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Não sou “submissa ou menos inteligente” por usar véu

Não sou “submissa ou menos inteligente” por usar véu

Não sou “submissa ou menos inteligente” por usar véu

Não sou “submissa ou menos inteligente” por usar véu


por Sibila LIND/ 16.01.2020

Foto: Sibila Lind

Derya Aydogan nasceu em Bruxelas, filha de imigrantes turcos. Com 17 anos, decidiu usar o véu islâmico, uma escolha pessoal que se tornou um fardo. Na escola, era obrigada a retirar o véu. Numa entrevista de trabalho, foi desaconselhada a não o usar para não incomodar os outros. Ficou anos sem trabalhar para poder manter a sua identidade e a sua fé. Em 2014, Derya veio para o Luxemburgo e acabou por se adaptar às limitações da sociedade ocidental. Em outubro do ano passado, juntou-se à associação feminista “Lëtz Rise Up”, para lutar pelas pessoas que são vítimas de discriminação, seja racial, sexual ou religiosa.

No dia 11 de setembro de 2001, Derya estava na sala da sua casa em Bruxelas a tentar adormecer o filho de três meses, deitado sobre os seus joelhos. Nesse momento, olhou para a televisão. No ecrã, viu as imagens de dois aviões a colidir contra as torres gémeas, nos Estados unidos. Era o atentado que chocou o mundo. Derya começou a ligar para os familiares. As imagens eram demasiado abomináveis para as observar sozinha. Quando soube que os responsáveis pelo ataque terrorista eram muçulmanos, desabou.

“Foi muito duro… Tentamos viver a nossa identidade, a nossa fé, como podemos, num contexto europeu onde alguns já nasceram, ao mesmo tempo que procuramos encontrar o nosso lugar nesta sociedade, que é um desafio diário. E depois acontece este episódio extremamente violento, onde as pessoas que estão por trás do atentado são muçulmanas”, desabafa a belga de 43 anos. “A primeira reação humana que temos é sentirmo-nos mal. E dizer para nós próprios: ‘Merda! E agora o que é que nos espera? O que é que nos vai acontecer?’ Acabamos por nos sentir culpados por algo que não fizemos”.

Desde esse dia, os ataques terroristas foram se acentuando por toda a Europa, sobretudo em França e na Bélgica. O Islão radical começou a ser confundido com os muçulmanos, que se tornaram objeto de preconceito e vítimas de intolerância. Em 2018, uma jovem muçulmana de 19 anos foi agredida no meio da rua de Bruxelas. Arrancaram-lhe o véu, o soutien e fizeram cortes no seu corpo. Um ano depois, na mesma cidade, um homem tentou atropelar duas mulheres de véu, depois de as insultar. E como estes casos há muitos, diz Derya, que apesar de nunca ter sido agredida, sempre teve receio que o mesmo lhe acontecesse.

Pôr o véu, tirar o véu: “Sou eu, não sou eu”

Derya cresceu no meio de duas culturas, num bairro em Bruxelas com uma grande comunidade turca, onde o contacto com os belgas era feito na escola. Os pais tinham chegado ao país nos anos 1960, para fugir a um meio rural e pobre. Estavam mais preocupados em ganhar dinheiro do que conhecer o país.

“Era frustrante levar o meu pai à reunião dos encarregados de educação e ele não perceber nada, porque não falava a língua. Acho que é uma frustração comum entre os filhos da segunda geração, que são os filhos dos imigrantes que não se integravam na sociedade. Que tinham vindo para o país para trabalhar e ganhar dinheiro”, conta Derya. “De um lado, a escola não compreendia por que é que eu não tinha a autorização para fazer uma viagem pedagógica a tempo, do outro, os meus pais não compreendiam por que é que a escola cobrava dinheiro para fazer essas viagens. E eu estava no meio dessa incompreensão, sem conseguir arranjar uma explicação para ambas as partes”.

Obrigar uma mulher a retirar o véu na Europa é tão agressivo como obrigar uma mulher a usar um véu no Médio Oriente.

Uma vez, em casa, Derya começou a desenhar o São Nicolau, com o chapéu bicudo vermelho e uma cruz. Foi uma traição para o pai. “O que é que estás a fazer?”, perguntou-lhe. “Estás a desenhar a cruz cristã. Não pode ser”. Derya não percebia o que tinha feito de errado. Na escola, todas as crianças desenhavam o São Nicolau. “Os meus pais tinham medo de se tornarem belgas, queriam manter a sua identidade”.

Apesar desse receio, eles nunca lhe impuseram que usasse o véu islâmico. Foi por “vontade própria, por “convicção”, que Derya decidiu cobrir a cabeça. Tinha 17 anos. “O meu pai perguntou-me: ‘Porque é que vais usar o véu? Qual é o teu problema?’ A verdade é que quando punha o véu sentia-me mais perto de Deus. E eu estava a precisar dessa espiritualidade. E sentia-me bem assim”.

O dia em que começou a usar o véu, foi o dia em que percebeu que o seu caminho não ia ser fácil. “E ainda hoje continua a não ser”. No liceu, era obrigada a retirar o véu na sala de aula. “Foi muito agressivo. Era como se dissessem que a minha identidade, a minha religião, era menos do que as outras”. Chegava à entrada da escola com o véu, retirava. Saía, voltava a colocar. “Meter, tirar, meter, tirar. É violento. E traumatizante. Sou eu, não sou eu, sou eu, não sou eu. Às vezes chovia, estava vento, não conseguia pôr o véu, as pessoas olhavam de lado. É humilhante”, diz. “Começamos a crescer com uma ferida interna, porque começamos a acreditar que a nossa religião, a nossa origem, tem menos valor”.

