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Na enfermaria
Opinião Sociedade 4 min. 05.11.2020

Na enfermaria

Na enfermaria

Foto: dpa Picture-Alliance/AFP
Opinião Sociedade 4 min. 05.11.2020

Na enfermaria

Filipa MARTINS
Filipa MARTINS
Há uma mulher aqui na enfermaria que não recebe visitas, fala ao telemóvel do estrangeiro e à noite chora. Uma crónica da escritora Filipa Martins.

Varadero. Riviera Maya. Ilha da Boavista. Pouco se importa com o preço das chamadas, embalada numa ladainha de palavras. Prudente, não promete lembranças. Um sombrero mexicano, talvez, se a excursão parar numa área de serviço; uma medalhinha da Virgem da Gualupe, talvez, se o metal disfarçar o preço rasteiro e não ficar preto depois de dois mergulhos na salmoura. Talvez, mas os guias são muito trafulhas e sem darmos por ela estamos a pagar um ordenado só em comissões. Por essa hora, a enfermeira dos refegos traz a máquina de medir a tensão, os carros já se encavalitam na ponte e adivinho-lhes, da janela, a vontade de roçarem as costas na areia da Caparica. Assegura:

(No México, o calor ė mais húmido. Tem a ver com a proximidade do Equador. Um problema para respirar, é preciso ter pulmões, menina, mas uma pessoa habitua-se.)

Às vezes, toco-lhe no braço, entre voos, numa escala no aeroporto de Barajas, para lhe pedir as senhas das visitas que ela não usa. Uns primos da Póvoa vieram a Lisboa à loja do cidadão, sabe como ė, e aproveitam a viagem para duas palavras e um como estás? no hospital Egas Moniz. As senhas são poucas, duas por cama, das quatro às sete, entre as horas de despejar as arrastadeiras e de virar os doentes, só o tempo que se está à espera do elevador...

(Compreende? Assim, os moços despachavam-se, duas palavras, um como estás?, talvez me tragam revistas leves para os olhos, nem precisam de ser desta semana, é só para entreter, e escusam de fazer o caminho de volta para a Póvoa de noite, pela nacional com curvas e sem portagens.) 

Ela atalha a conversa ao telemóvel com o enfado de quem enfrenta um empregado de mesa menos capaz e trava-me as explicações com um inglês preparado que me deixa em espera.

(just a minute)

A mão cheia de ouro. Será verdadeiro? A mão ordena-me que volte à janela, à fila de carros, ao calor da Caparica, menos húmido, porque os meus pulmões já não mudam de hábitos. Perdoou-lhe a impaciência, por certo atrasada para o embarque, o nome a ecoar no aeroporto dito em voz metálica. Não o nome de batismo. O outro. As enfermeiras devidamente avisadas.

(Dona Maria Albertina, está na hora de lhe medir a tensão)

(Tininha, por favor)

Antes das análises da manhã, um salpico de urina para dentro do frasco de plástico, com a idade fazemos em goteira, a língua de fora, o médico que não passa há dois dias, montou gabinete nas avenidas novas, vizinho do quiosque de um sobrinho meu, o pequeno-almoço ao telemóvel. Abacate, anonas, papaia e manga, goiabada com gorgonzola. Sumo acabado de espremer. A mesa posta sobre o mar, na varanda.

(A fazer pouco dos que comem inclinados sobre o tabuleiro.)

No carro de rodas, o leite aguado e pálido, parco em café, a carcaça de todos dias. Manteiga sem sal empurrada a braços no corredor. Para quem não mastiga, papas. Para quem não come, soro. A televisão olha-me: prometem dinheiro, um carro, cruzeiros que partem para os sítios de onde ela fala.

(Um dia concorro. Completo as palavras do ecrã com umas letras que se metem pelos olhos dentro. Sem ressentimentos por causa das senhas, ainda a encontro numa estação de serviço a regatear um sombrero.)

No intervalo, compra-se ouro. O homem de dentes plásticos oferece os portes do correio.

(Converta o seu ouro em dinheiro. Se não ficar satisfeito devolvemos tudo)

Ela aterra. Interrompe a chamada. Liberta-se do cinto de segurança que lhe pressiona o estômago. Procura com as orbitas uma hospedeira disponível. Sacode o lençol que lhe cobre os joanetes. A enfermeira aproxima-se, endireita-lhe a almofada. Sossega-lhe as orbitas. O soro pinga no tubo transparente. Na televisão, o homem de dentes plásticos dita-lhe o número de telefone, chamada de valor acrescentado. A voz do piloto que conforta: 27 graus, 35% de humidade. Às vezes, toco-lhe no braço, entre voos, numa escala no aeroporto de Barajas, para lhe pedir as senhas das visitas que ela não usa.

(just a minute)

Hoje, a mão vazia de ouro. Esquecido, na certa, nos lavabos de um aeroporto internacional.

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