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"Não existe tratamento para as sequelas da covid-19 neste momento"
Sociedade 8 min. 14.10.2020

"Não existe tratamento para as sequelas da covid-19 neste momento"

"Não existe tratamento para as sequelas da covid-19 neste momento"

Sociedade 8 min. 14.10.2020

"Não existe tratamento para as sequelas da covid-19 neste momento"

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
A infeção do novo coronavírus deixa marcas que podem ser muito graves e definitivas. Vitor Tedim Cruz, investigador que lidera um estudo sobre os efeitos da doença explica nesta entrevista quais as sequelas mais frequentes e revela as muitas incógnitas futuras sobre este vírus recente, mas tão maligno.

 A perda de olfato ou sabor, fadiga crónica ou insónia são algumas das queixas frequentes entre quem já esteve infetado com o Sars-CoV-2 e recuperou, como realça em entrevista ao Contacto Vitor Tedim Cruz, diretor do Serviço de Neurologia do Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, e investigador do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP). As sequelas neurológicas e cognitivas mais graves surgem nos doentes que estiveram nos cuidados intensivos e é sobre elas que este investigador da Unidade de Investigação epidemiológica do ISPUP está a coordenar um estudo importante no norte de Portugal. Os primeiros resultados devem surgir até ao final do ano.

Muitas pessoas infetadas e recuperadas estão a queixar-se de sequelas da covid-19. Quais as mais comuns até agora detetadas?

Penso que neste momento só podemos falar de sequelas a curto prazo e sobretudo nas formas mais graves da doença, aquelas que necessitam de cuidados intensivos. As formas mais severas correspondem a uma doença pulmonar particularmente grave, que provoca a disfunção de múltiplos órgãos, incluindo o coração o rim e o sistema nervoso central e periférico. Como é comum nos doentes que passam pelos cuidados intensivos por doenças especialmente graves, após esse período, apresentam disfunção neurológica, cardíaca, renal, entre outras, que demoram cerca de um ano a recuperar e nem sempre recuperam na totalidade.

Também há efeitos neurológicos que persistem.

As sequelas neurológicas mais graves e pelas quais têm procurado diretamente o serviço de Neurologia correspondem a alterações cognitivas por encefalopatia ou encefalite, atrofia muscular e neuropatia, astenia/fadiga crónica e alterações do ritmo sono vigília, com insónia persistente. Não sabemos ainda se resultam de um efeito específico do vírus ou se da gravidade da doença.

E as frequentes menos graves como perda de paladar e olfato?

Sim, também nos procuram pela perda de paladar (ageusia) e perda de olfato (hiposmia) e preocupa-nos saber se os doentes recuperam ou não, pois classicamente a probabilidade de recuperação é baixa, por um lado. E por outro, sabemos que quando ocorrem de forma esporádica se associam a doenças neurodegenerativas. Geralmente significa que o vírus penetrou no sistema nervoso central e são um sintoma comum a algumas destas doenças neurodegenerativas como a doença de Parkinson, por exemplo. Classicamente as principais causas neurológicas de hiposmia ou ageusia recuperam muito pouco depois de estabelecidas. Não sabemos se as relacionadas com este vírus se comportam do mesmo modo.

Existe tratamento médico para as sequelas da covid-19?

Neste momento não existe tratamento específico. Existem medidas gerais, que passam pela reabilitação motora e cognitiva, quando existem défices e pelo tratamento de disfunções múltiplas que agravam os sintomas neurológicos. Aqui falo por exemplo do tratamento da insuficiência respiratória, cardíaca e renal. Os doentes com alterações cognitivas após estes quadros são habitualmente complexos e os défices resultam da combinação de dois ou três fatores relevantes, incluindo a infeção pelo vírus.

Já se sabe qual a razão para que certos doentes mantêm os sintomas da covid-19 mesmo depois de recuperados?

Neste momento estamos muito em cima do acontecimento e os sobreviventes à infeção têm um elevado grau de alerta para a identificação e notificação de todos os sintomas na fase aguda e sua persistência, mesmo que ligeira. Para sabermos se são diferentes dos de outra infeção teremos de comparar com o que acontece a outros doentes com doença aguda de semelhante gravidade.


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Esta é uma percentagem possível?

Poderá estar sobrevalorizada pelo grau de alerta. Como acontece em outras infeções, existem doentes que persistem com sintomas crónicos, tanto pela ação direta dos agentes infeciosos ao nível dos órgãos alvo, como pela resposta imunológica necessária para combater a doença e que em alguns doentes pode ser exagerada ou prolongada. Já percebemos no caso da infeção por SARS-COV-2, por exemplo, que os doentes obesos têm uma resposta inflamatória que pode ser mais prolongada e ela própria constituir um problema e contribuir para os sintomas da doença.

As sequelas são distintas de acordo com a idade dos doentes?

Parece que sim. A capacidade de provocar problemas para lá das vias aéreas parece ser maior à medida que a idade avança. As crianças não parecem apresentar quadros muito graves.

