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O emigrante português que virou milionário a virar frangos
Sociedade 15 min. 21.01.2023
Nando's

O emigrante português que virou milionário a virar frangos

Nando's

O emigrante português que virou milionário a virar frangos

Foto: Shutterstock
Sociedade 15 min. 21.01.2023
Nando's

O emigrante português que virou milionário a virar frangos

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
É emigrante português em Joanesburgo e um dos maiores empresários de África. Em 1987, em pleno Apartheid, Fernando Duarte juntou-se a um sócio e comprou a Chickenland, um restaurante nos subúrbios da cidade. Especialidade: Frango assado com piri-piri. Uma espécie de fast food da época. Fast, não. Na brasa. O Nando's está hoje pelo mundo inteiro. Um negócio multimilionário. Com picante.

Fernando Duarte, residente em Joanesburgo, África do Sul, não gosta muito de aparecer nos jornais e ainda menos nas televisões. Comunicação social não é com ele. Não é defeito, é feitio. E, acima de tudo, uma questão de segurança. Numa cidade como Joanesburgo, convém. São raras as vezes que recebe jornalistas na sede da Nando´s, uma imensa cadeia de restaurantes, que um dia começou por uma esplanada de frango com piri-piri que nem talheres tinha. Hoje, é um dos empresários mais ricos de África. Um multimilionário que não perdeu a simplicidade. E que não esquece as origens. De certa maneira, foram estas a raiz do seu negócio: frango na brasa, peri-peri style.

É possível que passem por ele numa rua de Joanesburgo, uma das cidades mais perigosas do planeta, à paisana entre a multidão, t-shirt e calções, sem relógio ou demais adereços, tendo às costas mochila, que há anos pede reforma. Fernando Duarte tem dinheiro para comprar o que a sua vontade quiser, mas há coisas que não se compram. E uma delas é o cheiro da rua. Tem dois helicópteros, mas é na rua que ele se sente bem. Foi a rua e o cheiro feiticeiro do frango no churrasco que o tornaram num dos homens mais abastados do continente africano. Há quem diga que a sua fortuna não se fica atrás da de Isabel dos Santos, que já teve dias melhores.

Nasci na Maia. Toda a minha família é do norte e ainda lá está. Apesar de estar há tantos anos na África do Sul senti-me sempre português do coração.

Fernando Duarte, fundador do Nando's

Este empresário não é de entrar nessas competições, nem gosta de ostentar o recheio das suas contas bancárias. Por sermos portugueses, teve a gentileza de abrir uma rara excepção. Faz uns tempos, abriu-nos as portas da sede da Nando's, uma cadeia que actualmente se espalha por toda África, assim como pelo mundo, com o coração da empresa na cidade de Joanesburgo, não muito longe da casa onde viveu Mahatma Gandhi, entre 1908 e 1909. 

A Satyagra House, mais vulgarmente conhecida por Gandhi House, é hoje casa-museu, classificada património histórico de Joanesburgo. Informalmente, também a Nando's faz parte desse património. A Nando's é das poucas cadeias que na África do Sul consegue competir com gigantes como a McDonald's.

Fernando Duarte nasceu na Maia, distrito do Porto. Pede meças ao mais ferrenho adepto do Futebol Clube do Porto, do qual é sócio. Na sede da Nando's, que é minúscula comparada com a dimensão do seu negócio, essa informação torna-se desnecessária. Há símbolos do FCP por todos os recantos. As instalações mais parecem uma célula dos Super-Dragões. 

Este empresário só de certa maneira corresponde ao perfil dos emigrantes portugueses na África do Sul, também conhecidos por "black fishermen" ou, pura e simplesmente, "porras". Há sempre excepções, e também não são assim tão poucas, a confirmar a regra. Fernando Duarte é uma delas. É seguramente um dos mais bem sucedidos mas, pelas razões atrás descritas, que mantém sobre a sua vida pessoal visibilidade reduzida.

Na África do Sul, como em tantos países da diáspora lusitana, os emigrantes portugueses nunca tiveram vida fácil neste país meridional, que ainda tenta sarar as feridas profundas do Apartheid, regime de segregação racial que vigorou no país entre 1948 e, formalmente, 1994. Os portugueses, nesse período de trevas da história do mundo, navegavam na África do Sul numa espécie de limbo social. A esmagadora maioria da comunidade portuguesa na África do Sul, com origens madeirenses, ainda hoje vive ao sabor das leis da sobrevivência. Fernando Duarte não esconde o orgulho de ter contrariado o velho fado da emigração portuguesa. 

