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Mulheres demoram mais tempo a curar-se da covid-19
Sociedade 5 min. 20.11.2020

Mulheres demoram mais tempo a curar-se da covid-19

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Mulheres demoram mais tempo a curar-se da covid-19

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Foto: AFP
Sociedade 5 min. 20.11.2020

Mulheres demoram mais tempo a curar-se da covid-19

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
Estudo revela que mulheres em idade ativa e com doença leve são quem mais reporta sintomas prolongados da doença. Fadiga e confusão mental são alguns dos mais comuns.

Mulheres e com idades entre os 36 e os 50 anos. São essas as características da maioria dos doentes de covid-19 que tiveram doença ligeira, testaram negativo mas continuam a sentir sintomas várias semanas depois de já não terem o vírus. A conclusão é de um estudo da Sociedade Espanhola de Médicos de Clínica Geral e Médicos de Família (SEMG), que inquiriu 2000 infetados, no país. 

 A análise, que foi tornada pública na semana passada, mostra que o coronavírus terá desaparecido, mas não as suas consequências, indicando que muitas das pessoas infetadas manifestaram sequelas ou sintomas até vários meses após terem tido resultados negativos nos testes PCR ou serológicos. 

O perfil desses doentes também é diferente daqueles que superaram a doença em duas ou três semanas.  "São mulheres e são jovens", resume ao jornal El País, a médica Pilar Rodríguez Ledo, vice-presidente da SEMG e coordenadora da investigação que realizou a sondagem. De acordo com a especialista, 79% dos inquiridos que manifestaram a persistência de sintomas, durante meses, são do sexo feminino, com uma idade média de 43 anos. 

Em alguns casos a duração dos problemas, que em média pode ir até seis meses, e o tipo de sintomas são fatores distintivos. Fadiga, cansaço extremo, dores musculares ou dores de cabeça são os principais sintomas que continuam a manifestar-se, semanas e até meses depois da doença ter passado. 

Segundo a médica e vice-presidente da Sociedade Espanhola de Médicos de Clínica Geral e Médicos de Família, entre o total, "86% reportaram sintomas neurológicos globais” e estes, acrescenta, não costumam aparecer no início da doença, mas mais tarde, assim como acontece com a falta de concentração ou "nevoeiro"mental. 

Em Portugal, os mesmos sintomas começam a ser reportados, e embora não haja ainda um estudo que permita estabelecer uma correlação de género, entre eles e o sexo do paciente, os profissionais de saúde estão a acompanhar os casos que vão surgindo, como conta ao Contacto, Nisa Duarte, 39 anos. 

Foi diagnosticada com covid-19 em setembro, teve teste negativo há cerca de um mês, mas continuou a sentir sintomas semelhantes aos reportados em Espanha.  

"Falei ao meu médico de família e ele mostrou intenção de marcar uma consulta de check-up pós covid, mas não teve ainda disponibilidade, no entanto falei com a enfermeira de família quando fui tomar vacina da gripe e ela disse-me que existem muitas pessoas a queixar-se do mesmo e que na comunidade científica fala-se muito de sequelas neurológicas da covid, mesmo em pessoas que tiveram sintomas mais ligeiros" afirma a Técnica Superiora de Marketing, residente em Vila Nova de Gaia, concelho que regista uma incidência elevada de casos, nos últimos 14 dias (878 por 100 mil habitantes). 

Nisa Duarte testou positivo para covid-19 a 19 de setembro, depois de o primeiro teste, feito alguns dias antes, ter dado negativo. Quando realizou os testes já era sintomática, "sentia fadiga e febre desde dia 10 de setembro", recorda. Entre esse tempo e até ficar novamente com resultado negativo e livre do vírus, seguiu os procedimentos das autoridades sanitárias e manteve-se em isolamento em casa, juntamente com o companheiro e a filha adolescente, que também apanharam a infeção. 

 Do diagnóstico positivo ao negativo passou-se cerca de um mês, durante o qual sentiu "febre pontual que reagia bem a ben-u-ron, e fadiga extrema, física e mental", mas de maneira "nem sempre constante". Uma alternância, sobretudo na primeira fase, quando os sintomas foram mais ligeiros, que lhe permitiu que em alguns dias conseguisse fazer teletrabalho. "Trabalhei em casa até não aguentar mais, o que no meu caso foi até dia 24 de setembro, depois voltei a trabalhar um pouco na reta final da recuperação." 

Desde 14 de outubro, já depois de ter dado negativo no teste PCR, começou a retomar a sua vida normal, mas os sintomas não desapareceram, embora, com o passar do tempo, tenham vindo a ficar "lentamente mais ténues". As queixas, nessa fase pós covid-19, são semelhantes à das mulheres do estudo espanhol, predominando os sintomas neurológicos. "Essencialmente dores e peso na cabeça, dificuldade de raciocínio e até de articular palavras, falta de capacidade de concentração, desorientação, tonturas ligeiras e fadiga", detalha Nisa Duarte. 

Apesar de ainda sentir alguns desses sintomas, nota, contudo, que "muito menos frequentes e mais leves". Mesmo assim, o regresso à vida normal é feito com restrições e cuidados, até "mais do que antes de ter apanhado covid". Poder continuar em teletrabalho permite o descanso que ainda é necessário até se sentir totalmente melhor e voltar ao seu antigo normal.

Causa dos sintomas prolongados após teste negativo ainda por apurar

As causas que estão na origem deste prolongar de sintomas - mesmo depois de um teste negativo, que dá a pessoa como liberta do vírus -, ainda não são conhecidas.

 A  Sociedade Espanhola de Médicos de Clínica Geral e Médicos de Família vai iniciar um estudo clínico para tentar obter mais dados, junto de alguns dos inquiridos, com o objetivo de que possam ajudar a responder a essa questão. 

Umas das dúvidas dos médicos é se se trata de sequelas ou se a covid persistente pode ser uma doença em si mesma. Se assim for poderá ser necessário criar um novo tipo de teste.

Entre as possíveis causas apontadas pela investigação espanhola estão a hipótese de o vírus se alojar noutras partes do corpo ou de suscitar uma reação imunitária exacerbada que afete vários órgãos.

No Reino Unido, as evidências de que pessoas anteriormente saudáveis apresentam sintomas contínuos de covid-19 e sinais de sequelas em múltiplos órgãos, quatro meses após a infeção inicial, levaram o serviço nacional de saúde britânico a  anunciar a criação de uma rede de mais de 40 clínicas especializadas em "covid de longa duração", avança o The Guardian.

Segundo o jornal, nessa rede médicos, enfermeiros e terapeutas irão avaliar os sintomas físicos e psicológicos dos pacientes, onde se incluem os já apontados pela investigação espanhola, como fadiga e confusão mental, e também falta de ar e dores no corpo.

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