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Milhões de animais mortos para impedir propagações de doenças. Até quando?
Sociedade 15 min. 04.02.2021

Milhões de animais mortos para impedir propagações de doenças. Até quando?

Milhões de animais mortos para impedir propagações de doenças. Até quando?

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Sociedade 15 min. 04.02.2021

Milhões de animais mortos para impedir propagações de doenças. Até quando?

Ana B. Carvalho
Ana B. Carvalho
Na União Europeia, centenas de milhões de porcos e milhares de milhões de galinhas são mantidos em condições industriais intensivas, tornando-se incubadoras de doenças transmitidas por animais que estão a afetar fortemente a saúde pública.

Um surto de influenza aviária altamente patogénica (vulgarmente conhecida como gripe aviária ou gripe das aves) foi diagnosticada na sexta-feira passada numa quinta de perus, em Deerlijk, na Bélgica. 

Os 28.000 animais dessa empresa foram mortos. Para evitar que o vírus se espalhasse, todas as aves de capoeira das proximidades tiveram de ser abatidas, salvando-se apenas os pombos e os pavões. Dentro dos  vizinhos afetados, incluiu-se o jardim zoológico de animais de estimação Bokkeslot, no qual todas as 42 galinhas, patos e perus tiveram de ser mortos. 

Estamos no início de 2021, mas não é a primeira vez que se matam milhares de animais para prevenir a propagação de doenças na Europa. A 5 de janeiro, mais de 200 mil patos foram abatidos em França para travar a progressão de vários surtos de gripe aviária (AI), sendo que o Ministério da Agricultura francês, avançou na altura que outras 400 mil aves seriam também abatidas.

Cerca de 100 mil patos foram abatidos em quintas de criação com casos de gripe aviária identificados, enquanto outros 104 mil animais foram abatidos no âmbito de medidas preventivas, segundo explicou, em declarações à agência France Presse (AFP), o chefe dos serviços veterinários e diretor-geral adjunto para a área da alimentação, Loïc Evain.

O relatório do ministério da Agricultura francês dava conta de 61 surtos de gripe aviária altamente patogénica (HPAI) no país no primeiro de janeiro, dos quais 48 tinham sido identificados na região de Landes, sudoeste de França, zona geográfica que conta com um grande número de quintas de criação de gansos e patos que são utilizados para a produção de ‘foie gras’ (iguaria feita com fígados de aves gordas).

Na verdade, no que à influenza aviária altamente patogénica (HPAI) diz respeito, na Europa, os primeiros surtos de H5N8  (subtipo do vírus Influenza) foram comunicados em agosto de 2020 na Rússia, tanto em aves de capoeira como em aves selvagens.

 Segundo o relatório da Organização Mundial de Saúde Animal (OIE), desde então, uma nova onda de surtos epizoóticos de H5N8 tem sido continuamente reportada em vários países europeus, especialmente em aves selvagens, mas também em aves de capoeira, desde meados de outubro.


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A gripe aviária (AI) é uma infeção viral altamente contagiosa que pode afetar todas as espécies de aves e pode manifestar-se de diferentes formas, dependendo principalmente da capacidade do vírus de causar a doença e das espécies afetadas. 

As infeções dividem-se em dois grupos, com base na sua patogenicidade (capacidade de um agente biológico causar doença num hospedeiro suscetível), sendo uma altamente patogénica: propaga-se rapidamente causando doenças graves com elevada mortalidade (até 100% em 48 horas) na maioria das espécies de aves de capoeira (exceto aves aquáticas domésticas); e outra minimamente patogénica causando geralmente uma doença ligeira que pode facilmente passar despercebida.

E a epidemiologia da gripe aviária é complexa, já que os vírus evoluem constantemente através de mutação e reabsorção com o aparecimento de novos subtipos causando impacto na saúde e produção animal. Alguns subtipos de AI podem ser zoonóticos e, portanto, representar uma grande ameaça para a saúde humana. Uma situação semelhante de H5N8 epizootia associada à migração das aves selvagens ocorreu em 2016/17. 

