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Não se nasce racista, torna-se racista
Editorial Sociedade 2 min. 15.01.2020

Não se nasce racista, torna-se racista

Não se nasce racista, torna-se racista

Alex Gozblau
Editorial Sociedade 2 min. 15.01.2020

Não se nasce racista, torna-se racista

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
O infeliz caso do assassinato do jovem cabo-verdiano Giovani, em Bragança, do qual não se sabe ainda quem o matou e a totalidade das motivações dos criminosos, levantou uma onda de protesto em várias cidades de Portugal, Cabo Verde e da Europa.

Depois da Revolução Russa contava-se uma anedota em que o embaixador russo bolchevique reunia com o embaixador britânico, e que este lhe comentava que, ao contrário do russo que era originário da nobreza, ele, o embaixador de sua majestade, era oriundo de uma família modesta da classe operária. Ao que o russo lhe teria retorquido com um sorriso: “é verdade, ambos traímos a nossa classe”.

Nem sempre o lugar da fala define a posição política e as opções de alguém. O que permite dizer que não basta ser mulher para ser feminista, nem é obrigatório que todo o branco tenha que ser racista. Existem infelizmente portugueses que são racistas, mas a afirmação que todos os portugueses brancos são racistas, é tão racista como o racismo que garante querer combater. É uma espécie de efeito espelho que alimenta e dificulta a constituição de uma maioria social para combater a discriminação racial.

Aquilo que define o racismo numa sociedade, mais do que o preconceito de alguns imbecis, são as desigualdades estruturais no acesso ao trabalho, à justiça, à totalidade dos direitos políticos e, por exemplo, a um tratamento sério na comunicação social.

A perda de vergonha dos racistas, no ecossistema das redes sociais, e a multiplicação de opiniões fascizantes, contribui para dar maior força à manutenção e agravamento de políticas xenófobas e torna-se também uma força social.

Para confirmar que existe racismo em Portugal, basta ler as mensagens nas caixas de comentários daqueles que negam ser racistas. Em que o discurso do ódio e frases do tipo “os pretos voltem para casa” são usadas a esmo. Garantindo sempre os que a usam que não são racistas.

A vivência é um dos critérios do conhecimento do real, e alguém que tem uma situação social desfavorecida e oprimida tem todo o direito a lutar para mudar a sua vida e transformar o mundo, mas isso não faz de qualquer oprimido um detentor automático dos segredos do real.

O infeliz caso do assassinato do jovem cabo-verdiano Giovani, em Bragança, do qual não se sabe ainda quem o matou e as motivações dos criminosos, levantou uma onda de protesto em várias cidades de Portugal, Cabo Verde e da Europa. Se ainda não é sabido se o crime tem motivações racistas, é óbvio que a reação de muitos milhares de pessoas que foram para as ruas destas cidades fica a dever-se ao facto de viverem numa situação de injustiça e de discriminação racial. De se defrontarem com uma justiça que tem velocidades diferentes, conforme a vítima é branca ou é negra.

A tomada de consciência dessas injustiças e a mobilização das vítimas desses preconceitos, injustiças e desigualdades é fundamental para a superação desta situação. Mas isso só será possível com a criação de uma maioria social que apoie essa mudança.

O trabalho jornalístico sério que é dado por reportagens sobre o caso, como as que o Contacto deu em primeira mão, é muito importante para acabar com situações inqualificáveis.

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