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Não olhem para trás
Opinião Sociedade 3 min. 25.01.2022
Humanidade

Não olhem para trás

Humanidade

Não olhem para trás

Foto: DR
Opinião Sociedade 3 min. 25.01.2022
Humanidade

Não olhem para trás

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Olhemos em frente, para os dias – que talvez se avizinhem – em que vamos poder recuperar as nossas vidas.

"Não olhem para cima" é o filme-catástrofe que Leonardo di Caprio + um conjunto de estrelas de Hollywood mais progressistas fizeram com dinheiro da Netflix. A ideia é exagerar (e nem é preciso exagerar muito...) a insanidade colectiva dos nossos tempos para melhor castigar a atitude desinteressada, céptica, infantilizada, da Humanidade perante um apocalíptico cometa (e quem diz um cometa diz uma catástrofe climática ou um vírus mortífero e global).

A ideia aqui não é fazer uma crítica de cinema (essa está aqui, escrita pelo Raúl) mas dizer que este produto, oscilando entre o drama e a comédia, cai ele próprio na armadilha que tenta satirizar. Para ser visto e ganhar popularidade e prémios, simplifica a história e estereotipa os personagens (estes ou são muito inteligentes e idealistas, ou são estúpidos e arrogantes; nunca há meio termo). Imagino que os produtores se tenham deparado com um dilema: fazer um filme sério, argumentativo, complexo, que procure furar a superficialidade e capturar o espírito do nosso tempo... e correr o risco de terminar com um documentário nas mãos, dirigido à minoria que já está convencida? Ou filmar algo vistoso, com uma história linear que seja compreendida até por uma criança de 11 anos, divertindo-se de forma muito pouco subtil com a América trumpiana, e que bata tantas vezes na tecla da (única) mensagem a passar que... esta acabe mesmo por passar?

O caminho escolhido é evidente, mas isso até não é necessariamente mau: essa tal mensagem repetida à exaustão (a de que vivemos numa sociedade tão confusa que nem sequer conseguimos já concordar com evidências que julgávamos indisputáveis) é... realmente importante (ia escrever "verdadeira", mas afinal o que é a verdade? Algo que passou a depender da fé e da confiança, ou da falta delas: uma pós-verdade).

Olhemos em frente, para os dias – que talvez se avizinhem – em que vamos poder prever e gerir a prevalência do vírus, aprendendo a coexistir com ele mas recuperando entretanto as nossas vidas, e sarando as feridas abertas em sociedades desentendidas.

Temos aí o vírus para no-lo recordar, porque nem conseguimos concordar se realmente existe uma pandemia, muito menos se vale a pena lutar contra ela; nem se as vacinas são a nossa melhor arma ou uma sinistra conspiração de George Soros e Bill Gates. Esses choques "ideológicos", à falta de melhor palavra, traduzem-se diariamente em confrontos verbais e físicos entre populações exaustas e as elites que as desgovernam. Esse desgoverno é bem visível nesta encruzilhada a que chegamos na pandemia: alguns países, mesmo batendo recordes de hospitalizações, aceitam que a variante ómicron não pode ser contida e vão deixando cair restrições; outros, pelo contrário, apertam ainda mais as medidas anti-pandemia, considerando até tornar a vacinação obrigatória. Nenhuma das opções é apetecível, levando um terceiro grupo de países a manter as restrições actuais (o que implica algumas medidas de fechada, ineficazes e arbitrárias, como o uso de máscara ao ar livre ou testes obrigatórios para viajar) e esperar para ver como evolui a situação.

Essa evolução pode conter boas notícias, desde logo pelo próprio comportamento do vírus, que está interessado em ser o mais contagioso possível, mas também, logicamente, em ser menos agressivo de forma a não perder o seu hospedeiro. Olhemos em frente, para os dias – que talvez se avizinhem – em que vamos poder prever e gerir a prevalência do vírus, aprendendo a coexistir com ele mas recuperando entretanto as nossas vidas, e sarando as feridas abertas em sociedades desentendidas. Sim, vejam "Não olhem para cima", é um bom produto de entretenimento. Mas sobretudo: não olhem para trás.

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