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Até onde podemos discutir com um idiota?
Opinião Sociedade 4 min. 21.09.2022
Andamos todos ao mesmo

Até onde podemos discutir com um idiota?

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Até onde podemos discutir com um idiota?

Foto: Reinaldo Rodrigues
Opinião Sociedade 4 min. 21.09.2022
Andamos todos ao mesmo

Até onde podemos discutir com um idiota?

Paulo FARINHA
Paulo FARINHA
"Nunca discutas com um idiota. Ele arrasta-te ao nível dele e depois vence-te em experiência." Admito que não consigo ultrapassar o limiar do bom senso, essa fronteira imaginária para lá da qual não há argumentos possíveis para quem não quer ouvir.

“Nunca discutas com um idiota. Ele arrasta-te ao nível dele e depois vence-te em experiência.”

Procurei com algum afinco a autoria desta frase que costuma varrer as redes sociais e os grupos de Whatsapp. Não encontrei. Há quem diga que é de Mark Twain. Há quem garanta que o escritor americano, pai do Tom Sawyer e do Huckleberry Finn, jamais a escreveu ou proferiu. Não sei. Para todos os efeitos, é uma expressão certeira que gosto de citar amiúde. Ou, pelo menos, quando me vejo prestes a entrar num labirinto de argumentos com alguém que claramente não quer perceber o que estou a dizer. Nem o que eu digo nem o que qualquer pessoa com dois dedos de testa possa dizer. Há gente que não quer ouvir. Ponto. E, nesses casos, devemos mesmo sair de fininho e fechar a porta sem estrondo, deixando-os a falar sozinhos.

Se não o fizermos, corremos seriamente o risco de encaixar numa outra famosa citação (por “famosa” leia-se “frequentemente partilhada por essa internet fora”) de que também gosto e que encaixa bem aqui. Reza assim: “Nunca discutas com um idiota. Não vais conseguir convencê-lo e depois o público não sabe quem é quem.”

Dei por mim há dias a pensar nisto numa conversa que tive sobre as eleições no Brasil. A pessoa esforçava-se por enaltecer as virtudes do presidente em exercício, tentando provar que Bolsonaro é um extraordinário líder. E eu lá tentava falar de direitos humanos, decência, medidas lamentáveis de combate à pandemia, uso e porte de armas, narcisismo, machismo, misoginia ou mitomania. E nada! Nada entrava. 

Do outro lado saia uma verborreia em torno da segurança, da família tradicional e de como o fracasso do progresso estava cimentado na decadência da relação entre homens e mulheres e como o casamento entre pessoas do mesmo sexo era, como satanás, o pai de todos os males. O meu interlocutor conhece tão mal o país como eu, também nunca lá viveu e também tem algumas ténues familiares do outro lado do oceano, o que significa que tem pergaminhos iguais aos meus. Se ao menos fosse um profundo entendido na sociedade, política e economia brasileiras, menos mal. Não lhe acrescentaria decência, mas adicionava conhecimento de causa. Só que nem isso...

Cada um faz o que entende e leva estas discussões estéreis até onde consegue. Eu, admito, não consigo muito. O nível que suporto depende habitualmente de duas coisas: a qualidade dos argumentos de quem está do outro lado (que normalmente não é grande) e a qualidade da relação que tenho com essa pessoa. Se é alguém de família ou de quem gosto muito, sou capaz de aguentar a coisa até certo ponto. Mas depois atinjo facilmente o meu “limar de bom senso”. Aquela fronteira imaginária que me bloqueia o cérebro e me faz gaguejar quando tenho de tentar explicar coisas muito, muito básicas.

É quase como falar com uma criança. Não dá para elaborar muito. Temos de dizer as coisas de forma clara, concisa, sem muitos floreados, usando metáforas simples. Ora, se, mesmo assim, quem está do outro lado insiste em atirar fundamentos que não são ali relevantes e que caem num redundante “whataboutism”, então temos de tentar ser ainda mais básicos. Só que há limites, caramba. Seja em torno de ideologias políticas, de desporto, de religião ou do papel da “família tradicional” na sociedade. Seja para falar de Bolsonaro, de Putin, de Trump, da luta medieval contra o aborto, da desvalorização do racismo ou de quaisquer outros temas que tocam na dignidade humana.

Não digo, claro, que estas coisas não se discutam. Mal estaríamos se não o fizéssemos. Mas há limites de decência que não podemos ultrapassar quando tentamos conversar com alguém que, embora possa pensar de forma diferente, se recusa a confrontar raciocínios de forma inteligente. Nesses casos, quando o “limiar do bom senso” é ultrapassado, a única alternativa no momento é mesmo deixar a outra pessoa sem a nossa atenção. Afinal, nunca venceremos um idiota com bons argumentos. Ele dificilmente terá capacidade para os reconhecer.

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