Segundo o relatório da OIE, na Europa, até ao dia 14 de janeiro, havia surtos de gripe aviária altamente patogénica ativos na Bélgica, França, Alemanha, Hungria, Irlanda, Itália, Lituânia, Países Baixos, Polónia, Rússia, Eslováquia, Eslovénia, Suécia, Ucrânia e Reino Unido. Em África, registaram-se casos no Senegal e na Ásia incluem-se nos países afetados o Camboja, Taipé Chinesa, Hong Kong, Índia, Irão, Israel, Japão, República da Coreia e Vietname. 

É mais provável que a fonte de introdução nestes surtos seja através da migração de aves selvagens e a propagação se dê através das aves locais em diante. Os relatórios de aumento do número de focos em aves selvagens indicam períodos de risco acrescido nos países devido às rotas migratórias durante o outono.

As autoridades veterinárias dos países afetados responderam para conter os surtos de aves de capoeira com medidas de abate sanitário, vigilância reforçada, e recomendações aos proprietários de aves de capoeira para aumentar a biossegurança. 

Para além do massacre de milhões de visons em toda a Europa, especialmente na Dinamarca, Itália e Holanda, devido à pandemia de covid-19, que também chegou às quintas destes animais criados para o fabrico de peles, uma das grandes ameças atuais ao bem-estar animal é a propoagação da peste suína africana. 

Também conhecida como febre suína africana, trata-se de um vírus altamente contagioso e fatal para os suínos. É transmitido diretamente entre animais ou através de carne ou alimentos para animais infetados e ainda considerado potencial de transmissão aos seres humanos.


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Pensa-se que a doença tenha chegado à Europa em 2007, quando foi encontrada em carne numa lixeira na Geórgia, que tinha chegado de África por navio. Desde então, a doença propagou-se, da Geórgia à Rússia, da Rússia à Ucrânia, depois à Bulgária, Roménia, Polónia, República Checa, Bélgica, Coreia, China e Papua Nova Guiné.

No Luxemburgo, em março de 2019 o Governo ordenou a construção de uma barreira de oito quilómetros em Steinfort, junto à fronteira com a Bélgica, para tentar manter o vírus da peste suína fora do seu território. A doença havia já provocado a morte a mais de 550 animais na Bélgica, um dos países europeus que optou pela construção de barreiras para impedir a passagem de javalis possivelmente infetados. Na altura, o governo belga isolou uma área de 63 mil hectares e abateu quatro mil porcos como medida de de prevenção.

Na Ásia, segundo as Nações Unidas, no mesmo ano perderam-se quase cinco milhões de suínos, que morreram ou foram abatidos devido à disseminação da doença viral contagiosa que afeta porcos domésticos e selvagens. No final de agosto de 2019, a população de suínos da China tinha diminuído cerca de 40%. A China representava mais de metade da população mundial de suínos em 2018, e só neste país a epidemia matou quase um quarto de todos os suínos do mundo.

Atualmente, é na Alemanha que se sente maior pressão na luta contra esta ameaça. Segundo o ministério Federal da Alimentação e Agricultura, desde 14 de novembro de 2019, foram também detetados casos de PSA em javalis na Polónia ocidental. Os primeiros surtos ocorreram a cerca de 80 quilómetros da fronteira germano-polaca. Após outros casos perto da fronteira, foi confirmado um primeiro caso em Brandenburg, a 10 de setembro de 2020, num javali, e subsequentemente foram confirmados mais casos em javalis dentro da zona de risco designada.

Numa reportagem feita pelo jornal The Guardian, em janeiro de 2021, a jornalista Kate Connoly relatava que os suinicultores alemãos "sentem agora a pressão de uma proibição geral por parte da China e de outros países asiáticos sobre a importação de carne de porco alemã". Mais de um quarto das exportações de carne de porco nos primeiros seis meses de 2020, avaliadas em 2,4 mil milhões de euros, foram para a China, de acordo com o gabinete de estatísticas da Alemanha, o dobro do montante para todo o ano anterior.

