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No vale dos três países a Omicron está a mudar os negócios
Sociedade 7 9 min. 12.01.2022
Reportagem

No vale dos três países a Omicron está a mudar os negócios

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No vale dos três países a Omicron está a mudar os negócios

Foto: António Pires
Sociedade 7 9 min. 12.01.2022
Reportagem

No vale dos três países a Omicron está a mudar os negócios

Ricardo J. RODRIGUES
Ricardo J. RODRIGUES
Ainda que estejam localizadas em três países diferentes, apenas três quilómetros separam as aldeias de Schengen, Perl e Sierck. Viagem ao vale onde se encontram Luxemburgo, Alemanha e França para perceber como uma nova vaga de coronavírus veio alterar as regras do jogo económico.

O que verdadeiramente chateia Angelique Glad é que a Europa não se entenda. "Em França há uma regra para deixar as pessoas entrar num bar, na Alemanha há outra e são completamente diferentes do Luxemburgo", suspira a empregada de balcão do Café Oudill, casa que leva 60 anos de portas abertas e é uma instituição de Schengen, aldeia luxemburguesa de 549 habitantes onde em 1985 foi assinado o pacto de livre circulação de pessoas, bens e serviços na Europa.

Nesta região, as pessoas vêm por gasolina ao Luxemburgo, fazem compras na Alemanha e vão comer a França. Ou era assim, pelo menos até chegar a covid-19.

Angelique Glad, empregada de café

Olhando para o mapa, Schengen fica no exato ponto onde o Luxemburgo encontra a França e a Alemanha. Uma ponte sobre o rio Moselle separa os três países mas, desde que a abertura das fronteiras foi estabelecida, a economia do vale funciona sem olhar a linhas de demarcação. "As pessoas vêm ao Luxemburgo comprar gasolina, tabaco e bebidas alcoólicas porque são mais baratos", explica Angelique. "Na Alemanha fazem-se as compras de supermercado, de roupa e de produtos cosméticos. E em França vai-se fazer turismo e comer fora. A gastronomia gaulesa é a que tem mais reputação".

Comércio em Schengen.
Comércio em Schengen.
Foto: António Pires

O novo coronavírus, no entanto, veio agitar um equilíbrio de décadas. "É fácil pensar que a pior altura foi a do fecho de fronteiras, em 2020. Afinal, tivemos de fechar as portas dos estabelecimentos e esconder-nos em casa", continua a mulher. "Mas eu acho que não. Nessa altura havia pelo menos apoios para as empresas. Agora estamos obrigados a ter as portas entreabertas e a safarmo-nos sozinhos".

Os países podem arranjar soluções, mas o que é que vai acontecer às regiões onde o comércio é transfronteiriço?

Dominika Kewalczuh, gerente de loja

No Café Oudill, onde a internacionalidade sempre foi vantagem, a vida cosmopolita está a tornar o negócio insuportável. "A clientela reduziu-se em mais de 50 por cento desde que apareceu esta variante Omicron. Deixámos praticamente de ter clientes franceses, porque em França bastam duas doses de vacinação para se entrar num bar. Quando pedimos às pessoas para fazermos um teste rápido, a maioria recusa", explica a empregada enquanto tira cervejas aos clientes que acabaram de entrar – e todos são alemães ou luxemburgueses.

Depois há a questão da idade. O Oudill é um café muito antigo, ponto de encontro para várias gerações da mesma família. "Os velhotes desapareceram, deixaram de vir porque têm medo. Eram eles que enchiam as mesas de manhã para beber os cafés e os cappuccinos, mas agora já não aparecem", conta Angelique. "Então deixámos de abrir a cafeteria às seis da manhã, que foi o que aconteceu durante mais de meio século. Abrimos às sete, ou então às oito. Pura e simplesmente já não vale a pena".

Azar de uns, sorte de outros

Atravessando a ponte sobre o rio Moselle, a França está do lado direito e a Alemanha do esquerdo. No lado germânico a primeira aldeia é Perl, que cresceu precisamente pela localização geográfica e proximidade das duas fronteiras.

Além de várias cadeias de supermercado, lojas de roupa e mobiliário, a aldeia de 2.192 habitantes acolhe três hipermercados da cadeia de cosméticos DM – e entre eles está a maior superfície que a loja possui em toda a Alemanha.

