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O fiasco das comemorações de Fernão de Magalhães
Opinião Sociedade 10 min. 31.12.2021
Polémica

O fiasco das comemorações de Fernão de Magalhães

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O fiasco das comemorações de Fernão de Magalhães

Opinião Sociedade 10 min. 31.12.2021
Polémica

O fiasco das comemorações de Fernão de Magalhães

Diogo RAMADA CURTO
Diogo RAMADA CURTO
Com este governo em fim de mandato, é urgente que os responsáveis pelas comemorações da viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães tornem público o que fizeram e o que ainda pensam fazer. Caso contrário, demitam-se.

Com este governo em fim de mandato, é urgente que os responsáveis pelas comemorações da viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães tornem público o que fizeram e o que ainda pensam fazer. Caso contrário, demitam-se. Seria, aliás, uma medida digna do actual governo, reconhecer o que se passa. É certo que nomeados e beneficiados destas comemorações não agrediram ninguém. Tal tem sido a sua prudência, para passarem despercebidos, que tão-pouco deles se tem ouvido falar.  

A simples visita ao endereço electrónico da chamada Estrutura de Missão do V Centenário da Primeira Viagem de Circum-Navegação nada esclarece. O programa, que era ambicioso e que lá continua a figurar, estará mesmo a ser cumprido? Um pequeno filme, que mistura a correr umas cerimónias onde há gente que sorri, outras que dizem adeus, misturado com capas de livros e uns extractos de uma banda-desenhada, mais a colagem ao célebre Web Summit de Lisboa constituem os principais sinais das actividades dessa “Estrutura de Missão”. No mesmo endereço, soma-se, ainda, uma referência à reflorestação do Pinhal de Leiria. Só falta lembrar que foi mandado plantar por D. Dinis, já de olho nas “descobertas”. 

Estas comemorações deixaram de ter sentido. São um gasto supérfluo de dinheiro para criar uma rede de cidades “magalhânicas”, porque situadas nos locais por onde passou Fernão de Magalhães. Um facto que foi logo aproveitado pelo ditador das Filipinas, como uma janela de relações externas que lhe era favorável. Mais: no endereço electrónico, a rubrica relativa aos eventos está vazia. Sim, simplesmente, vazia. Como se uma Estrutura de Missão pudesse gastar, mas em segredo, sem prestar contas a ninguém. Tudo isto me parece, no mínimo, um escândalo, cuja solução é só uma: a de entregar o remanescente às instituições de cultura que lutam para manter as portas abertas. Enquanto tal não acontece, a Estrutura de Missão – com um nome burocrático que só por si nos cobre a todos de ridículo, por não se descortinar nem uma estrutura, nem nenhuma missão – inventa onde deve gastar o dinheiro e esbanja, provavelmente, em despesas de representação e folhetos impressos em papel couché, o que falta nas instituições sérias: Biblioteca Pública de Évora, Biblioteca Pública de Braga, Biblioteca Nacional de Portugal, Biblioteca da Ajuda e Torre do Tombo, Museu Nacional de Arte Antiga, Museu Nacional de Etnologia, Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, etc. 

Na Expo do Dubai – que não pode ser considerada uma cidade magalhânica, mas onde também se gastou à farta (30 milhões de euros?) e vai ser necessário apresentar contas e perceber o que lá se passou a bem da economia portuguesa – a famigerada Estrutura de Missão para as Comemorações do V Centenário da Circum-Navegação tornou possível exibir uma peça de arte urbana do artista português Bordalo II, “Pinguins de Magalhães”. Feita com plástico dos oceanos, a mesma representa o compromisso de Portugal com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU. Estava previsto, mas não se sabe se tal terá acontecido, que na cerimónia de inauguração, na Expo Dubai, estivessem os Pauliteiros Mirandeses de Palaçoulo e que a mesma fosse seguida por um momento musical com Luísa Amaro e Gonçalo Lopes, na guitarra portuguesa. Tudo isto transcrito de um comunicado oficial.