A razão para este aumento maciço foi a própria batalha da China contra a PSA. "O maior produtor e consumidor mundial de carne de porco teve de abater cerca de 200 milhões de porcos no ano passado, à medida que a doença se alastrou pelo país", relatava.

Em defesa dos animais  

Os animais selvagens e domésticos transportam vírus e bactérias há milénios, mas o que mudou foi a forma como nós, humanos, interagimos com eles. Estas são palavras do Eurogrupo para os Animais, que afirma que "o comércio legal e ilegal de animais selvagens, a urbanização e a destruição dos habitats naturais da fauna selvagem para fins agrícolas, especialmente para a intensificação da criação de animais, estão a combinar-se para aproximar os seres humanos, a fauna selvagem e outros animais mais do que nunca - e aumentar o risco de pandemias como a que estamos a sofrer agora".

Para a organização pan-europeia de defesa dos animais, o principal objetivo é melhorar o bem-estar do maior número possível de animais defendendo os seus interesses. A organização criou uma campanha, em junho de 2020 "Pare as Pandemias- Comece Aqui", que pretende chegar aos membros do Parlamento Europeu para que integrem as suas recomendações para as estratégias "Farm-to-Fork" (Do Prado para o Prato) e "Biodiversity to 2030" (Biodiversidade para 2030) do Acordo Verde da União Europeia. 

Segundo a organização, lançadas a 20 de maio, ambas as estratégias contêm pontos positivos que sugerem que a Comissão Europeia está pronta a tomar medidas em prol dos animais, "mas será que vão produzir as mudanças concretas de que a UE necessita para se afastar da agricultura intensiva e da exploração de animais selvagens e dos seus habitats?", questionam.


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"Durante a preparação das estratégias, a pandemia atual de covid-19 ofereceu um lembrete oportuno de que resultados devastadores podem vir da forma como comercializamos, cultivamos e mantemos os animais", apontam. "A pandemia de covid-19 está a ensinar-nos uma lição dolorosa mas necessária. O respeito pelos animais e seus habitats é parte integrante da saúde e bem-estar humano. Se alguma vez houve tempo para ousar sublinhar isto, esse momento é agora", escrevem. 

Os ativistas redigiram uma carta endereçada à Comissão Europeia que aponta que  70% das doenças infecciosas emergentes nos humanos provêm de animais, "e a covid-19 não é, muito provavelmente, diferente", lê-se. "As alterações na utilização da terra e do mar e a perda de habitat para fins agrícolas, especialmente para a intensificação da criação de animais, causam interacções mais frequentes e mais próximas entre os animais de criação e os animais selvagens, os seres humanos e os ecossistemas". 

"Como resultado, 77% das nossas espécies protegidas e 84% dos habitats naturais só na UE ou desapareceram ou estão em muito mau estado. Estas espécies e habitats não só têm um direito intrínseco a serem protegidos, como deveriam, de facto, ser muito mais bem protegidos, uma vez que, em conjunto, ajudam a saúde humana, fornecendo serviços vitais aos ecossistemas, tais como ar e água limpos, e proteção contra a erosão e a seca", apontam.

A próxima "e potencialmente ainda pior" pandemia poderá também emergir facilmente daquilo que é agora a norma na produção alimentar na maioria das partes desenvolvidas do mundo: a agricultura intensiva. "Os animais cultivados mantidos pelos milhares de milhões (triliões, se considerarmos os peixes em aquacultura) são reservatórios e caminhos para doenças que podem ser perigosas, se não devastadoras, para os seres humanos e animais selvagens", lê-se. 

Na União Europeia, centenas de milhões de porcos e milhares de milhões de galinhas são mantidos em condições industriais intensivas, e são incubadoras de doenças zoonóticas que estão a afetar fortemente a saúde pública. 