Mesmo ao lado dessa loja, uma cadeia de roupa barata também tem afirmado o seu sucesso. A Kik vende t-shirts a 2,99 euros, casacos a menos de 10, fatos de treino, camisolas e roupa interior a preço de saldo. "Estamos aqui há vinte anos, mas este é o pior inverno de que há memória", diz Dominika Kewalczuh, gerente do espaço. "Esta estação faturámos menos 66 por cento do que no ano anterior – e não se pode dizer que seja só o coronavírus, que esse também já cá andava em 2020. Mas, com esta variante Omicron e com muita gente vacinada, há regras diferentes para países diferentes que nos atrapalham muito o negócio".

Metade dos clientes da Kik são franceses, 30 por cento são luxemburgueses, apenas 20 por cento são alemães. Mesmo que estejamos em território germânico, Kewalczuh mandou instalar vários avisos à porta em francês – para avisar a clientela que é preciso ter certificado de vacinação, atestado de recuperação ou fazer um teste rápido para entrar naquela superfície. "As pessoas reagem de forma extremamente nervosa a isto, às vezes até se comportam de forma agressiva e violenta", diz a gerente. "Eu percebo o argumento de que a roupa é um bem de primeira necessidade. E percebo que nos outros países não seja necessário tudo isto para entrar numa loja. Mas são as regras em Saarland e nós não podemos fazer nada".

É complicado perceber as regras, porque elas estão sempre a mudar.

Henrique Nogueira, habitante de Sierck-les-Bains

Nos últimos meses, face à quebra de vendas, a gerente da Kik viu-se obrigada a dispensar um terço do pessoal. E diz não saber muito bem o que o futuro reserva, mas quando assoma à porta e olha para o parque de estacionamento das grandes superfícies que há ali à volta torce o nariz. "Isto estava sempre cheio, mesmo durante a semana. Agora nem sequer um décimo dos lugares está ocupado. Temos a Omicron e temos de ter paciência, certo. Mas depois pode chegar outra variante, e a seguir outra, e a verdade é que não sabemos quando isto vai terminar". Atira os olhos para baixo antes de lançar esta pergunta: "Os países podem arranjar soluções, mas o que é que vai acontecer às regiões onde o comércio é transfronteiriço, como esta?"

O desalento da gerente de uma loja de roupas não podia encontrar maior contraste do que este: uma roulotte de frango assado, localizada também em Perl. Há 32 anos que Henriette Gress puxou os travões da sua caravana e estacionou-a num parque do lado alemão, uma centena de metros antes do ponto onde a estrada se bifurca em direção a França e ao Luxemburgo. Aqui, vendem-se frangos e joelhos de porco assados, mais asas de galinha fritas e cobertas em paprika em pó.

O negócio de Henriette Gress na alemã Perl é ao ar livre, não sofre tanto com a pandemia.
O negócio de Henriette Gress na alemã Perl é ao ar livre, não sofre tanto com a pandemia.
Foto: António Pires

"Pois a nós esta pandemia não nos tem corrido nada mal", diz a mulher enquanto vai servindo os clientes. Vem gente de todas as proveniências, alguns pedem apenas almoço para aquele dia, outros encomendam cinco ou seis peças diferentes para levar para os colegas nos escritórios, ao fim de semana há hora de ponta antes do almoço com gente que vem buscar encomendas para os repastos de família. "Agora até há gente que vem de Thionville buscar aqui comida", e Gress desata a rir às gargalhadas.

A Caravana Sonnier deu a volta à pandemia. Quem quer come em pé, no carro ou pode levar para casa.
A Caravana Sonnier deu a volta à pandemia. Quem quer come em pé, no carro ou pode levar para casa.
Foto: António Pires

Antigamente, a caravana Sonnier, é assim que se chama o negócio, tinha mesas à porta, que foram desmontadas. "Não vale a pena, para ter isso tenho de andar a pedir testes às pessoas e é contraproducente", conta a mulher. "Então pus só duas mesas altas para quem quiser comer ao ar livre ter onde se apoiar e a maioria é para take-away. Quer dizer, muita gente come no carro. Mas, pronto, temos comida quente e boa e como estamos ao ar livre a malta adere. Sobretudo nesta fase da Omicron, porque as regras de vacinação são diferentes em cada país. Demos a volta ao problema", remata, antes de se virar para tornar à brasa.