Fala disto com humor, sem disfarçar o sofrimento que ele próprio teve de suportar antes da bonança, como acontece com tantos e tantos conterrâneos na África do Sul e por esse mundo fora. Dispensa-se de comentar as avaliações que fazem sobre a sua fortuna. Com natural excepção para a sua família, diz na brincadeira, com a sua naturalidade quase desconcertante, que o anonimato é mesmo o seu melhor tesouro. É como em tudo na vida. Como se costuma dizer, uns passam-na a virar frangos. Outros, vendem-nos. Já não têm conta os milhões de frangos que a Nando's vendeu na África do Sul e nas suas sucursais pelo mundo. "Mas se quiser posso pedir os números..."

À primeira vista, Fernando Duarte parece daquelas pessoas que não se leva muito a sério. "A vida é para ser vivida", diz. Até pode ser. Mas o empresário não confunde a vida com os negócios, recordando uma máxima universal: "Trabalho é trabalho, conhaque é conhaque". Por razões afectivas, ele é mais adepto de uma Laurentina geladinha. Que fique desde já esclarecido que a Laurentina é uma cerveja, que em Moçambique é uma instituição nacional. Na verdade, foi em Moçambique que passou uma parte da sua vida de emigrante. E, como se sabe, Fernando Duarte não é de perder o trilho das raízes.

O galo dos ovos de ouro

O símbolo da empresa é um galo de Barcelos, mas este negócio multimilionário envolve frango e "piri-piri". Fernando Duarte, português de nascença, estudou e viveu em Moçambique antes da independência, para não perder a ligação à língua e à cultura portuguesa. "O meu pai veio para Joanesburgo com uma mão à frente e outra atrás, como se costuma dizer. Tinha eu quatro anos", conta Fernando Duarte, que é desde há alguns anos a esta parte um cliente habitual do top 10 dos empresários mais bem sucedidos da África do Sul, presença constante no top 20 de toda a África, mesmo após uma pandemia e a decorrente estagnação world wide do seu negócio, que se adaptou rapidamente ao modo delivery (entregas ao domicílio), o que na África do Sul é uma actividade de risco.

O Nando0s, a sua cadeia de restaurantes, tem sucursais em 26 países, nos cinco continentes, da Austrália a Israel, da Malásia ao Canadá, de Londres a Singapura, do tradicional frango 'portuguese style', ao 'halal' e ao 'kosher'. Na África do Sul, o Nando's está de tal modo implantado, que quase faz parte da paisagem. 

Está em todos os lados, em qualquer ponto da cidade, seja na imensa província de Gauteng, que inclui Joanesburgo, seja noutra qualquer. Onde quer que se vá, nem que seja pelo caminho, há um Nando's. E é muito provável que haja fila de espera. Não é por acaso que a empresa tem um volume de vendas que rondam os dois mil milhões de dólares anuais. Fernando Duarte hesitou nessa altura: "Estava a tentar lembrar-me dos números exactos. Sim, é à volta disso, mais coisa, menos coisa".

Atravessando os corredores estreitos da sede da empresa, em Joanesburgo, que ele fez questão de manter em dimensão familiar, Fernando Duarte quase passa incógnito. Quando chegou, foi trocar de roupa, apresentando-se dentro de uma camisa aos quadrados, calças de ganga e sapatilhas desportivas, pousando a sua inseparável mochila junto a uma secretária atafulhada de papéis, com post-its em amarelo a decorar o ecrã do seu computador. Em sua casa, há um post-it que a família colocou na porta do frigorífico, à sua consideração: vacations (férias).

O frango do Nando's, que é tão apreciado por todo o mundo, é uma receita portuguesa (...) afro-portuguesa, já que o ingrediente principal é africano. Não ia resultar. Há demasiada oferta em Portugal.

Fernando Duarte, fundador do Nando's

Há muito tempo que mister Nando, como toda a gente o trata, está para tirar umas férias. Mas, onde quer que esteja, "na verdade, nunca estou de férias. Estou sempre a trabalhar". Já que é assim, prefere estar em Joanesburgo. Quando se monta um negócio do zero, crescendo com ele como Fernando Duarte cresceu, não é fácil delegar. Nando, o seu filho, em honra do qual nasceu o Nando's só há pouco tempo começou a interessar-se pelo negócio da família. "Pode ser que daqui a uns tempos possa passar mais tempo a viajar. Embora conheça o mundo inteiro. Como vou sempre em negócios nunca tenho tempo para ver nada", acrescenta.

