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No Luxemburgo de 2050 o bem-estar terá de ser tão ou mais importante que o PIB
Sociedade 4 min. 04.11.2020

No Luxemburgo de 2050 o bem-estar terá de ser tão ou mais importante que o PIB

No Luxemburgo de 2050 o bem-estar terá de ser tão ou mais importante que o PIB

Foto: Pierre Matgé/Luxemburger Wort
Sociedade 4 min. 04.11.2020

No Luxemburgo de 2050 o bem-estar terá de ser tão ou mais importante que o PIB

Catarina OSÓRIO
Catarina OSÓRIO
Consórcio liderado pela Universidade do Luxemburgo vai apresentar ideias inovadoras para um Luxemburgo mais verde, sustentável e resiliente em 2050. Apelo foi feito pelo Executivo.

Como deveria ser o Luxemburgo em 2050? Num cenário ideal seria tudo aquilo que o de hoje ainda não o é ao nível da sustentabilidade e ambiente. O país da UE com o mais elevado número de carros per capita, elevados níveis de poluição atmosférica e consumo de energia. Já para não falar das lacunas ao nível da mobilidade.

Ciente destes problemas o Executivo grão-ducal decidiu lançar uma consulta pública aberta a empresas ligadas à arquitetura e urbanismo, bem como universidades e organizações ligadas ao ambiente. A iniciativa de grande envergadura está alinhada com os objetivos de descarbonização do país até 2050, melhorar a eficiência energética e criar soluções de mobilidade mais eficientes e amigas do ambiente. Servirá como guia para as políticas públicas em matéria de sustentabilidade e de ordenamento do território nas próximas décadas.

O projeto de grande envergadura não diz apenas respeito ao Luxemburgo. Vai até aos países vizinhos, habitantes e regiões que Bettel não se cansa de elogiar, estende-se à área metropolitana transfronteiriça, a chamada Grande Região. "Uma área composta por 715 comunas e cerca de 2 milhões de habitantes", refere uma nota do Ministério da Energia e Gestão do Território.

A ideia é que o "Luxemburgo e os países vizinhos se transformem numa região transfronteiriça, num local mais acessível e igualitário para todos", projeta Florian Hertweck, líder de uma das equipas que atendeu ao chamamento do governo.

Das 30 equipas, apenas 10 foram selecionadas e não são apenas do Grão-Ducado. Há luxemburgueses, belgas, alemães, franceses, holandeses, suíços, e até americanos. A 'mais luxemburguesa' é a liderada por Hertweck, professor na Universidade do Luxemburgo e arquiteto de profissão.  

Deslocações casa-trabalho na "base dos problemas" do país

Apesar de o projeto estar ainda em esboço, já é certo que a mobilidade será uma das áreas onde o consórcio liderado pela Universidade do Luxemburgo vai propor ideias. "42% dos trabalhadores na capital deslocam-se diariamente entre casa e trabalho. Isto é o que está na base dos problemas do Luxemburgo", explica. Aliás, uma das grandes dores de cabeça para muitos transfronteiriços.

Florian identifica outras frentes onde que é preciso atacar: grande assimetria entre a capital e o resto do país, os problemas da habitação, com a propriedade das terras e, acima de tudo, "tudo é baseado no carro hoje em dia, na mobilidade individual", considera.

A juntar a isto, o Grão-Ducado continua a ser um país onde se faz "turismo de combustível" - onde os residentes dos países vizinhos vêm abastecer devido os preços mais baratos. Na visão da equipa o país terá de ter mais infraestruturas de proximidade nas próximas décadas. Um "maior equilíbrio onde se mora, onde se consome, o que se come, uma distância menor entre o trabalho e casa". Um "urbanismo de mais proximidade e de menos mobilidade", complementa o arquiteto. Uma visão que é partilhada por outro dos parceiros do consórcio, o Instituto Luxemburguês de Ciência e Tecnologia (LIST, na sigla inglesa), que alerta também para a necessidade urgente de um "uso mais racional de recursos", por exemplo um maior consumo de produtos locais.  


No Luxemburgo, continua a ser mais eficiente utilizar carro do que transportes públicos
No país com o número mais elevado de carros per capita na Europa, o que podemos fazer para diminuir a nossa pegada de carbono? Usar os transportes públicos e reduzir o consumo de carne tem mais impacto do que reciclar, considera Thomas Gibon, investigador do Instituto de Ciência e Tecnologia do Luxemburgo (LIST).

Mesmo as medidas 'verdes' "podem ter impacto negativo"

A explicação mais simples para o papel do LIST é o de 'advogado do diabo'. "Vamos tentar utilizar métodos para medir as ideias a propor". Isto é, "por exemplo, na mobilidade elétrica é verdade que se consegue reduzir as emissões de CO2, mas por outro lado o consumo de eletricidade aumenta. É preciso avaliar bem o impacto destas ideias", explica Enrico Benetto, diretor do departamento de Avaliação de Sustentabilidade Ambiental do LIST.

Questões como as alterações climáticas são "multidimensionais", variam no tempo e espaço, e tentar combatê-las tem sempre um impacto negativo noutras dimensões, ou pode mesmo "criar novos problemas". Desta forma, "é necessário quantificar estas ideias para termos a certeza que não estamos a descarbonizar só porque sim", reitera Enrico.

Por outro lado, Florian Hertweck defende que é altura de mudar de paradigma. "Atualmente o indicador mais importante para um país ainda é o PIB, mas deviam existir outros mais. Por exemplo bem-estar, saúde, segurança, qualidade do ar ou diversidade cultural".

Para além da Universidade do Luxemburgo e do LIST, o consórcio inclui investigadores do Centro Luxemburguês para a Ecologia (CELL, na sigla inglesa), do Instituto para a Agricultura Orgânica (IBLA, na sigla luxemburguesa) e do gabinete francês de arquitetura, OLM.

Até janeiro do próximo ano, as dez equipas terão de submeter as primeiras propostas de ideias. "A primeira fase será ainda muito abstrata, à base de ideias, a próxima já será mais concreta", à base de desenhos que ilustrem a visão, descreve Florian. Após a submissão, as propostas serão avaliadas por um comité consultivo, "onde se incluem cerca de 30 cidadãos representativos da sociedade luxemburguesa e que habitam no Luxemburgo e nos países fronteiriços", refere Carlos Guedes, cordenador e responsável do departamento de gestão do território do Ministério da Energia e Ordenamento do Território.

Numa fase posterior "apenas seis serão selecionadas e mais tarde só três vencerão o concurso para desenvolver um plano de 'transição' do país até 2050", esclarece Carlos Guedes.  Até lá o "laboratório" de ideias terá muito trabalho pela frente. 

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