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Nisto saio ao meu pai, naquilo à minha mãe: as dúvidas da lotaria genética
Opinião Sociedade 3 min. 29.06.2022
Andamos todos ao mesmo

Nisto saio ao meu pai, naquilo à minha mãe: as dúvidas da lotaria genética

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Nisto saio ao meu pai, naquilo à minha mãe: as dúvidas da lotaria genética

Foto: Unsplash/Kelli McClintock
Opinião Sociedade 3 min. 29.06.2022
Andamos todos ao mesmo

Nisto saio ao meu pai, naquilo à minha mãe: as dúvidas da lotaria genética

Paulo FARINHA
Paulo FARINHA
Percebo agora melhor, à medida que os anos passam, o que herdei do meu pai e e da minha mãe. Que comportamentos, aflições, modos de pensar ou de me tranquilizar são estes e de onde vieram.

A caneta não está a escrever bem e os números, aqueles algarismos inclinados, quase deitados sobre as linhas imaginárias que os suportam, saem intermitentes. O 7 não parece bem um 7 e ao 4 falta uma perna. Aqui está um 0 que não fecha o ovo, acolá ficou um 8 que parece um 3. Cansado de lutar contra a tinta que não sai bem do bico onde a esfera desliza sobre o papel, o meu pai solta um palavrão e joga a caneta para o lado, pegando de seguida noutra para continuar as contas.

É um clássico. Toda a vida vi o meu pai a fazer isto: contas e contas e contas. Contas ao dinheiro que entra, ao que sai, ao que se gastou nesta consulta ou naqueles medicamentos, nesta conta de supermercado ou naquele arranjo do carro. Poupado por necessidade e organizado por natureza, o senhor meu progenitor sempre soube quanto dinheiro tinha no banco, quanto podia gastar no natal, quanto haveria de destinar ao curso deste filho ou ao presente daquele neto.

Mas foi aquela imagem, do pedaço de envelope branco rasgado onde ele escrevia os números curvados – creio que eram as contas de um almoço ou de um lanche qualquer –, da cabeça sobre a mesa, dos talões do multibanco misturados com os do supermercado e da farmácia, uns presos com um clip e outros enfiados numa bolsa de plástico já amarelada, foi naquela imagem do meu pai a fazer o que sempre vi fazer que eu percebi: aquele era eu. Aquele sou eu.

Percebo agora melhor, à medida que os anos passam, o que herdei dele e da minha mãe.

Sou eu com as minhas contas em papéis rasurados na carteira onde escrevo o que entrou e o que saiu, para não me perder quando faltar mês no fim do dinheiro e não ficar em pânico na dúvida sobre o destino dos euros. “Ah, foi aqui nesta despesa, está tudo explicado”. Saber isto não me vai trazer o dinheiro de volta, mas vai-me ajudar a controlar a ansiedade de não saber para onde ele foi.

O episódio da caneta que não escrevia bem aconteceu no fim-de-semana, mas a ideia de ter herdado este hábito (necessidade, na verdade) é antiga. A diferença é que tenho agora mais consciência dela. Percebo agora melhor, à medida que os anos passam, o que herdei dele e da minha mãe. Que comportamentos, aflições, modos de pensar ou de me tranquilizar são estes e de onde vieram. E de cada vez que, numa conversa qualquer, eu levo um assunto de Lisboa a Coimbra e faço escala em Vila Real de Santo António ou em Viana do Castelo, para desespero de quem me ouve, é na minha mãe que eu penso. Tal como acontece quando passo um pano na bancada da cozinha para a deixar perto de imaculada ou quando arrumo a caixa de ferramentas como ela arruma a de costura. E penso que é a ela que devo esta coisa de ver copos meio cheios nas dificuldades, por antítese aos copos meio vazios que o meu pai, precavido e resguardado, sempre viu. E penso que é dele esta coisa de me emocionar nas notícias e que é dela este impulso de ajudar os outros mesmo que eles não peçam auxílio.

Uma coisa é o que vemos e aprendemos a fazer daquela maneira – ainda imito os gestos do meu pai a fazer a barba ou os da minha mãe a amassar filhoses no natal –, mas outra são as seguranças e necessidades, as dúvidas ou os anseios que nos calharam na lotaria genética. E descobrir de onde vieram pode ser tão fantástico como assustador.

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