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No Carnaval da terceira maior cidade do Brasil, a festa foi luxemburguesa

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No Carnaval da terceira maior cidade do Brasil, a festa foi luxemburguesa

No Carnaval da terceira maior cidade do Brasil, a festa foi luxemburguesa
Reportagem Contacto

No Carnaval da terceira maior cidade do Brasil, a festa foi luxemburguesa


por Ricardo J. RODRIGUES/ 27.02.2022

Dominique Santana na noite em que o camião trouxe o contentor para Belo Horizonte.

A abertura de Esch '22 - capital europeia da cultura foi celebrada por centenas de pessoas na cidade de Belo Horizonte. História de um festival que nunca tinha acontecido, de uma comunidade esquecida que se reencontrou no amor ao Grão-Ducado e de como uma historiadora luxemburguesa-brasileira conseguiu juntar os dois países.

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Um laço de aço
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A festa a caminho do (L)aço.
A festa a caminho do (L)aço.
Foto: Felix Schaaf

Já passava das dez da noite quando o camião chegou ao Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte. É um edifício neoclássico construído no final do século XIX, que durante décadas serviu de residência ao governador do estado brasileiro de Minas Gerais. Hoje, acolhe o posto de comando militar e várias receções diplomáticas. No sábado de Carnaval, no entanto, os jardins abriram-se pela primeira vez para receber uma comunidade estrangeira. Aqui aconteceu o primeiro Festival do Luxemburgo no Brasil.

Três dias antes tinha chegado o camião. Trazia dois contentores que não eram apenas contentores, mas um centro de memória imaginado por Dominique Santana, historiadora luxemburguesa-brasileira, para estabelecer a ligação entre dois países. "Chama-se (L)aço porque é um laço de aço", explicava, ao mesmo tempo que uma grua elevava a estrutura e a apontava ao lugar designado. Era um dos epicentros de uma festa sem precedentes para a comunidade luxemburguesa no Brasil.

Clarisse Fonseca organizou o Festival Brasil Luxemburgo.
Clarisse Fonseca organizou o Festival Brasil Luxemburgo.

Santana passou os últimos quatro anos a investigar o pedaço de Grão-Ducado que se espalhou a Minas Gerais. O Brasil tem milhares de descendentes do país, a maioria veio na primeira metade do século XIX fugindo da fome e da miséria - e ocupou as terras do sul. "Mas aqui no centro-oeste há uma história diferente", dizia ela enquanto a grua pousava o primeiro contentor, que na verdade ficou um pouco torto porque alguém se esqueceu de um pedaço de madeira no chão. Foi preciso repetir a operação para que a estrutura não tremesse como uma mesa de esplanada.

A emigração luxemburguesa para esta região do Brasil conta pouco mais de cem anos. Foram sobretudo engenheiros e topógrafos, projetistas e arquitetos que vieram com contratos assinados do Grão-Ducado para criar o que é hoje a maior siderurgia integrada da América do Sul. A empresa era uma subsidiária da Arbed. Começou por chamar-se Companhia Belgo-Mineira, hoje é a Arcelor-Mittal. Por isso, e durante décadas, Minas Gerais acolheu gente de Esch-sur-Alzette e Differdange, Pétange e Dudelange.

Carlo Krieger, embaixador do Luxemburgo em Brasília.
Carlo Krieger, embaixador do Luxemburgo em Brasília.

Muitos ficaram, trouxeram as famílias, abriram e fizeram crescer cidades no meio de parte nenhuma, como João Monlevade ou Sabará. "O aço que produziam acabaria por ser utilizado na construção de Brasília, da ponte de Niterói, nalguns dos maiores marcos da arquitetura e engenharia brasileiras", diria dias mais tarde Carlo Krieger, embaixador do Luxemburgo no país. Num sábado de Carnaval, o terceiro que Belo Horizonte vê cancelado por causa da pandemia, essa história abriu-se como caixa de Pandora, nos contentores que afinal eram laços.

 São na verdade dois quiosques, onde se pode consultar o mundo que une os dois países e ajudar a continuar a escrita da história. Um está instalado em Esch-sur-Alzette, outro em Belo Horizonte – e esse viajará daqui a uns dias para João Monlevade, pequena povoação tropical tornada grande pelos luxemburgueses no pós-guerra. No mesmo dia em que a segunda maior cidade do Luxemburgo se tornava capital da cultura europeia, estabeleceu-se a ligação entre dois lados do Atlântico. Há um braço do Esch ´22 que se estendeu no Carnaval para o Brasil. Repôs uma ligação perdida há décadas. E isso resultou numa festa danada.

