sequer a possibilidade de transgredir. De não saber lidar com o abandono, pois quase à nascença já estava entregue a mim próprio. E de não ter de simular nenhuma viagem, na esperança de que na volta pudesse vir a encontrar quem me acolhesse. 

Pulsões, sentimentos e pensamentos – todos misturados, naquela manhã já com o Sol quase a pique – foram-se fundindo com o movimento à volta do rio. Aos poucos, deixei mesmo de pensar, para passar a sentir que, naquela contemplação, também nos pudéssemos fundir na paisagem da manhã em que as nossas vidas recomeçaram. 

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