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O doce dos Velhos
Opinião Sociedade 4 min. 04.02.2021

O doce dos Velhos

O doce dos Velhos

Foto: Pixabay
Opinião Sociedade 4 min. 04.02.2021

O doce dos Velhos

Filipa MARTINS
Filipa MARTINS
Fosse qual fosse a estação, estivessem as aves a nidificar no telhado ou batessem as asas com arrogância de inquilino, ela subia a uma cadeira de pau-preto colonial ao final da tarde. Primeiro, um pé descalço – o outro suspenso preso no sapato –, depois, o impulso do corpo, por fim, tirava da lata, entre colecionáveis de ponto-cruz, dois rebuçados do Dr. Bayard. Um para mim, outro para ela.

("Um para mim, outro para ti, Alvarinho", com o indicador em frente aos lábios, esmolando segredo.)

Até deixar de usar calções, não percebi o interesse deste ritual de fim de dia, algo clandestino, encapotado pelas rotinas de uma casa cheia de gente, por hora de aprontar o jantar. Batatas a apurarem no forno, o toque da campainha de pessoa conhecida, o avô de fato claro porque isso lhe tinha ficado de Inglaterra, o som de passos na escada até ao primeiro andar, a sala coberta de sombras, quando a casa era luz e rebuliço. E ela:

("Um para mim, outro para ti, Alvarinho".)

Eu tinha joelheiras cosidas para proteger o tecido das calças, no bolso do quispo os cromos do Glorioso, a bicicleta encostada ao portão, um lenho na testa, gotas de suor que pingavam junto à nuca depois de uma correria sem destino certo, mas por razões capitais que os miúdos conhecem e os adultos ignoram, e, por isso, lembrava-me de uma dúzia de guloseimas, bolos de cobertura, pastelaria fresca, que se mostravam razões maiores para tamanho secretismo, até para algum desrespeito pelas normas que proíbem as crianças de encher a boca de chocolates antes das refeições. Os rebuçados peitorais eram tesouro frouxo.

Ela chamava-me à sala, o sapato pendurado, o pé ossudo na cadeira, a lata. À época, trocaria sem pestanejar três Dr. Bayard por um pacote de Petazetas, quatro por uma pastilha com cromo. Ela não ia nos meus negócios e, como se confirmasse o engolir do xarope durante uma gripe, esperava que eu descolasse com os dentes o rebuçado do papel, que o acomodasse na língua, e ordenava-me, em seguida, que fosse lavar as mãos para ir para a mesa.

("O paladar dos velhos é como o das crianças, Alvarinho".)

Para além do gosto pelos doces, ficámos, com o tempo, parecidos um com o outro. Dizem que acontece com pessoas que se dão muito. Os dentes caíam-me e despontavam com uma intermitência ritmada, os dela apenas caíam, mas por duas ou três vezes tivemos sorrisos semelhantes.

("Um para mim, outro para ti, Alvarinho.")

Outra vez, tirei as rodinhas da bicicleta no primeiro dia da terceira classe, o mais atrasado da turma, os outros apontavam-me e riam-se, a fúria fez-me tombar na primeira curva. Ela correu para me socorrer, tombou no terceiro degrau. Estivemos os dois de perna ao alto. Ela mais tempo do que eu.

("Quem diz que o doce não apetece no tempo quente, Alvarinho.")

Num Inverno, começou a ranger como a lata dos rebuçados. A mão a amparar as costas na subida. Dois pés sobre a cadeira, agora de plástico. A ferrugem da lata que não deixava a tampa rodar entre os dedos. Ou a ferrugem dos dedos que não deixava rodar a tampa da lata. Depois, começou a estender-me a lata do cimo da cadeira, que eu abria. Fazia o racionamento:

("Um para mim, outro para ti, Alvarinho.")

Não é só o paladar. A vontade dos velhos também é como a das crianças. Proibiram-na de subir para a cadeira e velaram para que não o fizesse. Proibiram-na de andar de pé entre os móveis. Proibiram-na de comer rebuçados: "Tiram-lhe o apetite". A cada movimento em falso, aconchegavam-lhe o xaile às costas, encaminhavam-na com empurrões leves, orientavam-na no caminho e, já no sofá, entalavam-lhe a manta sobre os joelhos. No semblante, a mesma expressão de quando me proibiam a mim de jogar à bola junto aos canteiros. Na voz, o tom de ralhete comedido do costume. 

Dei por ela amuada, a olhar para o armário do Dr. Bayard, e entre os pés, que mantinha entrapados, fiz os circuitos para os meus automóveis de brincar, preenchi a caderneta da geração de ouro de 66 e sonhei com um lugar cativo no estádio ou tardes de crescidos e de cervejas em frente ao televisor a avaliar a tática do treinador. Até que me proibiram a mim de a visitar na sala: "Precisa de sossego. Precisa de descanso." Porém, encapotado pelas rotinas de uma casa cheia de gente, por hora de aprontar o jantar, batatas a apurarem no forno, o toque da campainha de pessoa conhecida, o som de passos na escada até ao primeiro andar, a sala coberta de sombras, quando a casa era luz e rebuliço, subia a uma cadeira, os dois pés com os ténis da moda muito pedinchados, abria o armário e rodava a tampa da lata.

("Um para mim, outro para ti, avó".)

O rebuçado juntava-se aos outros, já deixados por mim no bolso do seu casaco de malha, e, de costas, tinha a impressão de a ouvir agradecer de olhar amuado virado para o armário como nos castigos da escola.

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