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Mudanças no uso do solo aumentam risco de surtos de doenças zoonóticas
Sociedade 4 min. 06.08.2020

Mudanças no uso do solo aumentam risco de surtos de doenças zoonóticas

Mudanças no uso do solo aumentam risco de surtos de doenças zoonóticas

Foto: AFP
Sociedade 4 min. 06.08.2020

Mudanças no uso do solo aumentam risco de surtos de doenças zoonóticas

Bruno Amaral de Carvalho
Bruno Amaral de Carvalho
Investigação publicada na Nature mostra que os ecossistemas alterados pelo homem têm mais hospedeiros de doenças transmitidas de animais para humanos do que habitats que se mantêm intactos.

De acordo com o diário espanhol Público, o estudo foi conduzido por várias instituições britânicas e traz uma conclusão urgente: é necessário monitorizar os ecossistemas agrícolas, pecuários e urbanos. Isto porque a transformação global dos contextos naturais pelas atividades agrícola, pecuária e urbana alterou o equilíbrio das comunidades de animais selvagens. Esta investigação revela que as espécies portadoras de doenças zoonóticas, conhecidas por infetar seres humanos, como a covid-19, beneficiam destas alterações no uso do solo.

"É difícil saber se o risco de tais doenças é maior agora do que no passado. No entanto, há muitos fatores que aumentam a probabilidade de surtos de doenças isoladas se transformarem, no presente, em grandes epidemias. Por exemplo, o mundo está muito mais ligado por estrada e ar do que nunca, por isso é fácil para as doenças propagarem-se mais rapidamente para áreas densamente povoadas", afirmou ao SINC Rory Gibb, co-autor do estudo e cientista do Centro de Investigação em Biodiversidade e Meio Ambiente da University College de Londres.

Para desenvolver o estudo, os investigadores tiveram acesso à PREDICTS, uma base de dados que recolhe informações sobre espécies locais a partir de centenas de outros estudos de comunidades ecológicas, ao longo de gradientes de perturbação da paisagem, desde vegetação natural a ecossistemas agrícolas e urbanos.

A equipa utilizou 6.801 locais em todo o mundo para analisar como se transformam as populações e comunidades de espécies hospedeiras zoonóticas, em média, à medida que as paisagens se deslocam da vegetação natural para os ecossistemas agrícolas, de pastagem e urbanos.

"Verificámos que, sob intensidades crescentes do uso humano da terra, as comunidades ecológicas estão a mover-se para se tornarem cada vez mais dominadas por espécies zoonóticas hospedeiras, particularmente em habitats secundários (recuperados), administrados (agrícolas e de plantação), e habitats urbanos", disse Gibb.

O trabalho, publicado na revista Nature, pode ajudar a prevenir a transmissão futura de doenças a partir de hospedeiros de animais. "Há algumas provas de que novas zoonoses [patogénicos novos e anteriormente não descobertos] estão a emergir a um ritmo crescente e que isto pode ser devido a taxas crescentes de impactos induzidos pelo homem no ambiente e na biodiversidade", diz o co-autor.

Mas acrescenta que "esta tendência é difícil de medir de forma conclusiva". "Sem dúvida, a utilização de diagnósticos melhorados e de novas tecnologias genómicas irá ajudar-nos a avançar na deteção de novas doenças".

Contudo, estas respostas dependem do agrupamento de algumas espécies particulares. Roedores, passeriformes e morcegos mostram uma diferença particularmente forte entre espécies hospedeiras e não hospedeiras, enquanto que nos carnívoros e primatas isso não é detetado, de acordo com o estudo.

Segurança alimentar

Os investigadores sublinham que podemos ter de alterar a forma como utilizamos a terra em todo o mundo para reduzir o risco de futuros efeitos de transmissão de doenças infecciosas.

A mudança global do uso do solo é caracterizada principalmente pela conversão de paisagens naturais em agricultura, sobretudo para a produção de alimentos. "As nossas descobertas sublinham a necessidade de gerir as paisagens agrícolas para proteger a saúde da população local, garantindo simultaneamente a sua segurança alimentar", diz Kate Jones, co-autora e investigadora do University College London (UCL).

Estas doenças zoonóticas, como o ébola, a febre de lassa, covid-19 e a doença de Lyme, são causadas por agentes patogénicos que se propagam dos animais para os seres humanos e têm elevados custos para a saúde.

"A malária zoonótica, por exemplo, é transmitida entre primatas, mosquitos e pessoas em redor dos limites da floresta no Sudeste Asiático. O vírus Nipah surgiu pela primeira vez em associação com interações entre o gado e os morcegos nas paisagens agrícolas. Outra doença importante e generalizada é a doença de Lyme, que é frequentemente mais prevalente nos fragmentos florestais modificados e em recuperação, onde a comunidade ecológica é particularmente eficaz no transporte e transmissão das bactérias", afirmou Gibb.

Os investigadores salientam que embora existam muitos outros factores que influenciam os riscos de doença, os resultados apontam para estratégias que poderiam ajudar a mitigar o risco de surtos de doenças infecciosas comparáveis à covid-19.

" À medida que se prevê que as terras agrícolas e urbanas continuem a expandir-se nas próximas décadas, devemos reforçar a vigilância e a disposição das doenças nas áreas que estão a sofrer grandes perturbações da terra, uma vez que é cada vez mais provável que tenham animais que possam estar a abrigar agentes patogénicos nocivos", acrescenta Jones.

David Redding, outro dos autores da UCL, salienta que o trabalho "fornece um contexto para pensar em mudanças mais sustentáveis, para que os riscos potenciais, não só para a biodiversidade, mas também para a saúde humana, sejam tidos em conta".

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