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Monkeypox, um vírus antigo que se está a espalhar pela Europa
Sociedade 9 min. 01.06.2022
Saúde

Monkeypox, um vírus antigo que se está a espalhar pela Europa

Saúde

Monkeypox, um vírus antigo que se está a espalhar pela Europa

Foto: Martin Bühler/Bundeswehr/dpa
Sociedade 9 min. 01.06.2022
Saúde

Monkeypox, um vírus antigo que se está a espalhar pela Europa

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
Fora dos países africanos onde o vírus é endémico, foram detetados mais de 550 casos em maio. ONU e associações alertam que vírus não tem género nem orientação sexual e que apesar de não ser, atualmente, um risco para a população em geral pode afetar qualquer sexo.

O surto de monkeypox cresce na Europa e Portugal está entre os países com mais casos confirmados, juntamente com a Espanha e o Reino Unido. Aos 100 casos do vírus conhecido por varíola identificados até esta terça-feira, em Portugal, contrapunham-se 190 no Reino Unido e 136 em Espanha.

De acordo com a atualização desta terça-feira do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC), até ontem, 31 de maio, tinham sido notificados 321 casos confirmados de varíola de macaco em 12 países da União Europeia (UE) e espaço Schengen e 236 em sete países não pertencentes a estas regiões. "No total, foram notificados 557 casos confirmados em todo o mundo de países onde a doença não é considerada endémica", especifica a informação mais recente do organismo.

Apesar da progressão da infeção, que deverá aumentar nos próximos dias, as autoridades de saúde sublinham que não há, para já, razão para maiores preocupações. Não só porque não existe registo de casos graves, como "esta não é uma doença com a qual a população em geral deva estar preocupada", segundo afirmou na sexta-feira, Sylvie Briand, da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Para a população em geral o risco de transmissão será baixo, mas, como diz ao Contacto Fernando Maltez, diretor do serviço de Doenças Infecciosas do Hospital Curry Cabral de Lisboa, o risco é "considerado grande para quem tem relações sexuais com múltiplos parceiros". O especialista explica que "a transmissão desta infeção, se seguir as suas formas habituais de transmissão, faz-se em contacto direto próximo através de gotículas respiratórias, com um proximidade mantida durante algum tempo, cara a cara, ou através do contacto direto ou indireto com fluídos corporais, nomeadamente da pele com lesões, em que a infeção se pode transmitir por contacto direto a outra pessoa, ou através de objetos que estejam infetados por via indireta, como roupa de cama ou vestuário".


Wirtschaft, Paulette Lenert, Stelle Kyriakides Foto: Anouk Antony/Luxemburger Wort
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De acordo com a Direção-Geral da Saúde (DGS), até à última segunda-feira, todas as infeções confirmadas em Portugal foram detetadas em homens entre os 20 e os 61 anos, tendo a maioria menos de 40 anos. O cenário é semelhante no resto da Europa, com o primeiro caso numa mulher, desde que este surto começou, a ser detetado no final da semana passada, na região Madrid.

Na origem da transmissão da maioria das infeções detetadas estão relações sexuais, embora ainda seja cedo para falar em doença sexualmente transmissível.

"Os primeiros casos têm, de facto, sido identificados em homens que têm sexo com homens e, portanto, segundo a investigação epidemiológica que se tem conduzido, parece haver aqui um fator comum, que é uma grande proximidade na relação sexual, não se percebendo muito bem se o contacto é feito diretamente pelos fluídos corporais – neste caso particular da proximidade do corpo com o corpo, de lesões cutâneas com a pele do indivíduo que se infeta – ou se eventualmente a própria relação sexual poderá ter algum papel nesta transmissão."

Uma doença sem género ou orientação sexual

Apesar das características do atual surto, o monkeypox, parente da varíola identificado pela primeira vez no final de 1950, não tem um impacto maior nos homens ou qualquer associação à comunidade gay masculina.

"De maneira nenhuma se pode afirmar que a doença é exclusiva do sexo masculino. Aliás, o primeiro caso, embora importado da Nigéria e sem relação com os que se seguiram, que foi identificado no Reino Unido, a 7 de maio, foi uma mulher", exemplifica Fernando Maltez, sublinhando que as formas de transmissão fazem com que "o sexo feminino não esteja isento de contrair infeção".

É também importante não confundir o que pode ser um fator de risco, como os múltiplos parceiros, com a orientação sexual das pessoas. No Luxemburgo, onde não se têm registado casos – Alemanha, França e Bélgica já identificaram alguns -, as organizações de defesa dos direitos LGBT estão atentas, para que estigmas do passado não se repitam.

"Até agora, não recebemos quaisquer queixas de membros da nossa associação que se sintam discriminados devido a um ataque pessoal verbal ou físico em relação ao fenómeno do monkeypox. No entanto, notámos uma formulação irrefletida nos meios de comunicação social luxemburgueses", refere ao Contacto Andy Maar, da direção da associação Rosa Lëtzebuerg. O ativista dá como exemplo o facto de "a maior emissora de televisão do Luxemburgo ter partilhado um artigo do seu próprio website no Facebook, afirmando que os homens que têm contacto sexual com homens seriam particularmente afetados, apenas para assinalar no próprio artigo que as pessoas não deveriam utilizar tais expressões".