O seu passaporte é português. "Nasci na Maia. Toda a minha família é do norte e ainda lá está. Apesar de estar há tantos anos na África do Sul senti-me sempre português do coração". Exactamente por isso, "nunca abdiquei na cidadania portuguesa". Curiosamente, Fernando Duarte nunca equacionou seriamente a hipótese de trazer o Nando's para Portugal. "Uma vez isso passou-me pela cabeça, mas desisti logo. Não faria sentido. O frango do Nando's, que é tão apreciado por todo o mundo, é uma receita portuguesa". Ou, aliás, "afro-portuguesa, já que o ingrediente principal é africano. Não ia resultar. Há demasiada oferta em Portugal", explica.


Entrevista com livreiro Teo Ferrer de Mesquita. Fotografias para o jornal CONTACTO
@Rodrigo Cabrita
O baluarte da cultura portuguesa na Alemanha
Criada em Frankfurt em 1980, a TFM é a livraria portuguesa mais antiga na Alemanha. Já editou 110 obras lusófonas. O seu fundador, Teo Ferrer de Mesquita, privou com Saramago e Cardoso Pires, e encontrou nos livros a forma de fazer uma revolução sem se meter na política.

A vida a preto e branco

Apesar de ter emigrado com a família para a cidade de Joanesburgo, parte da sua juventude foi vivida na vizinhança fronteiriça: Moçambique. Com a independência de Moçambique, em 1975, Fernando Duarte teve de interromper os estudos, razão pela qual nunca chegou a completar o ensino secundário, coisa da qual se arrepende até hoje. A vida roubou-lhe todo o tempo que tinha. Quando voltou definitivamente para Joanesburgo, ainda no pleno do regime de Apartheid, as coisas não estavam fáceis. 

"Nunca foi fácil ser português na África do Sul. Ainda hoje. Se calhar, sobretudo hoje". Depressa percebeu que os estudos teriam de ficar para depois. "Tinha de fazer-me à vida e encontrar sustento o quanto antes". Não havia tempo para projectos, apenas para os classificados do dia, numa cidade e num país a preto e branco, com o mercado de trabalho limitado.

E aqui começa um longo desfile de coincidências, que haviam de mudar a vida de Fernando Duarte. Um amigo de um amigo de um amigo do seu pai, falou num posto numa empresa de electrónica. Vistas bem as coisas, era na verdade a empresa de um grande amigo do seu pai, coisa que ele só percebeu lá estando. Não foi por isso, mas pelo fruto do seu trabalho que aos 24 assumiu a chefia da parte técnica dessa empresa. Pelos vistos, alguém reconheceu nele e que nem ele próprio sabia que tinha nessa altura: capacidades de liderança.

Foi também nessa empresa, cujo nome não vem ao caso, que Fernando Duarte encontrou um amigo para a vida: Robert Brozin. Formou-se uma dupla inseparável, que resistiu até a um 'take-over' dessa empresa, um lobo que entrou com pele de cordeiro: "A empresa foi absorvida por uma multinacional, que lentamente foi impondo regras e políticas que não nos agradavam". E, mais uma vez, Fernando Duarte encontrou-se numa encruzilhada. "Decidi tomar outro rumo". Tradução: sem rumo.

Nesse momento, recordou, "equacionei muito a sério regressar a Portugal. Tinha prós e contras. Mas era um risco muito grande". Até para lhe falar disto, convidou o seu amigo Robert Brozin para almoçar, como tantas vezes faziam, quando trabalhavam na mesma empresa. A dupla aproveitava para explorar os restaurantes portugueses das redondezas, para discutir convenientemente as particularidades da suas crises. 

Desta feita, foram a Rosettenville, um subúrbio no sul de Joanesburgo, onde então como agora existe uma grande comunidade portuguesa. "Apetecia-nos... frango", ironiza. Sendo assim, a hipótese óbvia era o Chickenland, como o nome indica, o paraíso do respectivo, moda peri-peri, à boa maneira moçambicana. Aparentemente, nem tudo ia bem no paraíso. Pelo menos a avaliar pela placa que tinha nas suas imediações, subtil quanto baste, para não afastar a clientela: "Aluga-se". Os donos da Chickenland, por razões que não queriam explicitar, estavam interessados em trespassar o negócio. Fernando e Robert não deram grande importância a essa informação preliminar. Havia outra prioridade: "uma fome desgraçada".

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Naquele preciso momento, nada mais importava do que a sua dose de frango assado. Só mais tarde, quando chegaram aos digestivos, se fez luz. "Então e... E porque não?!, disse ao Robert. Isto bem arranjado e bem organizado, pode resultar", recorda Fernando Duarte, sem conseguir disfarçar um brilho súbito no olhar, como quando o FCP é campeão e ele vê aquela malta toda nos Aliados.

