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Alemão continua a ser o maior problema dos alunos portugueses no Luxemburgo
Sociedade 5 min. 25.04.2022 Do nosso arquivo online
Educação

Alemão continua a ser o maior problema dos alunos portugueses no Luxemburgo

Educação

Alemão continua a ser o maior problema dos alunos portugueses no Luxemburgo

Foto: Gerry Huberty
Sociedade 5 min. 25.04.2022 Do nosso arquivo online
Educação

Alemão continua a ser o maior problema dos alunos portugueses no Luxemburgo

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
A pandemia veio agravar ainda mais as dificuldades nas competências orais e escritas da língua alemã pelos filhos dos imigrantes lusos das classes mais desfavorecidas, revela um novo relatório nacional.

O fecho das escolas e o ensino à distância imposto pela covid-19 prejudicaram a evolução da aprendizagem do alemão pelos alunos portugueses e lusodescendentes no Luxemburgo, no fundamental e no secundário. 

Isso mesmo revela o estudo “Qual o impacto da pandemia da covid-19 no sistema educativo?”, apresentado pelo ministro da educação, Claude Meisch e pelo autor principal da investigação, Antoine Fischbach, diretor do Luxembourg Centre for Educational Testing (LUCET), e investigador da Universidade do Luxemburgo, na semana passada, em Clausen.

A investigação pretendeu apurar como as medidas de proteção e higiene adotadas na pandemia afetaram as competências escolares do ensino básico e secundário no Luxemburgo no ano letivo passado, 2020/2021, e debruçaram-se sobre as três competências-chave: o alemão, o francês e a matemática.

No geral, e comparando com a primeira fase da pandemia, o estudo “não identificou uma tendência negativa sistemática que indicasse uma deterioração das competências escolares entre os alunos”, lê-se na investigação.

Contudo, a análise particular ao idioma alemão revela a grande exceção: houve um recuo na aprendizagem das competências orais e escritas deste idioma entre os alunos das classes socioeconómicas mais desfavorecidas, e entre os estudantes de outros grupos linguísticos, sobretudo os portugueses e franceses, que não falam luxemburguês em casa.

“De modo geral, para o desenvolvimento de competências no sistema escolar luxemburguês o nível socioeconómico das famílias e alunos é o principal fator de proteção se é elevado, mas também é o principal fator de risco se esse nível é baixo”, revela ao Contacto Antoine Fischbach. 

O impacto das nacionalidades dos alunos, das línguas faladas ou não em casa, surge em segundo lugar. Ou seja, “em termos estatísticos, em média, um aluno luxemburguês oriundo de uma família mais desfavorecida possui maiores dificuldades no sistema escolar do que um aluno português, de uma classe socioeconómica mais elevada”, explica este investigador.

Antoine Fichbach é o principal autor do estudo sobre as implicações da pandemia no sistema escolar.
Antoine Fichbach é o principal autor do estudo sobre as implicações da pandemia no sistema escolar.

A família e os idiomas

O problema agrava-se quando o contexto socioeconómico e o grupo linguístico se sobrepõem. Os alunos portugueses ou lusodescendentes das classes mais desfavorecidas são os que revelam maiores problemas de compreensão oral e escrita do idioma alemão, e o mesmo se passa com as outras nacionalidades imigrantes que não falam nem luxemburguês nem alemão em casa.

“Os alunos lusófonos não são caso único, mas tal como os franceses constam dos nossos gráficos porque são os mais representativos no nosso sistema de ensino. Temos alunos das mais variadas nacionalidades, mas o seu número absoluto no universo escolar não é suficiente para as comparações estatísticas nos testes”, esclarece Antoine Fischbach.

O investigador recorda que os estudantes portugueses representam cerca de 25% dos alunos nas escolas do Luxemburgo. Os portugueses são a maior comunidade imigrante no país.


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“Para dois terços dos novos alunos escolarizados, as línguas do nosso sistema escolar, o luxemburguês, alemão e francês são línguas estrangeiras, nenhuma delas é o seu idioma materno, o que constitui uma dificuldade maior”, realça o coordenador do LUCET. 

A pandemia com o ensino à distância veio fragilizar ainda mais as competências orais e escritas do alemão dos alunos das comunidades imigrantes, idioma que constituía já a maior dificuldade escolar antes da covid-19.

“Com o homeschooling estes alunos passaram a conviver ainda menos com o alemão, em casa não falam este idioma, não vêm televisão neste idioma e a interação com os professores e colegas foi menor. Este distanciamento prejudicou-os”, indicou Antoine Fischbach.

Os próprios pais dos alunos do ensino fundamental apontaram as dificuldades de aprendizagem do alemão na pandemia no anterior ano escolar. Os seus filhos geriram bastante bem as medidas de proteção e higiene relacionadas com a pandemia, bem como a evolução ao nível da matemática e do francês. 

Já o “alemão foi visto como mais difícil, sobretudo, para os alunos de famílias mais desfavorecidas e/ou que não falam luxemburguês, nem alemão em casa”, realça o estudo. Foram também os pais destes alunos os menos propensos a relatar apoio adicional de professores ou colegas, durante o ano letivo anterior.

De acordo com os pais, os alunos do ensino básico geriram bastante bem as medidas de proteção e higiene relacionadas com a pandemia durante o ano letivo de 2020/2021 no ensino geral, bem como em matemática e francês. 

No ensino secundário, dois terços dos alunos revelaram ter tido apoio suplementar dos professores e colegas de classe, em caso de necessidade. Um apoio que dizem ter sido reforçado a partir do outono de 2021.


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As recomendações

Nas conclusões desta investigação, o coordenador deixa três recomendações ao Ministério da Educação e aos responsáveis pelo sistema de ensino no país para que estes alunos consigam vencer na aprendizagem deste idioma.

“No ensino fundamental, a compreensão oral do alemão deve ser promovida de forma ainda mais diferenciada”, e as “competências ligadas à compreensão escrita em alemão devem ser promovidas de modo generalizado quer no ensino fundamental que no ensino secundário”, aconselha o investigador que deixa ainda um último conselho.

“Uma atenção particular deve ser dada aos alunos considerados já em risco no sistema escolar” antes da covid-19, pois eles “parecem ter sido os mais afetados pela pandemia ao nível escolar”, alerta Antoine Fischbach. Estes são sobretudo alunos das classes mais desfavorecidas e que não falam nenhuma dos idiomas, luxemburguês, alemão ou francês, do sistema de ensino, em casa.

O estudo sobre o impacto da pandemia no sistema escolar do Luxemburgo baseou-se em dados representativos de cerca de 23 mil alunos do ensino fundamental e secundário, e de 15 mil pais ou encarregados de educação do fundamental. Estes dados foram recolhidos através do modelo de “Épreuves Standardisées” (ÉpStan) realizados anualmente nas escolas, e relativos ao ano escolar de 2020/20201 e foram ainda comparados com os obtidos através do mesmo modelo junto de 183 mil alunos do fundamental e secundário dos anos anteriores, de 2014 a 2021.

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