Começamos a crescer com uma ferida interna, porque começamos a acreditar que a nossa religião, a nossa origem, tem menos valor.

Derya arrepende-se de, naquela altura, não ter ido à viagem de estudantes por causa do véu. “Auto-censurei-me”, confessa. Tinha receio que a sua imagem pudesse incomodar os outros alunos e o professor que, por ser uma viagem no âmbito escolar, poderia lhe pedir para retirar o véu. E já bastava fazer isso na escola. Porque todas as vezes que retirava o véu, Derya sentia que estava a trair a sua fé. E não o iria fazer por um “prazer fútil”.

“É agressivo dizer a uma mulher para retirar o véu porque os outros não gostam, porque não é aceite pela sociedade, porque pensamos que é algo que oprime a mulher. Não quer dizer que não há lugares no mundo onde isso aconteça, onde há homens que obrigam as mulheres a usar o véu e as proíbem de ir trabalhar, de conduzir, e por aí fora. Estes problemas existem no mundo muçulmano, mas não se pode assumir que uma mulher muçulmana que usa o véu por vontade própria, na Europa ou nos Estados Unidos, é submissa ou menos inteligente do que as outras”, aponta Derya. “Obrigar uma mulher a retirar o véu na Europa é tão agressivo como obrigar uma mulher a usar um véu no Médio Oriente”.

Foto: Sibila Lind

Trabalhar com véu “não é bom”

Derya queria tirar um curso de três anos numa escola profissional, para se tornar professora o mais rápido possível. Mas mais uma vez o véu foi uma barreira. “Não diziam que não aceitavam mulheres com véu, mas escreviam no regulamento: ‘Nenhum símbolo convencional no espaço do estabelecimento’. E claro que isso se dirige aos muçulmanos, em que a manifestação física da religião é mais visível”. Por causa do véu, Derya não foi para a escola profissional que queria. Foi antes para a universidade estudar línguas e literatura. “Não tive problemas com ninguém, tirando um ou dois professores que me tratavam de forma diferente”, conta. Até terminar o curso, foi a única aluna de véu na turma.

A procura de trabalho não foi fácil. Com 26 anos, foi chamada para a sua primeira entrevista de emprego para uma empresa do sector energético. Depois de falar sobre o seu percurso académico e das suas competências, perguntaram-lhe: “Vai trabalhar com o véu?” “Sim”, respondeu Derya. “Pelo que percebi a regulamentação da empresa não faz qualquer referência ao uso do véu”. “Sim, não temos nada a proibir, mas sabe que se usar o véu no trabalho poderá ter dificuldades com os colegas e não é bom para si”. “Mas se na universidade correu tudo bem com os meus colegas, por que é que aqui não pode correr?”

Derya percebeu que não ia ser contratada. Os seus argumentos tinham gerado uma postura agressiva do outro lado. Saiu da sala, sem esperar pela chamada que nunca chegou. Depois desse dia, teve medo de voltar a fazer entrevistas de emprego. “Não queria voltar a viver situações em que tivesse de me explicar ou que me fizessem sentir mal na minha pele. E, durante anos, não procurei trabalho”.

Da dupla ausência à dupla presença

Em 2014, Derya mudou-se para o Luxemburgo com a família. Arranjou trabalho como professora de inglês e espanhol em Arlon. Na escola, não pode usar o véu. Mas já se conformou. “Parei de querer confrontar o sistema que me oprime para poder trabalhar”, diz. Quando não consegue fazer as orações nas horas certas, acaba por fazê-las mais tarde. Usa o véu sempre que pode. Foi essa a forma que encontrou de viver a sua fé numa sociedade ocidental. “Agora, posso dizer que uso o véu mais por reivindicação da minha identidade do que por convicção espiritual ou religiosa. Quando o tiro já não sinto a culpa que sentia antes”, confessa. “Uma amiga que trabalha no Luxemburgo também me disse: ‘Quer uses o véu ou não, as pessoas vão sempre saber que és muçulmana’”.

Quer uses o véu ou não, as pessoas vão sempre saber que és muçulmana.

Com ou sem véu, Derya sabe que devido à sua origem está mais suscetível a atitudes de discriminação, que não estão exclusivamente relacionadas com a agressão física ou verbal. “Às vezes, é até uma questão de perceção”, diz. “Uma amiga muçulmana contou-me que não conseguia arranjar um trabalho no Luxemburgo onde pudesse usar o véu. E, apesar disso, diz que nunca foi vítima de discriminação aqui”, aponta Derya. “A discriminação muitas vezes é estrutural, já está inserida no sistema”, conclui.

Para além de dar aulas, Derya trabalha como intérprete para a Cruz Vermelha. É assim que vai conhecendo o Luxemburgo, um país do qual até agora não tem motivo de queixa. Mas no qual se habituou - como já se tinha habituado na Bélgica - a ser olhada como alguém diferente. “Estive sempre entre duas coisas. Existe a dupla ausência e a dupla presença. Durante muito tempo optei pela dupla ausência, não era belga nem turca. Na Turquia não era considerada turca porque não tinha nascido nem crescido lá. Na Bélgica, como tinha pais imigrantes e origem turca, não era belga”, conta. “Durante muito tempo vivi assim, na dupla ausência. Agora acabou. Prefiro optar pela dupla presença. Porque faço parte de um país e faço parte de outro. E os dois fazem parte de mim”.