Está a coordenar uma investigação portuguesa que visa estudar os efeitos neurológicos e cerebrais que a covid-19 pode deixar nos pacientes.

Esta investigação está na verdade a começar. Tem existido um enorme interesse demonstrado pelos sobreviventes. Fazem-nos muitas perguntas. Propomos a todos os sobreviventes que passem a realizar um teste cognitivo (Brain on Track), através do seu computador pessoal, a cada três meses, de modo a podermos definir trajetórias individualizadas de desempenho cognitivo a longo prazo. Começamos em março de 2020, quando surgiu o primeiro doente em Portugal e continuaremos a incluir novos doentes até ao final de 2020. Vamos fazer avaliações periódicas e prevemos prosseguir o estudo durante 240 meses.

As doenças neurodegenerativas aparecem lentamente.

São doenças de instalação lenta e progressiva e para confirmarmos ou excluirmos um efeito de antecipação atribuível à infeção por SARS-CoV-2 é necessário acompanhar os sobreviventes muito tempo e em simultâneo acompanhar indivíduos saudáveis, que nunca tenham sofrido a infeção. Se o efeito for grave poderemos identificar diferenças mais cedo, ou em algum tipo específico de doentes ou especial gravidade da infeção. A ver vamos o que acontece.

Que efeitos da infeção estão a investigar?

Procuramos responder à pergunta: existem ou não existem alterações do funcionamento cognitivo após infeção por SARS-CoV-2. São de instalação aguda ou diferida? Específicas do vírus ou só relacionadas com a gravidade da doença? Podem somar-se a doenças neurodegenerativas em curso como a doença de Parkinson ou Alzheimer, entre os 50 e 70 anos? Podem antecipar o seu diagnóstico ou visibilidade do ponto de vista clínico?

Como funciona o ’Brain on Track’ ?

O Brain on Track é um instrumento que tem vindo a ser desenvolvido desde 2012 pela Neuroinova e tem sido utilizado em vários projetos de investigação em curso no ISPUP. É um teste computorizado autoadministrado on-line, desenhado para utilização remota e para monitorizar o desempenho cognitivo de populações em risco de desenvolver defeitos cognitivos. O nosso estudo está focado nas alterações cognitivas e de seguir os doentes a longo prazo e de forma muito apertada. Se não dispuséssemos de uma ferramente como o ‘Brain on Track’, este estudo seria muito difícil de realizar nos tempos que correm. Quer porque os testes cognitivos clássicos são de realização presencial, quer porque a sua realização periódica a longo prazo comportaria custos muito elevados. Penso que estes dois fatores foram cruciais para a obtenção de financiamento junto da Fundação Gulbenkian. Existem algumas publicações científicas em revistas muito relevantes e uma patente.


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Para quando os primeiros resultados desta investigação?

Posso dizer que o número de sobreviventes que aceita participar no estudo e realizar as avaliações cognitivas on-line é muito elevado. Cerca de dois terços da população elegível. Até ao final do ano deveremos ter resultados sobre o impacto inicial da doença e diferentes gravidades da doença. Ao final do primeiro ano de monitorização poderemos ter uma primeira ideia da trajetória de cada indivíduo. Além deste estudo também participamos noutro, no centro Hospitalar do Porto, que procura identificar todos os quadros neurológicos associados à infeção por SARS-COV-2.

As sequelas podem revelar-se mais graves do que a própria infeção?

Acho que isso acontece quase sempre. A infeção acaba por ser controlada e o vírus eliminado ou reduzida a sua presença, como em todas as infeções. O problema são precisamente as sequelas, provocadas pela ação direta do vírus nos tecidos do ser humano, pois podem ocorrer danos irreparáveis em tecidos nobres como cérebro o pulmão ou coração. Mas também pela ação dos fármacos utilizados para tratar (efeitos adversos) ou pela resposta imunológica, que pode perdurar de forma menos controlada.

Como descreve esta epidemia que em sete meses já provocou a morte de mais de um milhão de pessoas e infetou mais de 36 milhões?

Penso que é um desafio único desta geração. As pessoas que enfrentaram algo semelhante no passado já cá não estão. E hoje em dia, os contactos diários entre indivíduos são muito mais elevados e tudo acontece mais depressa e em todo o mundo. O nível de alerta para as sequelas e a forma como a qualidade de vida dos indivíduos depende disso é também muito maior.

Vamos conseguir vencê-la?

Estamos mais organizados para conseguir perceber este vírus e conviver com ele sem que o nosso modelo de sociedade se desmantele ou corra riscos. Todos temos de procurar as melhores fontes de conhecimento e saber fazer o que está certo para evitar a transmissão do vírus. Estou convicto que vamos conseguir resolver isto e aproveitar para aprender com mais este desafio. A medicina, os serviços de saúde e as populações sairão disto reforçados. Não será um sofrimento em vão. 

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