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No avião, eu e Fernão Mendes Pinto
Opinião Sociedade 3 min. 19.04.2021

No avião, eu e Fernão Mendes Pinto

No avião, eu e Fernão Mendes Pinto

Foto: Pixabay
Opinião Sociedade 3 min. 19.04.2021

No avião, eu e Fernão Mendes Pinto

Filipa MARTINS
Filipa MARTINS
Uma cadeira de avião é a melhor metáfora da relação entre povos vizinhos: o meu assento (cadeira, de forma mais literal) é o tabuleiro onde o meu vizinho de trás come. Recapitular. Mal cheguei. Poucas semelhanças entre a minha chegada à Tailândia e a experiência de Fernão Mendes Pinto. Arrisco.

Ele chegou numa nau, eu numa cabine pressurizada. O que é que significa isso não sei exatamente. Mas produz um ruído interessante, como uma televisão em ruído estático, mas mais intenso, menos romântico que o bater sincopado das águas no casco dos barcos. Tem os seus méritos, almofadar os sons, reduzi-los, se não de intensidade, de estridência, misturando-os de certa forma. Também nos dá ilusão de uma máquina em movimento, um controlo sobre a distância, há uma direção que foi tomada, não estamos à deriva de velas frouxas. Este som seria bem-vindo o resto do tempo, quando estagnamos os dias - não vivemos os dias - para nos manter a ilusão de destino.

Mas no que toca à relação entre povos haverá mais semelhanças entre a Peregrinação e a Pressurização. Como disse. Uma cadeira de avião é a melhor metáfora da relação entre povos vizinhos: o meu assento (cadeira, de forma mais literal) é o tabuleiro onde o meu vizinho de trás come. São o mesmo corpo, com funções distintas e até antagónicas para cada um de nós. O meu descanso será sempre importunado pela vontade de comer dele. Se colocarmos um palestiniano no assento da frente e um israelita no assento imediatamente atrás, perceberão melhor esta metáfora? Num primeiro momento, é apenas o incómodo de rodar a patilha, que prende o tabuleiro. Para quem o faz, é um gesto necessário; para quem o sente, o estremecimento resulta num despertar conturbado. Em um voo de doze horas, depressa ganha proporções de conflito fronteiriço.

E o que dizer desta distribuição democrática de espaço, independentemente do tamanho, ambição, facilidade em cair no sono? Todos confinados aos mesmos centímetros entre braços nos assentos. Não entendem que a igualdade na distribuição de recursos termina sempre em rebelião? Houvesse destinos mais longínquos ou tempos de viagem mais dilatados, como os das travessias de Mendes Pinto. A velocidade a que chegamos aos lugares reduziu a matança. A borda das naus tinham tempo para degolar homens e mandá-los borda fora. Mas o instinto com que lançamos o cotovelo para lá do término do braço da cadeira não deixa de ser o mesmo.

O pai indiano na fila do meio desaparece e reaparece com uma nova caixinha de acrílico transparente repleta de fruta encerada por uma goma artificial. Empilha as caixas, uma composição colorida de Lego. Desaparece e regressa com nova caixa, como os machos que partiam para a caça. As crianças reduzem a construção a escombros. O homem parte novamente em busca de alimento. Lutar por território, comida, mantendo o equilíbrio difícil da relação entre povos. Seriam as motivações dos homens que acompanharam Mendes Pinto, são as leis a que nos temos de sujeitar dentro de uma cabine pressurizada cinco séculos volvidos.

Faço contas ao fuso horário, atravessei o mundo num piscar de olhos. Tenho a cabeça pesada como se fosse madrugada (é madrugada em Lisboa), mas as pernas querem mexer, descobrir, calcorrear. Tenho a cabeça na origem e os pés no destino. Como tantas vezes me acontece.

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