O cavalo branco de Napoleão
O cavalo branco de Napoleão
Na certa, conseguimos estar imóveis e pouco pestanejantes minutos a fio, entre blocos publicitários, e mantemos um silêncio estoico no jantar, alegadamente romântico e sem filhos, do décimo segundo aniversário de casamento. Porém, quando as circunstâncias exigem que amordacemos o riso por respeito ao morto, a ser velado de caixão aberto, ele toma-nos como um formigueiro e somos incapazes de agir dentro do protocolo.
Há um tio que só vejo em funerais, se não contarmos com a vez em que o encontrei no São Francisco Xavier com um copo de urina avermelhada na mão. Quando pergunto, dizem-me, como quem enxota o pó, que pertence ao lado incógnito da família. Uma clara alusão à inscrição "filho de pai incógnito" que surgia, até ao 25 de Abril, nas identificações pessoais de três primos que a família anda a ver se deixa de fora da herança. Esse tio, de cada vez que um parente morre, pergunta-me de que cor era o cavalo branco de Napoleão e conta-me como falhou a última tentativa de suicídio que arquitetou. Mata ratos, atropelamento, comprimidos antiepiléticos ou coagulantes, table dance numa casa de alterne da Estremadura espanhola, sendo que, aparentemente, o que está mais perto de surtir o efeito desejado são os valores de colesterol mantidos à custo de muito leitão da Bairrada.
Os funerais são também os momentos em que revemos as vizinhas. As vizinhas constituem uma classe grupal que abarca tudo o que não é familiar direto, seja do ramo incógnito ou reconhecido da família. Temos noção do número de vizinhas presentes no velório, se estimarmos o número de coroas de flores em torno do caixão. Ao contrário dos familiares, as vizinhas não se juntam para comprar um único arranjo de flores, mas acotovelam-se e são capazes de madrugar à porta da loja para açambarcarem o maior, ou o mais vistoso, ou o com mais variedades de gladíolos. Também são conhecidas por 'faz tudo' nos funerais. Carpideiras incansáveis, puxam pelos pés o miúdo que se enfia debaixo do morto, entre crisântemos e begónias, à procura de uma tomada para ligar a playstation, ordenam a quem se debruça sobre o caixão, para uma última despedida, que limpe os beiços a um lenço de papel e são as primeiras a notarem que não foi feita a barba ao defunto.
Quando abandono o velório para fazer algum favor a uma vizinha, volto sempre com uma coroa de flores maior do que todas as outras, uma máquina de barbear Philips, que trabalha sem estar ligada à tomada, quatro pilhas para a playstation do miúdo e um pacote de kleenex. O meu tio diz-me:
'É, António, ainda bem que te vejo. Sabes qual é a cor do cavalo branco do Napoleão?'
E eu, porque o formigueiro me toma, já estou a rir sem dar por isso.
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