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O inverno do nosso descontentamento
Opinião Sociedade 3 min. 02.02.2021

O inverno do nosso descontentamento

O inverno do nosso descontentamento

Foto: Moritz Frankenberg/dpa
Opinião Sociedade 3 min. 02.02.2021

O inverno do nosso descontentamento

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Todos os que ainda andamos por aqui continuamos a nossa triste sobrevivência, sem poder fazer quase nada do que torna a vida interessante.

Em 1961, John Steinbeck, já um escritor aclamado pelos seus enredos descrevendo a dura realidade da Grande Depressão, escreveu "O inverno do nosso descontentamento". O romance até culminou num prémio Nobel, embora talvez não fosse o seu melhor trabalho; o que não deixa dúvidas é a ressonância do seu título memorável, retirado de um verso de Shakespeare.

Os que desapareceram já só vivem nas nossas memórias. Aqueles que foram infectados viveram ou vivem dias de angústia, pouco sabendo sobre possíveis sequelas. Todos os que ainda andamos por aqui continuamos a nossa triste sobrevivência, sem poder fazer quase nada do que torna a vida interessante. Para ajudar à festa, é inverno: os dias escuros e frios sucedem-se sem parar, iguais, apenas oscilando entre a pressão de ter muito (tele)trabalho ou a pressão, incomparavelmente superior, de não saber se vamos ter trabalho no futuro próximo. 

Neste naufrágio da esperança e da saúde mental, até a Europa nos falha com a ingenuidade de quem entra num lago de tubarões armado de nada mais do que um livro de regras.

E assim segue a nossa não-existência, pobres animais de zoológico a cada dia mais acossados por limitações às nossas liberdades fundamentais criadas por políticos completamente incompetentes que adoram jogar aos ditadores para impor regras tão fascizantes quanto de fachada - enquanto que as respostas cruciais que deles eram esperadas ao nível da saúde e protecção dos cidadãos falham, uma após outra após outra.

Neste naufrágio da esperança e da saúde mental, até a Europa nos falha com a ingenuidade de quem entra num lago de tubarões armado de nada mais do que um livro de regras. No papel, a Comissão Europeia fez tudo direitinho: centralizou as compras de vacinas para toda a União, assim evitando o previsível espectáculo deprimente de ver os seus membros competindo para obter mais vacinas que o vizinho, e ao mesmo tempo dando a Bruxelas muito mais poder negocial do que os países teriam isoladamente contra as farmacêuticas. 

Isso permitiu à Europa obter um preço final por vacina bastante vantajoso (a da Pfizer por 12 euros, a da AstraZeneca por menos de 2 euros). E além disso, a Comissão fez as coisas com tempo: 300 milhões de doses de vacinas foram encomendadas em Agosto, antes mesmo de estarem prontas, sendo os primeiros contratos assinados no Ocidente, antes de Reino Unido ou EUA. Com as suas tarefas aparentemente concluídas, a Europa sentou-se à espera.

E depois... entrou em cena a realidade. E a realidade é que o dinheiro faz girar o planeta, ou se preferirem, "money talks, bullshit walks". Apesar de a investigação que levou à sua descoberta ter sido financiada por dinheiros públicos apesar de a investigação que as permitiu ter sido financiada por dinheiros públicos, as patentes das vacinas foram deixadas nas mãos das farmacêuticas; estas são multinacionais extremamente poderosas e que procuram maximizar o lucro; logo, quando aparece um governante britânico, ansioso por proteger os seus cidadãos e ainda mais ansioso por marcar pontos políticos a favor do seu Brexit, disposto a oferecer muito mais pelas vacinas... então é esse cliente que as vai levar para casa. Nos contratos europeus, não havia uma promessa clara de quando as vacinas nos teriam de ser entregues...

Assim chegamos ao início de Fevereiro. O Reino Unido ufano dos seus 15% da população que já receberu a sua dose de inoculação, a Europa (com menos de 3% da população já vacinada) embrulhada em ameaças furiosas para fazer valer os seus direitos. Quando a situação começar finalmente a melhorar, essas melhorias serão rápidas; até lá temos de aguentar a avalanche de más notícias. Este é o inverno do nosso descontentamento.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).

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