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No fundo até somos pessoas decentes
Opinião Sociedade 2 min. 23.11.2022
Andamos todos ao mesmo

No fundo até somos pessoas decentes

Andamos todos ao mesmo

No fundo até somos pessoas decentes

Opinião Sociedade 2 min. 23.11.2022
Andamos todos ao mesmo

No fundo até somos pessoas decentes

Paulo FARINHA
Paulo FARINHA
Um indivíduo passa boa parte da vida convencido de que a coisa vai melhorar. Que a partir de certa altura, que pode variar de pessoa para pessoa, passaremos a ver tudo de forma diferente. Com mais experiência de vida virá outra forma de ver o mundo e aterrará em nós uma sabedoria e bom senso que nos vão poupar dissabores nos anos que restam até à cova.

Certo? Errado! A experiência ajuda, mas não resolve. E não emenda o que não é para emendar.

Não sei exatamente onde fica a crise da meia-idade, mas na Europa, se usarmos a aritmética como referência, andará pelos quarenta anos. A esperança média de vida em Portugal está pelos 80,7 anos, no Luxemburgo sobre para os 82,7 (dados da Pordata e do Eurostat), mas, mais coisa menos coisa, quando entramos nos “enta” será expectável que façamos contas à vida (um dilema de primeiro mundo, porque se não houver dinheiro para pôr arroz na mesa não há tempo ou disposição para indecisões existenciais sobre o rumo que temos seguimos).

Uns terão vontade de comprar um carro potente, outros de mudar de emprego, uns para fazer a tatuagem sempre adiada ou deixar crescer o cabelo, outros para tirar o curso eternamente adiado, uns para sair do país ou da cidade, outros para sair do casamento. Uns farão algumas destas coisas. Outros farão contas à vida e vão deixar-se estar. Cada um sabe de si e das suas dúvidas, dilemas e caminhos a seguir.

Mas há coisas que não mudarão. Ou por defeito ou feitio, e por muita psicoterapia que façamos se isso nos incomodar ou se acharmos que nos tornaremos mais decentes connosco e com os outros, há traços de personalidade que nos acompanharão. O que nos define perante os que nos rodeiam e o que faz de nós pessoas na interação com quem amamos.

Nem sempre seremos bons filhos ou miseráveis pais, nem sempre seremos excepcionais maridos ou terríveis companheiros, nem sempre seremos modelo a seguir ou trilho a evitar. Somos feitos de tanta coisa e nada nos caracteriza em definitivo, mas há alguns traços que se mantêm.

Vamos sempre espantar-nos com o nascimento do filho de um amigo – ou o neto. E ficaremos felizes por ele como se fosse nosso. Vamos sempre ficar sem chão quando nos morrer o pai ou a mãe. Vamos sempre pensar que tivemos azar na lotaria do cancro e depois da revolta lá iremos buscar a paz de que precisamos. Vamos sempre consumir-nos por dentro quando tivermos um filho a sofrer e vamos sempre tentar encontrar uma forma de dar a volta para o tentar compreender e lhe atenuar a dor.

Quer gostemos do natal ou soframos com a ansiedade que a época traz, vamos sempre conseguir ligar-nos um pouco à família, seja a de sangue ou a outra. E mesmo que contemos os dias que faltam para o 26 de dezembro, vamos sempre arranjar maneira de sobreviver a mais uma época de festas.

Vamos emocionar-nos com o que nos emocionava quando éramos adolescentes e vamos reagir mal às discussões dos outros como acontecia quando ouvíamos gente a gritar. Vamos cantarolar uma música da rádio porque não conseguimos evitar e vamos seguir aquele cheiro que nos faz lembrar alguém de quem temos saudade.

Há coisas que não vão mudar à medida que crescermos e, ao fim do dia, vamos deduzir que algumas até fazem de nós pessoas em condições. E, se calhar, se aceitarmos melhor algumas destas idiossincrasias – as que não prejudicam os outros – somos até capazes de concluir que somos decentes. E, com um pouco de sorte, até ter orgulho na pessoa em que nos tornámos.

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