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O cinema é uma festa
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Ligação de Belo Horizonte a Esch'22.
Ligação de Belo Horizonte a Esch'22.

A ideia de fazer um Dia do Luxemburgo em Belo Horizonte andava há algum tempo na calha. Clarice Fonseca, que organizou o Festival do Luxemburgo no Brasil, explica: "O plano inicial era celebrar o aniversário do Grão-Duque com barraquinhas de comida e bebida, música, festa na rua. E apontámos num primeiro tempo para 23 de junho de 2020. Só que, claro, tivemos de cancelar tudo por causa da pandemia."

Dois anos depois, veio finalmente a festa. "A partir do momento em que comecei a trabalhar neste evento percebi o entusiasmo que ele criava. A comunidade luxemburguesa é muito maior do que eu alguma vez podia imaginar e foi incrível perceber como um país pequenino lá na Europa tinha semelhante impacto num gigante como o Brasil", dizia Fonseca. O embaixador Krieger respondeu na mesma moeda: "Não há no mundo muitos eventos desta dimensão que envolvam a diáspora luxemburguesa. Seguramente é o maior que alguma vez foi feito no Brasil."

Nadia Mellina, diplomata brasileiro-luxemburguesa, na antestreia d'A Colônia.
Nadia Mellina, diplomata brasileiro-luxemburguesa, na antestreia d'A Colônia.

Primeiro, foi o cinema. Quatro anos de trabalho de investigação fizeram Dominique Santana transformar a sua recolha de informação em projeto transmedia. Cinco horas e meia de filme, entrevistas, cartas e fotografias antigas, documentos e arquivos foram montados num site que cada utilizador pode navegar como e quando quiser - e a que ela chamou A Colônia Luxemburguesa. É um projeto com o cunho da Samsa Films, a produtora da série da Netflix Capitani e do documentário Collective, nomeado o ano passado para os Oscars.

Duas sessões encheram o Cinema das Belas Artes de Belo Horizonte com luxemburgueses de coração. Santana passou alguns troços d'A Colônia e arrancou reações inflamadas à audiência. Niel Flávio, um ator que mora em João Monlevade, a cidade que os luxemburgueses inventaram no interior de Minas Gerais, pediu a palavra para agradecer a narrativa: "Sinto que me estão a devolver a minha história e as minhas raízes, ainda que eu não as conhecesse." A colonização luxemburguesa do Brasil, bem vistas as coisas, é mistério dos dois lados do charco.

Paul Lesch e Alessandra Luciano, do CNA, com o (L)aço em fundo.
Paul Lesch e Alessandra Luciano, do CNA, com o (L)aço em fundo.

Paul Lesch, diretor do Centre National de l'Audiovisuel (CNA), afirmava-se orgulhoso por ser aliado deste projeto desde o primeiro dia. O CNA forneceu uma parte das gravações à Colônia, restaurou diversos filmes encontrados no Brasil, digitalizou outros. "Isto é uma ligação muito interessante entre o Luxemburgo e o resto do mundo, o grande mundo. Havia gravações impressionantes, um património incrível à espera de ser descoberto. É impossível não ficar fascinado com as comunidades luxemburguesas que vivem fora e esta era muito desconhecida, apesar de ser enorme." Se a história dos que partiram para a América ou o Congo era sabida, diz ele, agora há um segredo que foi revelado.

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História em construção
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Agora estava dado o tom, e o dia era de recuperar memórias. À saída do cinema, a multidão começou a dirigir-se para o Palácio da Liberdade, onde a festa seguia. Amigos que não se viam desde a infância cumprimentavam-se com abraços. "Moien, moien", diziam uns para os outros. Às vezes começavam a falar em francês, depois escangalhavam-se a rir e voltavam ao português – a língua dos dias todos.

Vieram os discursos da praxe e depois veio o que faz da festa verdadeiramente festa: comida, bebida e música. Uma orquestra de cordas chamada MusiCoop ia afinando violinos, violas e violoncelos - 20 músicos, no total. Filipe Magalhães, o maestro, contava que fazer os arranjos do hino luxemburguês, Ons Heemecht, foi um exercício de descoberta. "Os hinos costumam ser tão mais bélicos. Este é alegre, plácido e calmo."

Além de Dominique Santana, dificilmente haveria alguém mais feliz no festival do que Paulo-Henrique Pinheiro de Vasconcelos, o cônsul honorário do Grão-Ducado em Belo Horizonte. "Agora que a gente começou a festa não vai parar mais não", avisava ele enquanto levantava um copo de vinho da Moselle para brindar. "Temos de avisar lá no Luxemburgo que há aqui um Brasil que o ama profundamente." Estava reposto o laço.

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