Mas vamos ao que importa: trata-se de despesas fora de qualquer quadro de miserabilismo. Mas é isto mesmo que o pagode, que somos todos nós, queremos? É por aqui que passa a política externa de um pequeno e desfalcado país como Portugal? É este caldo de diplomacia económica, propaganda nacionalista e folclore que nos vai salvar? Ou não passará este caldo do equivalente às imagens satirizadas por David Lynch e Almodóvar nos seus filmes? 

E que será feito do lançamento dos tais barquinhos que, já nem me lembro com que função, mas com certeza com um alto propósito “científico”, seria partilhado por todos aqueles que gostam do mar... sobretudo junto à praia e quando está sol? Não nos esqueçamos dessa promessa, a que o diploma de 2018 se referia quer como uma “premissa” de todo o projecto, quer como a versão da “mensagem na garrafa, numa versão do século XXI”. Sempre achei que tal promessa trazia consigo muita parra e pouca uva. Mas nunca será demais voltar a ela: “lançamento e monitorização de pequenos veleiros não tripulados equipados com GPS equipado (sic) com sensores de aquisição de dados científicos, em todas as cidades magalhânicas”. Onde param os barquinhos? Em que cerimónia terão sido lançados? Que ciência é essa que depende dos dados recolhidos nos mares que vão parar a essa célebre rede magalhânica? E, se ainda não foram lançados, não valeria a pena mudar o plano inicial e colocar nos “pequenos veleiros” os próprios membros da missão, que assim teriam a oportunidade de proceder in loco à recolha de dados dessa ciência do porvir?  

“Neste Portugal há uma gente... impossível! Aqui, há parvos, creio eu, por amor da arte. Eu conheço um médico que deu um tiro num homem, para o estudar nos paroxismos: foi homicida por amor da arte (...). O parvo por amor da arte, na Idade Média, batia à porta dum senhor feudal, chacoteava em chufas boçais o dono do castelo e obtinha assentamento de histrião no solar”. Até aqui, neste parágrafo, foi o que escreveu Camilo Castelo Branco, no calor de uma polémica. O que diria ele se ressuscitasse para contemplar o lançamento dos barquinhos monitorizados? Tudo por amor da arte e a bem da ciência, seja qual for o que por ela se entenda! Sem esquecer a fotografia no referido filme que compromete o actual ministro da Ciência, que me parece não ter nada a ver com esta lusa-bambochata, que nos envergonha a todos e que custa ao Orçamento de Estado um balúrdio. Mais de um milhão de euros, logo em 2018. Basta fazer as contas, como dizia o outro, do gasto total para um período de quatro ou cinco anos...

Feita a denúncia, o meu desejo mais sincero é que haja por parte do Tribunal de Contas, quanto antes, uma investigação acerca de como e onde estão a ser gastos os dinheiros públicos. Cotejando, muito simplesmente, o programa inicial com o que já foi gasto (Diário da República, 1.ª série, n.º 86, 4 de maio de 2018). Tudo de forma a que se possa pôr cobro a tal desvario que nada fez, nada mostrou. Ou, talvez me engane, e esteja a ser injusto, pois haverá com certeza quem acene com um gesto de aprovação, numa postura séria e institucional, até um pouco légèrement courbé. Que falem a este respeito essa série de oportunistas, sempre prontos a navegar as ondas do comemorativismo. E que haja respeito pelos pauliteiros de Miranda!    

Pessoalmente, estou mais preocupado não em comemorar, mas em protestar com o ano em que se reforma o Senhor Gonçalves, encadernador da Biblioteca Nacional há mais de quatro décadas. O seu lugar fica vazio, por não ter havido formação de outros encadernadores que pudessem continuar o seu trabalho, que envolve um pequeno grupo de auxiliares todos com necessidades especiais (um excelente programa de acolhimento e formação, aliás, da Biblioteca Nacional). A minha indignação, insisto, é ver que, enquanto a famigerada Estrutura de Missão gasta à farta, sem prestar contas a ninguém e sem nada mostrar quanto a “eventos”, as instituições culturais vivem num aperto insuportável. 

