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Não, ninguém vai censurar o Eça
Opinião Sociedade 5 min. 10.03.2021

Não, ninguém vai censurar o Eça

Não, ninguém vai censurar o Eça

Foto: Wikipedia/Domínio público
Opinião Sociedade 5 min. 10.03.2021

Não, ninguém vai censurar o Eça

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
Se na escola já não pudermos ler uma obra canónica, questioná-la, debatê-la e perguntar: porque foi escrita assim? –, então temos um problema de liberdade.

As guerras contra os "inimigos" dos conservadores – as feministas, os anti-racistas, os gays, os activistas políticos – sempre se travaram nos media ou nas universidades. Mas, recentemente, as redes sociais tornaram-se terreno fértil para quem tem desprezo pelo debate e participa em autos-de-fé decretados até por quem se diz defensor da liberdade.

Isto a propósito da "polémica" sobre "Os Maias" de Eça de Queirós: opiniões baseadas em títulos de notícias viralizadas, precisamente, devido a títulos bombásticos, fruto de quem não leu a notícia toda. Neste caso sobre Eça, a "notícia" só o foi porque primeiro surgiu a "análise".

Em meados de Fevereiro, a investigadora Vanusa Vera-Cruz Lima, doutoranda em Estudos e Teoria Luso-Afro-Brasileiros, na Universidade de Massachusetts Dartmouth, EUA, apresentou uma palestra com o título: "Serão Os Maias de Eça de Queirós (1888) um romance racista?"

Os leitores estarão certamente familiarizados com a forma como académicos especulam nos estudos literários: o título da palestra é uma pergunta e uma pergunta é, em si, uma especulação. Para se desenvolver qualquer tese, o objetivo é fazer perguntas: até que ponto há linguagem racista n’"Os Maias"? Pode dizer-se que é um romance racista? Se o contexto da elite burguesa lisboeta do final do século XIX era a de um país imperial, que tinha enriquecido à custa da escravatura e do ouro do Brasil, faz sentido analisar a obra e a sua linguagem nesse contexto? 

Capa da primeira edição da obra publicada em 1888.
Capa da primeira edição da obra publicada em 1888.
Foto: Wikipedia/Domínio público

João da Ega tece comentários escarninhos sobre escravos; Maria Monforte, mãe de Carlos da Maia e Maria Eduarda, era filha de um negreiro. Se o leitor, que leu "Os Maias" (muitos, obrigatoriamente, na escola), não acha nenhuma destas perguntas legítimas, pode interromper a crónica neste momento e passar à secção de desporto, onde parece haver inúmeros consensos sobre se treinadores precisam de licenciaturas para pôr 11 tipos atrás da bola.

A palestra, aberta ao público, era uma comunicação num modelo típico das universidades em que investigadores apresentam o seu trabalho, neste caso em curso, aos seus pares, professores, ao público, para fomentar a discussão. Isto acontece diariamente na universidade. Agora via Zoom ao vivo para todo o mundo.

Dias depois, Carlos Maria Bobone assinava no Observador um texto de análise (não ouviu a investigadora) que partia da pergunta da palestra dando-lhe já o tom da inevitabilidade: "A pergunta prometia deixar ferida", dizia. "Denunciar Camões ou João de Barros seria coisa tolerada por um país que já não puxa o fôlego para encher o peito de orgulho; agora Eça"? E depois: "se deixa de haver Eça (...) o que é que nos resta?" Estava feito o escândalo. Uma investigadora dos EUA "denunciou" o Eça e agora vai deixar de haver Eça. Já não podemos "encher o peito de orgulho". O que nos resta? Agora já não se pode dizer nada. É tudo racismo. Quem é que estes americanos pensam que são para falarem assim do nosso Eça?

Segue-se chorrilho de ódio nas caixas de comentários. Daí saltou para outros media, mas já com o título bombástico: "'Os Maias' contêm linguagem racista, diz palestrante nos EUA". E nunca mais parou de viralizar: o que nos resta? A Capitu traiu o Bentinho? A Amélia é que seduziu o Padre Amaro? Blimunda vê a alma das pessoas em jejum porque é mesmo bruxa? Sinais de Fogo tem cenas homoeróticas? Sá-Carneiro escreveu sobre orgias?

Parangonas de telenovela: porque é assim que, nas redes sociais, se discute literatura. Isto nem seria grave se fossem dez grunhos no Twitter. Grave é o ex-ministro da Cultura, seus acólitos leitores e editores, lamentar no Facebook perante foto d’"Os Maias": "Hoje já não se pode escrever assim". Novo chorrilho de ódio: a investigadora é literal, é a barbárie, vão censurar o Eça. Outro ex-Secretário de Estado também discorria no Twitter que "não vale a pena explicar nem a ironia de Eça nem a sua obra", criticando a "aluna de doutoramento numa universidade cheia de maluquinhos".

Mas alguém leu ou ouviu a apresentação? Desde quando "analisar uma obra" é "denunciar" ou "censurar" o autor? A Lusa foi a única a contactar a investigadora. Recorreu ao contraditório com declarações da Associação de Professores de Português que até corroborou a opinião: há passagens racistas, típicas do século XIX; podem ser enquadradas nesse contexto. Foi o que concluiu a investigadora: aconselhar uma nota pedagógica (para alunos), dizendo que as passagens raciais criam "oportunidades de ensino e instrução culturalmente responsáveis". Isto é: incutir a discussão na aula, entre alunos, sobre a forma como Eça se debruça sobre classe, cultura, religião e também sobre racismo.

O auto-de-fé: de um lado, a intelectualidade bem-pensante, agarrada ao seu cânone intocável, cristalizado em tomos forrados a seda e letras douradas gravadas à mão, provavelmente com primeiras edições assinadas pelo próprio Eça, que era amigo de um amigo da família, chique a valer. Literati na torre de Babel, desprezando alunos de secundário (pobres coitados, nem ler sabem) e, sobretudo, investigadoras lá na América. O que nos resta?

Do outro, o leitor comum, agarrado ao Eça como última bóia de um Portugal lentamente definhando. Porque já censuraram o Padre António Vieira. E o Camões. Pouco resta ao leitor já sem força para "encher o peito de orgulho". Destruíram-nos os mitos, os heróis, os nomes da história que reconhecemos desde sempre porque, um dia, lemos na escola os apontamentos Europa-América quando nos preparámos para aquele exame sobre "Os Maias" .

(Autora escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico. Eça reagiria sarcástico, porque hoje se escreve Queirós e não Queiroz.)


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