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Neta filmou a vida da avó portuguesa num lar do Luxemburgo
Sociedade 4 min. 22.06.2017 Do nosso arquivo online

Neta filmou a vida da avó portuguesa num lar do Luxemburgo

 As imagens mostram Orquídea Ribeiro num dos lares mais bonitos do Luxemburgo, no planalto de Rham, rodeado de muralhas medievais. Uma “fortaleza” a que os primeiros portugueses começam agora a chegar.

Neta filmou a vida da avó portuguesa num lar do Luxemburgo

As imagens mostram Orquídea Ribeiro num dos lares mais bonitos do Luxemburgo, no planalto de Rham, rodeado de muralhas medievais. Uma “fortaleza” a que os primeiros portugueses começam agora a chegar.
Sociedade 4 min. 22.06.2017 Do nosso arquivo online

Neta filmou a vida da avó portuguesa num lar do Luxemburgo

O documentário “Orquídea” dá a ver uma das etapas mais difíceis na vida de uma imigrante portuguesa no Luxemburgo: a entrada num lar de idosos. Durante um ano, a realizadora Sandy Lorente filmou a avó, Orquídea Ribeiro, de 84 anos. O filme, que passa este domingo na RTL.

Um dia a avó disse-lhe: “Devias fazer um filme sobre mim”. “E como é que lhe chamava?”, perguntou a neta. “Orquídea, a flor mais linda”.

Orquídea Ribeiro tem 84 anos, mas na flor da idade “parecia uma atriz de cinema”, conta a realizadora Sandy Lorente. Antes de imigrar para o Luxemburgo, em 1971, foi modelo num atelier de alta-costura no Porto e fez virar algumas cabeças – como Joaquim, uma paixão que a reformada evoca numa das cenas do documentário. Orquídea casou, emigrou para o Luxemburgo, teve filhos e netos, ficou viúva, tudo sem nunca rever a paixão da juventude. Não sabe sequer o apelido do taxista do Porto que conheceu aos 18 anos, nem se ainda é vivo, mas agora que chegou ao lar de idosos, gostava de o reencontrar. “Ao menos, se ele for vivo, fazemos companhia um ao outro”, diz Orquídea ao filho, numa das cenas do documentário. “Ele nem a reconhece, ainda se assusta!”, responde-lhe este.

A resposta pode parecer cruel, mas não destoa do tema abordado no documentário: o envelhecimento. Orquídea não consegue vestir-se sozinha, tem dificuldades para assinar o contrato com o lar, por causa da artrose, anda em cadeira de rodas, precisa de curativos diários. É a perda da autonomia, da casa paga com anos de trabalho – Orquídea foi cozinheira num lar luxemburguês –, são as contas à vida e as saudades da juventude. “Meu deus, como eu era!”, lamenta a octogenária, enquanto separa objetos e fotos para levar consigo para o lar, com a ajuda da filha.

Mas se trocar a casa por um lar de idosos não é fácil para ninguém, no caso de Orquídea a situação agrava-se. A maioria das atividades do lar da terceira idade são em alemão ou luxemburguês, que a idosa não fala. E o reduzido número de utentes portugueses na instituição limita a interação com outras pessoas, aponta a realizadora. “O problema maior é a comunicação com os outros idosos, que também não estão habituados a ter portugueses”. O documentário mostra Orquídea a jogar dominó com um dos poucos portugueses no lar. A conversa é fácil e divertida. “É claro que ela se entende melhor com uma pessoa da sua idade que também é português”, diz Sandy.

A realizadora Sandy Lorente documentou a adaptação da avó a um lar no Luxemburgo.
A realizadora Sandy Lorente documentou a adaptação da avó a um lar no Luxemburgo.
Foto: Jeff Kieffer

Uma janela para a vida

As dificuldades de integração dos portugueses nos lares luxemburgueses já foi apontada por estudos da Universidade do Luxemburgo. O problema é que os imigrantes continuam a ser uma minoria naquelas instituições. Segundo o Statec, só 4% dos portugueses e 22% dos italianos no país têm mais de 65 anos. Por essa razão, “o contacto com outros utentes não pode ser facilmente estabelecido, apesar de constituir um aspeto importante do bem-estar” dos idosos, sublinham as investigadoras Ute Karl e Anne Carolina Ramos, apontando que as relações sociais protegem de “doenças cardiovasculares, cancro, depressão e demência”.

A realizadora de 38 anos conhece bem o tema da velhice: trabalha numa associação que promove a integração de idosos estrangeiros através de atividades de ocupação dos tempos livres. Mas recusa que o documentário tenha um cariz militante ou seja uma denúncia das dificuldades dos imigrantes. “Um estudo são números. Aqui vê-se a realidade: é uma janela aberta à reflexão, que não reivindica, limita-se a mostrar”.

As imagens mostram Orquídea num dos lares mais bonitos do Luxemburgo, com vista panorâmica para a capital. Fica no planalto de Rham, rodeado por muralhas medievais e pelas casernas projetadas por Vauban em 1684, após o cerco francês que levou à capitulação do Luxemburgo. Uma fortaleza de pedra e vidro a que os primeiros portugueses começam agora a chegar. Sandy Lorente acredita que as instituições luxemburguesas para a terceira idade também vão ter de capitular face aos novos utentes. “Eles vão ter de se adaptar e mudar, porque sabem que estas pessoas vão chegar. Mais tarde ou mais cedo, vão ter de mudar”.

Filha de mãe portuguesa e de pai espanhol, Sandy Lorente foi jornalista na RTL e realizou em 2005 uma curta-metragem premiada em França. O documentário “Orquídea”, com 26 minutos, integra a série da RTL “routwäissgro” (“vermelho, branco e cinza”) – uma alusão às cores da bandeira luxemburguesa e às zonas cinzentas do país.

“Orquídea” passa na RTL no domingo, às 19h, e é exibido no mesmo dia em sessão pública, a partir das 18h, em Dudelange (Pomhouse – 1B, rue du Centenaire). A exibição é precedida do documentário “Vanda”, sobre uma cabeleireira de origem cabo-verdiana.

Paula Telo Alves

O documentário está disponível na internet, no site da RTL.

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