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“Narcos”, novos episódios
Editorial Sociedade 3 min. 09.11.2019

“Narcos”, novos episódios

“Narcos”, novos episódios

Foto:AFP
Editorial Sociedade 3 min. 09.11.2019

“Narcos”, novos episódios

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Estamos a vencer a guerra contra a droga? A resposta chegou há poucos dias: um rotundo não.

"Narcos" ajudou, e de que maneira, a estabelecer a Netflix como empresa-charneira no cruzamento das mais diferentes modernidades culturais. A série romanceava (mas não demasiado) o percurso da figura de Pablo Escobar, desde os seus inícios como ladrão de carros em subúrbios de Medellín até ao topo de um império da droga que fornecia mais de 70% da cocaína consumida em todo o planeta.

A série era sobre a vida de Escobar e devia terminar ao fim de duas temporadas com a morte do foragido traficante às mãos do exército colombiano sobre um qualquer telhado de chapa, como na vida real. Mas a fórmula despertou tanto interesse que estão a ser adicionadas sequelas para contar a história pós-Escobar. A princípio uma terceira parte versando sobre os concorrentes colombianos do cartel de Calí; em seguida uma quarta série de episódios relatando a ascensão do tráfico e da violência em outro país, o México, e a lutas sangrentas dos grandes chefes do submundo na grande economia da América hispânica. Um deles foi Miguel Félix Gallardo, chamado de "chefe dos chefes" por ter liderado o primeiro cartel organizado – no auge do seu poder, gerava cinco mil milhões de dólares anuais, o que parecendo que não, era bastante dinheiro para 1988. Félix Gallardo foi preso no início dos anos 1990 e é nesse momento que um dos seus antigos choferes, um homem tão cruel como implacavelmente ambicioso, começa passo a passo a dominar as rotas internacionais dos vários produtos ilícitos – cocaína, heroína, anfetaminas, marijuana. Os seus apenas 1,68 metros de estatura granjearam-lhe a alcunha de "El Chapo" (o baixote). Mas o seu poder e influência cresceram a tal ponto, ultrapassando aqueles alguma vez detidos por um certo traficante colombiano, que Joaquín "El Chapo" Guzmán conquistou o direito a outra alcunha mais reveladora: "o Último Padrinho".

"El Chapo" teve uma vida de gangster absolutamente rocambolesca. Capturado duas vezes pelo exército mexicano, duas vezes escapou da prisão de alta segurança – na segunda através de um confortável túnel de 2 km e não a pé mas de motocicleta! Estes feitos só foram possíveis depois do suborno de dezenas de guardas e do próprio director da prisão. Só que à terceira captura, feita por soldados das forças especiais que em seguida se tiveram de esconder durante angustiantes minutos à espera de reforços, o traficante já não conseguiu repetir o truque (embora ainda tenha conseguido assassinar o juiz encarregado do seu processo no México). Extraditado para os Estados Unidos, foi considerado culpado por tráfico de droga, associação criminosa, lavagem de dinheiro, sequestros e assassínio, e condenado em Fevereiro deste ano a prisão perpétua mais 30 anos, cumpridos numa cela individual da "Alcatraz das montanhas", sem comunicação com o exterior, e devolvendo 12 mil milhões de dólares ilícitos. Terminada a carreira do último padrinho, a guerra contra a droga estará a ser ganha?

A resposta chegou-nos há poucos dias: um rotundo não. Obviamente, a droga não deixa de chegar à Europa e aos EUA, e os euros e dólares continuam a fazer o percurso inverso. Um dos continuadores da obra de El Chapo, por assim dizer, é o seu filho Ovidio. No dia 17 de Outubro, um comando especial de 35 soldados descobriu o seu paradeiro e invadiu a casa que lhe servia de esconderijo, prendendo o criminoso que, apanhado de surpresa, se rendeu. Imediatamente, toda a cidade (Culiácan, 1 milhão de habitantes) se viu em guerra civil: carros incendiados bloquearam as ruas, carrinhas cheias de verdugos com metralhadoras dispararam indiscriminadamente contra civis (8 mortos), apareceram lança-chamas e lança-granadas. Foi o caos. Em seguida, os traficantes foram a casa das famílias dos soldados e sequestraram as suas famílias. Nesse momento, o Estado claudicou.

O prisioneiro foi libertado, o presidente criticou a operação do exército, o Estado reafirmou a sua política de não-confrontação dos traficantes traduzida no slogan "abraços em vez de balázios". No México, há nos últimos anos uma média de 100 homicídios cada dia. As temporadas futuras de "Narcos", essas estão garantidas, e sem qualquer perda de interesse.

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