"Muitas destas doenças estão a tornar-se cada vez mais difíceis de tratar, uma vez que a utilização (incorrecta) de antibióticos na agricultura intensiva é um importante contributo para a resistência antimicrobiana, que só está a aumentar na UE, apesar dos esforços sustentados para reduzir o uso de antibióticos em animais de criação", aponta a organização que defende que esta crise também tem sido alimentada pelo "nosso modelo económico que valoriza o crescimento económico a todo o custo".

"A política comercial da UE tem sido cega ao seu impacto na intensificação da produção animal, na UE e nos países parceiros, ou ao impacto do estímulo de certos setores sobre os animais e sobre a natureza", lê-se.

De acordo com um relatório da Chatham House, apoiado pelo programa ambiental da ONU, o sistema alimentar global é o maior motor de destruição do mundo natural, e uma mudança para dietas predominantemente baseadas em plantas é crucial para travar os danos, sendo a agricultura a principal ameaça para 86% das 28.000 espécies que se sabe estarem em risco de extinção.

Segundo um documento sobre “biodiversidade e pandemias” da Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistémicos (IPBES) da Organização Mundial das Nações Unidas (ONU), o planeta está a atravessar uma “era pandémica”, em que as pandemias “serão mais frequentes, propagar-se-ão mais rapidamente, poderão matar mais pessoas e causar maiores danos à economia global”.

Os dados científicos a comprovar tais possibilidades e que constam no relatório estimam que "que existam 1,7 milhões de vírus desconhecidos em mamíferos e pássaros, dos quais entre 631.000 a 827.000 têm capacidade de infetar humanos”.

“Há mais de cinco novas doenças desconhecidas, a surgir nas pessoas todos os anos, qualquer uma das quais com potencial para se espalhar e se transformar numa pandemia”, indica o relatório, apontando que nos “últimos cinquenta anos foram descobertos 400 novos microrganismos, dos quais 70% constituem um perigo” para a saúde pública global.

Na sequência dos surtos de covid-19 nas explorações de martas de toda a Europa, que também puseram a nu as condições cruéis sob as quais estes animais estão intensamente confinados, surgiu uma nova onda de pressão para que se suspenda a criação de peles em toda a UE. 

Reineke Hameleers, CEO, Eurogrupo para os Animais, observou numa conferência de várias organizações de proteção animal, em dezembro de 2020, apontou como emergência a eliminação gradual deste setor "de uma vez por todas". Vários inquéritos da UE mostraram que a grande maioria dos cidadãos da UE não aprova a criação de peles e 11 países da UE já proibiram ou restringiram esta indústria ou estão em vias de o fazer. 

O Parlamento Europeu irá responder às estratégias "Farm-to-Fork" e "Biodiversity to 2030" com dois Relatórios de Iniciativa Própria, apresentando-se a oportunidade propícia para o Eurogrupo para os Animais  "influenciar ainda mais a implementação das duas estratégias em ações concretas". Com esta nova fase da nossa campanha 'Stop Pandemics - Start here', pretendem assegurar que as vozes dos cidadãos sejam ouvidas neste momento crucial para os animais.

Ao Contacto, Elise Fleury, gestora da campanha Stop Pandemics - Start here, garantiu que este processo trata-se de uma oportunidade única para definir um novo rumo para a UE: "a regulamentação do comércio de animais exóticos e um afastamento da agricultura animal intensiva, em ambos os casos para proteger a saúde das pessoas e dos animais, o seu bem-estar e a biodiversidade". 

A organização identificou a divulgação das posições da Comissão Europeia sobre a biodiversidade da UE para 2030 e as estratégias da Farm2Fork como oportunidades chave para abordar a fonte das pandemias. Estas duas estratégias estão agora a ser discutidas no Parlamento Europeu, através de Relatórios de Iniciativa Própria e enquanto isso a organização está "a pressionar os Membros do Parlamento Europeu envolvidos nestes processos legislativos para garantir que a posição final do Parlamento Europeu incluirá as nossas recomendações", garante Fleury. E relembra "Teremos alguns momentos de mobilização do público nas votações-chave em março e abril sobre essa matéria". 

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