Andy Maar considera que alguns comentários, "especialmente no Facebook", aos artigos que saem nos media relativos à infeção "são preocupantes", permanecendo "online bastante tempo", e frisa que a associação adverte "fortemente contra generalizações indiferenciadas, que não só podem ser estigmatizantes ou discriminatórias, como induzir as pessoas em erro para uma falsa sensação de segurança". "É importante salientar que as DST [Doenças Sexualmente Transmissíveis] nos afetam a todos, independentemente da orientação sexual."

A UNAIDS, organismo da ONU de prevenção contra a SIDA, manifestou, num comunicado no passado dia 22 de maio, preocupação com o facto de alguns relatos e comentários públicos sobre a varíola dos macacos terem utilizado linguagem e imagens, particularmente retratos de LGBTI e africanos, que reforçam estereótipos homofóbicos e racistas e exacerbam o estigma. 

"As lições da resposta à SIDA mostram que o estigma e a culpa dirigidos a certos grupos de pessoas podem rapidamente minar a resposta aos surtos", refere o documento. 

Matthew Kavanagh, subdirector-executivo da UNAIDS lembra, no mesmo comunicado, que "o estigma e a culpa minam a confiança e a capacidade de responder eficazmente durante surtos como este" do vírus monkeypox e lembra que "a comunidade LGBTI tem liderado o caminho da sensibilização" em muitas doenças transmissíveis, reiterando que a chamada varíola dos macacos "pode afetar qualquer pessoa".

Doença sexualmente transmissível? Não há confirmação científica

Embora não existam elementos, para já, que permitam classificar o monkeypox como DST, essa hipótese não está totalmente excluída, como explica Fernando Maltez. "É uma possibilidade que existe, mas que neste momento ainda não está demonstrada cientificamente."

O diretor do serviço de Doenças Infecciosas do Hospital Curry Cabral explica que, dada a localização de muitas das lesões e o facto de se confirmar que tinha havido relações sexuais nos casos identificados "levanta a suspeita que a relação sexual possa ter algum papel na transmissão" mas isso não está confirmado, acrescentando que "até nas próprias regiões onde a doença é endémica, na África Central e Ocidental, nomeadamente na Nigéria, onde aconteceu até à data, a maior epidemia de casos de monkeypox se levantou a possibilidade de haver transmissão sexual, mas ela nunca foi confirmada a 100%".


Diretora-geral da Saúde, Graça Freitas.
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Até ao momento, há 119 casos confirmados da varíola dos macacos em Portugal.

Para estancar este surto que atravessa a Europa e já se estende a outros países, o infecciologista português defende o cumprimento das recomendações médicas e das autoridades de saúde e que passam pelos infetados ficarem no domicílio e isolados de outros, não partilharem objetos pessoais, quartos e casa de banho, se possível. 

Além disso, é importante que "tentem identificar, notificar e avisar aqueles com quem tiveram relações sexuais de modo a que estes procurem o médico caso tenham alguma sintomatologia suspeita ou que, não a tendo, permaneçam no domicílio fazendo uma quarentena de até 21 dias de forma a interromper a cadeia de transmissão". O período de incubação do vírus pode variar entre uma a três semanas e os sintomas podem envolver febre, dores de cabeça e nas costas, fadiga, inchaço nos nódulos linfáticos e irritação e erupção cutânea.

O diretor de Emergências Sanitárias da OMS, Mike Ryan, afirmou que a progressão do surto "pode ser evitada nos países não endémicos" através de testagem, rastreio de contactos e isolamento.  

Um vírus antigo com um surto que levanta questões

Descrevendo a situação de contágios fora dos países endémicos como "invulgar", a OMS não tem ainda certezas sobre o que poderá estar a causar estes casos recentes.

Segundo o ECDC, a 14 de maio de 2022, foi notificado em território britânico um cluster familiar com dois casos de monkeypox, sem qualquer relação com o referido caso importado da Nigéria, reportado semanas antes. Como lembra o organismo, vários outros Estados-membros da UE e do espaço Schengen, assim como outros países do globo onde o vírus não é endémico comunicaram casos de varíola dos macacos não relacionados com viagens a países endémicos.   

Também ainda não se sabe se estes casos que estão a ser identificados podem deixar sequelas nos infetados.

"Não sabemos ainda, porque este surto está com alguns aspetos particulares. A sequência genómica parece indicar tratar-se da variante da África Ocidental, o subtipo menos grave. Mas em relação às sequelas penso que ainda é muito cedo para tirarmos conclusões relativamente aos casos que apareceram a nível global", diz o infecciologista português, sublinhando que "até à data, não há indicadores de casos de grande gravidade ou casos que tenham deixado grandes sequelas".

Para já, a OMS afasta um cenário de nova pandemia. "Não é como a covid-19 ou outras doenças que se espalham rapidamente", afirmou igualmente, na sexta-feira, Sylvie Briand, responsável pelo departamento de Preparação para Emergências do organismo. Uma opinião partilhada por Fernando Maltez. “Parece haver aqui uma forma muito eficaz de interromper a cadeia de transmissão e de se identificarem os indivíduos, assim esse trabalho seja bem feito. Não prevejo que isto tome proporções muito grandes", remata.  

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