Um aperto que é transversal e se encontra a todos os níveis. Especifico: um técnico com mestrado responsável pela catalogação de manuscritos antigos vive aflito, porque não leva para casa mil euros; a secção de encadernação da Biblioteca Nacional, não me canso de repetir, vai desaparecer com a reforma do Senhor Gonçalves; e o director do Museu Nacional de Arte Antiga ou da Biblioteca Nacional auferem de salário talvez metade de qualquer assessor das juventudes partidárias, os tais boys, que souberam safar-se bem e com os quais os ministros enchem os seus gabinetes. 

Pior: onde está um orçamento regular para a Biblioteca Nacional poder comprar livros e renovar os seus computadores? Irá a anunciada bazuca resolver tudo porque digitaliza tudo, distribuindo uns milhões pela Torre do Tombo e pela Biblioteca Nacional? Não ponho em causa o bem fundado de tal medida, só desconfio de tanto novo-riquismo aparentemente tecnológico. Também me choca que tudo o resto fique por realizar. Julgar que as instituições patrimoniais se modernizam através da digitalização é uma calinada tão grande quanto achar que se desenvolve uma política pública da memória da nação através de comemorações como esta de Fernão de Magalhães. As instituições são compostas por pessoas, a começar por todos os que nelas trabalham e que já passaram por vários concursos e lutam pela sua promoção. Apertados, mas sem desistir. São eles que merecem ser valorizados. É, por eles, que passa a modernização e, sobretudo, um enorme sentido de responsabilidade para com o nosso património de livros, documentos, manuscritos e obras de arte. São eles e elas os que guardam a nossa memória. Nada haverá mais importante do que respeitar o seu trabalho, deixando que as instituições sejam funcionais.

Pelas bibliotecas, arquivos e museus, com as suas exposições e programas educativos, passa um público alargado, do qual não estão ausentes muitos investigadores estrangeiros e turistas. Se juntássemos o orçamento da exposição do Dubai com o da Estrutura de Missão, teríamos cerca de 40 milhões de euros para gastar nessas mesmas instituições, em 4 ou 5 anos. Saberíamos ao certo onde o dinheiro era gasto. Seria possível delinear uma estratégia. Executar um plano. Fazer com que as instituições conseguissem ter um horizonte, para além de viverem em esforço. Mas para que tal pudesse acontecer quem decide teria de prescindir dessa estrutura flexível que alimenta as redes do clientelismo partidário, sem deixar de recorrer aos que estão sempre dispostos a troco de uns cobres, pondo até as suas posições ideológicas na gaveta (isto tudo a julgar pelos nomes de alguns doutores que aparecem a correr no já referido filme).   

E como quem denuncia e critica é sempre remetido para uma espécie de vala dos polemistas, que não se caracterizam pela prudência na gestão das carreiras e pela postura institucional de uma certa gravitas, suspeito que a resposta iracunda dos doutores calistos do século XXI não tardará. Mesmo que não me tenha esticado nos impropérios e, apesar de tudo, me tenha contido na linguagem – reflexos, provavelmente, de comportamento de um sexagenário precocemente envelhecido – já os vejo a escrever como o lente de Direito Eclesiástico Avelino César Augusto Calisto a respeito de Camilo:

“Quem poderá competir agora com a forma de dizer do autor do escrito? As estiradas do fado, a linguagem grosseira e fétida do homem, tudo é inimitável! Pela minha parte cedo nele, a tal respeito, os direitos de morgadio e louvo à Providência por não me ter concedido semelhante habilidade, pois creio que todo o homem de educação se resigna facilmente com esta falta”. 

Venham agora a terreiro os doutores calistos, depois do chá que foram obrigados a tomar pela primeira vez, muito recentemente, para defender a sua, deles, Estrutura de Missão, mais as passeatas pelas cidades magalhânicas e outras práticas já aqui denunciadas, que eu cá não estarei para lhes dar trela. Só espero, como escreveu Camilo, que “o leitor, com dois escrópulos de siso, engatilhe a risada, e vá ver que diabo é isto”. 

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