A ideia, porém, nunca foi a de alugar, mas de comprar o estabelecimento. E para isso foi ainda necessário convencer o dono da Chickenland, que ficou de pensar, enquanto Fernando e Robert ficaram de fazer as suas contas. "É claro que visto a esta distância podia parecer um investimento irrisório. E era. Mas, há que ver as coisas com a necessária proporcionalidade. Para nós, naquela altura, era um investimento muito pesado e com riscos altíssimos para as nossas finanças. Quando não se tem nada, qualquer coisa parece muito".

Nesse departamento, Robert estava em tão maus lençóis quanto o seu amigo, quase sócio. "Foi o pai de Robert que na altura teve condições para nos apoiar", conta Fernando Duarte. Em 1987, o Chickenland mudou finalmente de donos, de nome, de estilo, e de política de gestão. "Fizémos uma autêntica revolução naquele espaço. Começamos a criar ali a nossa marca, que queríamos sólida". Assim nasceu o Nando's de Rosettenville, que hoje é uma espécie de restaurante-museu. A estratégia foi muito simples: "Criar um produto excelente, diferente daquilo que se via na África do Sul e na maior parte do mundo, com capacidade para manter o nível de qualidade, sem quebras".

Foi um passo de cada vez. "O nosso primeiro objectivo não foi o de conquistar as pessoas de Rosettenville, pois essas já conheciam a casa. O objectivo era trazer pessoas de toda a Joanesburgo para Rosettenville, para experimentar o nosso frango. A qualidade faria o resto. Seria o nosso marketing de boca-a-boca. Na alturas, as coisas funcionavam assim". 

Só depois de conquistada Joanesburgo, o que levou perto de dois anos, "pensámos em estender o negócio às outras cidades mais significativas da África do Sul. No início, lembro-me que nem havia talheres. As pessoas recebiam uma caixa com o frango e comiam com as mãos, à maneira tradicional". De uma coisa à outra, entre as mãos e os talheres, anos passaram. E, ninguém se iluda, "foram anos de muito trabalho e de muitas, muitas dificuldades para nós. Um negócio com a dimensão que hoje tem não se faz sem muito trabalho, sem passar por muito".

Com maior ou menor dificuldade, o segundo Nando's abriu. E a marca consolidou, atravessando o Apartheid até ao fim, conseguindo manter a sua rota de sucesso, florescendo entre-estratos e cores de pele, gerindo o negócio com uma certa igualdade, com um travo a peri-peri que, a par do famoso Galo de Barcelos, se tornou na sua imagem de marca. Fácil não foi. 

"A época que antecedeu o fim do Apartheid, foi uma altura muito difícil e muito conturbada. Mas nós vimos nessa mudança, que era imprescindível, uma oportunidade". O Nando's era à prova de regimes. E, conforme ficou provado, o seu produto era transversal. Fernando Duarte e Robert Brozin foram abrindo restaurantes atrás de outros, tantos que hoje o primeiro já não consegue ter de cor quantos são, só na África do Sul.

Actualmente, Nando's não é só uma marca, é uma máquina, oleadíssima, "que vai desde a distribuição nacional (sul-africana) para todos os cantos do mundo, os molhos, os diversos acompanhamentos, as embalagens, os produtos específicos para os diversos tipos de países onde estamos. E, como é evidente, a qualidade dos nossos frangos, que são sul-africanos", garantiu Fernando Duarte. O seu mercado actual? "É global. A dado ponto, o Nando's começou a ter reconhecimento internacional. Recebemos alguns prémios pela nossa qualidade num certame em Nova Iorque. A partir daí, não parámos de alargar a nossa rede internacional de restaurantes".

A isto junta-se uma estratégia de marketing e uma publicidade bastante agressiva, que tantas vezes gerou polémica na África do Sul. Alguns anúncios do Nando's chegaram mesmo a ser proibidos. "Não pode haver melhor publicidade que esta", diz Fernando Duarte. Há cerca de dois anos, a Nando's teve um problema com um certo restaurante, na cidade de Reading, Reino Unido.

Asam Aziz, um pequeno empresário de origem indiana, lembrou-se de abrir um Fernando's, que por acaso tinha por símbolo uma adaptação do Galo de Barcelos, usando igualmente no seu símbolo uma malagueta. Uma coincidência dos diabos: era uma cópia exacta do Nando's. 

Fernando Duarte teve de agir judicialmente para reclamar os direitos e sua violação. O processo corre actualmente em tribunal. Fernando acredita que o Fernando's vai em breve deixar de ser. Porque Nando's há só um. O de mister Nando e mais nenhum.

(Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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