Escolha as suas informações

O dicionário da Mafalda
Opinião Sociedade 3 min. 28.06.2022
Lei do aborto

O dicionário da Mafalda

Lei do aborto

O dicionário da Mafalda

Pixabay
Opinião Sociedade 3 min. 28.06.2022
Lei do aborto

O dicionário da Mafalda

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Há uma tira em quadradinhos da Mafalda que me vem muitas vezes à memória, em que ela abre um dicionário e lê a definição de “democracia”: “(palavra vinda do grego, etc.), designa um sistema de governo em que a soberania é exercida pelo povo”.

Mafalda fecha o livro, rindo às gargalhadas. Ao jantar, os pais estão espantados porque a menina não pára de rir. Chega a hora de ir para a cama e os pais não entendem o que se passa, pois Mafalda ainda continua a rir às gargalhadas.

A banda desenhada tem cerca de meio século, mais ou menos a mesma idade do acórdão Roe contra Wade que legalizou o aborto a nível federal nos Estados Unidos. Esse mesmo acórdão que acaba de ser anulado pelo Supremo Tribunal do país, um terramoto que continua (e continuará) a lançar ondas de choque que vão muito além do que acontece do outro lado do Atlântico.

O que está a acontecer ali está nos antípodas da democracia. O Supremo Tribunal é uma instituição que funciona mediante regras obsoletas, escritas há 233 anos por “donos” de escravos em pedaços de pergaminho. Com este golpe, usurpou e distorceu o poder que lhe foi concedido, destruindo o que restava do frágil equilíbrio entre as diferentes partes do regime democrático. Uma decisão extremamente impopular, que vai afetar a vida (e a morte) de milhões de mulheres (e de homens), foi tomada por um cube privado composto por apenas 9 pessoas, não eleitas mas sim colocadas por apenas uma, e para um cargo que é vitalício (num tempo em que já nem ser Papa parece ser para toda a vida).

“É o direito à vida na mão direita – e o direito ao assassínio na mão ainda mais à direita”  

Mas é possível descer ainda mais baixo: bastou que Trump, que nunca foi o candidato mais votado nas duas eleições que disputou, nomeasse três juízes radicais (dois deles mentindo com todos os dentes sobre as suas intenções para conseguirem ser indigitados) para que o Supremo fosse capturado por uma ideologia incrivelmente retrógrada, e minoritária. Quatro homens poderosos e uma mulher branca, oriunda de uma família privilegiada, mandaram retirar o direito de decidir sobre o seu próprio corpo a dezenas de milhões de mulheres, sobretudo desfavorecidas, sobretudo negras ou latinas (as que não têm dinheiro para ir abortar ao Canadá). E para rematar o extremismo em beleza, este corte à constituição aconteceu apenas 24 horas depois de os mesmos quatro homens e mulher branca terem anulado leis estaduais que restringiam o porte de armas escondidas. É o direito à vida na mão direita – e o direito ao assassínio na mão ainda mais à direita.

A juíza Ruth Bader Ginsburg afirmou um dia: “A decisão de gerar ou não uma criança pertence à mulher, sendo central à sua existência, bem-estar e dignidade. Quando o governo decide por ela, a mulher está a ser tratada como algo menos que um verdadeiro ser humano”. Mas Ginsburg faleceu em Setembro de 2020, aos 87 anos; se tivesse conseguido sobreviver mais alguns dias, a nomeação do seu substituto já teria escapado a Trump. Mas assim foi mesmo ele a abrir caminho para esta “vitória dos brancos”, como o descreveu a deputada republicana Mary Miller, uma aparente gaffe de alguém que já elogiou publicamente Hitler.

Desengane-se se pensa que este é um problema exclusivamente americano; até porque na Europa, como sempre, temos muitos imitadores. As leis do aborto em países como Malta, a Polónia e a Irlanda são completamente restritivas; a situação de muitas mulheres nesses países é grave, e em outros Estados-membros europeus há oligarquias parecidas, procurando impor a sua ideologia também neste campo. Atenção: as nossas conquistas civilizacionais não são nem garantidas nem irreversíveis. Esta semana voltamos a aprendê-lo.



Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.