Um sacrilégio em França

O primeiro lugar do lado francês é Apach. É uma povoação minúscula, um dormitório de fronteiriços que trabalham no Luxemburgo. A vida aqui é tão pacata que o principal local de comércio da terra é uma máquina instalada no largo central onde se coloca uma moeda de um euro em troca de uma baguete quente. É toda uma afronta à tradição panificadora gaulesa mas, em tempo de pandemia, é uma solução eficaz para reduzir contactos. Dificilmente se encontraria melhor sinal dos tempos.

A máquina de baguetes quentes é uma afronta à tradição panificadora gaulesa mas, em tempo de pandemia, é uma solução eficaz para reduzir contactos.
A máquina de baguetes quentes é uma afronta à tradição panificadora gaulesa mas, em tempo de pandemia, é uma solução eficaz para reduzir contactos.
Foto: António Pires

Um quilómetro adiante fica Sierck-les-Bains, primeira aldeia digna desse nome. Encostada aos terrenosvinícolas da Moselle, é um dos principais centros turísticos do vale – provavelmente o maior. O castelo, os restaurantes e os hotéis tornam este um destino popular aos fins de semana. Mas, desde que chegou o cornonavírus, e particularmente a variante Omicron, as coisas tornaram a mudar. "É complicado perceber as regras, porque elas estão sempre a mudar", dizem Henrique Nogueira e Joana Pena, ele 25 e ela 23, portuenses que se mudaram para aqui há cinco meses à procura de habitação a preços acessíveis. "Se vives aqui, tens de saber as leis em três países e é uma confusão. Então agora decidimos que cumprimos tudo segundo as normas do Luxemburgo, que é o país onde trabalhamos", conta ele.

Henrique Nogueira e Joana Pena, portuenses residentes em Sierck-les-Bains
Henrique Nogueira e Joana Pena, portuenses residentes em Sierck-les-Bains
Foto: António Pires

Como muita gente, estão a abdicar das vantagens da vida num vale de três países. Não vão jantar fora a França, nem fazem compras na Alemanha. Escolheram um país e agarraram-se simplesmente a ele. E essa é uma tendência que Emilie Jost, proprietária do restaurante La Vieille Porte, também nota. "As pessoas circulam menos e noto que a clientela se está a conter nas viagens, mesmo que estejamos a menos de três quilómetros da Alemanha e do Luxemburgo. Ninguém percebe bem as regras de um lado e de outro e por isso prefere conter-se."

O La Vieille Porte está nas mãos da família Jost desde 2005. É um lugar de romaria para os comensais da região, sobretudo o seu arroz de vitela com vinho jovem e lascas de cogumelos. "Antes da pandemia, era impossível marcar aqui mesa com menos de três semanas de antecedência", conta a dona da casa. No espaço cabem 40 clientes, e por norma quase todos vinham do Grão-Ducado. "Agora chegamos a sábado com uma ou duas reservas. Não quer dizer que depois não tenhamos um bom serviço, mas as pessoas já não marcam, aparecem se estiverem de passagem. Por isso estamos a notar que há cada vez mais franceses a vir aqui. É uma mudança de jogo".

Julie Moritz explica como o turismo está a mudar na aldeia francesa de Sierck.
Julie Moritz explica como o turismo está a mudar na aldeia francesa de Sierck.
Foto: António Pires

Estamos a assistir a uma inversão da oferta de serviços por causa da pandemia. Sobretudo no setor da hotelaria e da restauração.

Julie Moritz, técnica de turismo em Sierck-les-Bains

Se as regras mudam, os serviços fazem o mesmo. "Esta pandemia tem sido trágica para o setor da hotelaria e da restauração, disso ninguém tem dúvidas", atesta Julie Moritz, técnica de turismo em Sierck-les-Bains. "Então estamos a assistir agora a uma inversão da maneira como se oferecem os serviços. As pensões oferecem passeios de bicicletas, estão a começar a produzir mel e outros produtos agrícolas e a adaptar-se a toda esta incerteza. Mesmo nós, na autarquia, estamos mais a promover o turismo de natureza do que o de património, que era o prato forte na nossa terra. Temos de ser inteligentes e adaptarmo-nos. Por mais que o queiramos, já todos percebemos que ninguém pode dizer quanto tempo vai durar esta pandemia". Ou se o mundo vai voltar ao normal.

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