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Morte no Nilo
Opinião Sociedade 4 min. 22.11.2022
COP27

Morte no Nilo

COP27

Morte no Nilo

Foto: Joseph Eid/AFP
Opinião Sociedade 4 min. 22.11.2022
COP27

Morte no Nilo

Hugo GUEDES
Hugo GUEDES
A COP27 sempre serviu para algo: mostrar, em todo o seu esplendor, a fantochada em que se tornaram as cimeiras do clima.

Agatha Christie, a rainha das histórias de detectives, escreveu "Morte no Nilo" em 1937. O herói da trama é mais uma vez o belga Hercule Poirot, um "insuportável egocêntrico" (como o descreveu mais tarde a sua criadora) que consegue deslindar um intrincado assassínio ocorrido a bordo de um dos barcos de cruzeiro que sobem o rio, o Karnak

O livro já foi adaptado por duas vezes ao cinema, ambas com um elenco muito forte: em 1978 Poirot era Peter Ustinov e ainda havia Bette Davis, Jane Birkin, Mia Farrow, Maggie Smith, David Niven ou Angela Lansbury; já na versão de 2022, Kenneth Branagh faz de Poirot acompanhado de Gal Gadot, Annette Bening, Russell Brand e Jennifer Saunders.

Mas há ainda outra versão de "morte no Nilo" ocorrida em 2022: a obra de ficção chamada Cimeira do Clima, a COP27 que terminou no domingo em Sharm-el-Sheik, no Egipto, a 300 km do majestoso rio.

É inacreditável - e no entanto dolorosamente, cruelmente real - que após 27 anos, 27 conferências mundiais sobre o clima, 27 feiras caoticamente organizadas e patrocinadas por alguns dos maiores poluidores, 27 circos itinerantes transportados por centenas de jatos públicos e privados, 27 convenções cheias de avisos cada vez mais estridentes baseados em dados cada vez mais preocupantes… ainda nem sequer tenhamos conseguido olhar para a sala e dizer "está ali um elefante".

O elefante são os combustíveis fósseis. Petróleo, gás, carvão. As drogas duras em que a nossa espécie está viciada e que nos estão a matar, e ao planeta, de forma cada vez mais rápida. Todos o sabem e, à parte os desonestos e os lunáticos, já ninguém o nega. Pois bem, para a Conferência das Partes das Nações Unidas sobre o Clima, os combustíveis fósseis não existem: a indústria do petróleo e gás não permite que estes nomes possam ser proferidos, qual Lord Voldemort das histórias de Harry Potter. E como não existem, não têm de ser eliminados.

Assim, ninguém pode ficar surpreendido por descobrir que as emissões poluentes continuam a aumentar a cada ano. Repita-se. As emissões poluentes (as tais que temos que reduzir para menos de metade em 2030, ou seja daqui a oito anos) do planeta Terra CONTINUAM A AUMENTAR. E os planos dos maiores produtores e consumidores de petróleo - Arábia Saudita, Qatar, Rússia, EUA, China… - são de expansão do produto. Mais furos, mais carbono, mais emissões, e sobretudo mais dinheiro. No próximo ano, a COP28 realizar-se-á no Dubai. Parece-vos que vai estar determinada a acabar com a extracção de petróleo?

A narrativa saída da cimeira e replicada em quase todos os títulos de hoje centra-se no único avanço conseguido, uma proposta europeia apresentada já em "tempo de descontos" para compensar os países mais vulneráveis, e que menos contribuíram para a situação actual, por perdas e danos relacionados com os desastres climáticos. Não se sabe quem paga, quanto paga, a quem e sob que condições. Como alguém escreveu, é o equivalente de oferecer 20 euros para comprar umas roupas ao vizinho a quem acabámos de incendiar a casa.

Mas a ideia cumpriu a sua função - fazer-nos crer que a pior Cimeira do Clima de sempre foi "mais ou menos um sucesso", desviando a nossa atenção do essencial. E o essencial é o que declarava um devastado Alok Sharma, que há apenas um ano tinha presidido à COP26 em Glasgow, sobre o texto final da cimeira terminada ontem no Egipto: "Pico de emissões antes de 2025, como a ciência nos diz que é essencial: não aparece. Claro compromisso para a redução de utilização de carvão: não aparece. Proposta para acabar a prazo com todos os combustíveis fósseis: não aparece em lado nenhum".


E se a Coca-Cola lhe oferecer flores... isso é plástico
Se aprecia uma boa ironia, leia este texto, porque esta história é candidata a ironia da década.

O essencial é que, perto do Nilo, quem morreu foi o limite de 1,5 graus Celsius (subida de temperatura do planeta em relação aos valores pré-industriais). Paz à sua alma, não era um valor arbitrário nem aleatório; era o valor acima do qual a capacidade de adaptação às mudanças climáticas começa a quebrar em série. A propósito, já vamos em +1,2 graus.

Mas atenção, a COP27 sempre serviu para algo: mostrar, em todo o seu esplendor, a fantochada em que se tornaram as cimeiras do clima. Para políticos, não são mais que uma oportunidade de aparecer na foto; para as petrolíferas (que enviaram ao Egipto mais de 600 lobbyistas) são uma magnífica oportunidade de negócio; para as multinacionais como a Coca-Cola, são a melhor forma de greenwashing. E para a Humanidade, são o caixão da esperança.

 (Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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