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Menopausa: Terapia hormonal aumenta risco de cancro da mama
Sociedade 5 min. 11.09.2019

Menopausa: Terapia hormonal aumenta risco de cancro da mama

Menopausa: Terapia hormonal aumenta risco de cancro da mama

Photo: Shutterstock
Sociedade 5 min. 11.09.2019

Menopausa: Terapia hormonal aumenta risco de cancro da mama

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Estudo com mais de 100 mil mulheres alerta para este perigo e diz que mantém-se mesmo após interrupção do tratamento. Especialistas estão divididos.

A terapêutica hormonal da menopausa (TH) sempre foi um tratamento controverso, mas apesar de tudo largamente utilizado e considerado eficaz pelos especialistas.

E já havia estudos que associavam o aparecimento do cancro da mama ao seu uso. Mas nunca tão cedo e nem com os riscos a permanecerem durante tantos anos após a interrupção da TH.

O novo estudo publicado na prestigiada revista científica “The Lancet” indica que há uma relação direta entre o uso da TH e o aparecimento do cancro da mama.

Estudo com mais de 100 mil mulheres

Apenas o primeiro ano de tratamento é seguro. A partir daí, segundo o estudo, quanto mais tempo a mulher fizer a TH durante a menopausa, mais riscos tem de desenvolver cancro da mama. Mesmo depois de interromper o tratamento, os riscos continuam.

Estas são as conclusões que os especialistas internacionais do Grupo Colaborativo sobre Factores Hormonais no Cancro da Mama chegaram depois de analisar os dados de 58 estudos feitos em todo o mundo, e que correspondem a um universo de mais de 100 mil mulheres, a quem foi diagnosticado cancro da mama, depois de terem iniciado esta terapia hormonal. O grupo também comparou estes dados com os de mulheres que nunca tomaram a TH.

A partir dos 50, riscos duplicam com TH

Nas mulheres que recorrem à TH os riscos de vir a sofrer de cancro são de 8,3%, enquanto entre as mulheres que não tomam a TH, os riscos descem para 6,3%, indica o estudo.

A análise realizada concluiu que, a partir dos 50 anos, uma em cada meia centena de mulheres que tomam há cinco anos, a TH na sua combinação mais comum, estrogénio com progesterona, vai desenvolver cancro da mama (2,0 por 100 mulheres).  

Contudo, o risco diminui para quem toma apenas uma hormona. No caso do estrogénio o risco é menor, com o cancro a afetar uma em cada 200 mulheres (6,8%). Se a terapia for só à base da progesterona, a probabilidade sobe para uma em cada 70 mulheres (7,7%).

Perigo mantém-se mesmo após a TH

O que impressionou os investigadores é que mesmo depois do tratamento interrompido “o risco mantém-se por muito tempo, durante 10 anos ou mais”. “É o dobro do que se pensava”, escrevem na apresentação do artigo.

 “Nos países ocidentais, foram diagnosticadas cerca de 20 milhões de mulheres com cancro de mama desde 1990, e destes cerca de um milhão terá sido causado pela toma da TH”, indicam os autores do estudo no final do resumo do artigo científico publicado na revista ‘The Lancet’.

 Especialistas divididos sobre estudo

Este estudo divulgado recentemente está a dividir especialistas em todo o mundo.

Apesar de considerar esta meta-análise importante, Ivone Mirpuri, médica patologista clínica dedicada ao envelhecimento saudável e à modulação hormonal, considera porém que há alguns fatores que devem ser tidos em conta para os resultados deste estudo.

“Trata-se de um estudo feito com base em outras análises e há fatores essenciais a considerar como a dose administrada da TH, o equilíbrio com outras hormonas e o fator ambiental de cada mulher. Estes fatores teriam de ser idênticos em todas as mulheres analisadas" para que os resultados pudessem realmente assertivos, considera ao Contacto Ivone Mirpuri.

Mais "hábitos de vida saudáveis"

“O fator ambiental é muito importante. É fundamental”, vinca esta médica.

Ivone Mirpuri defende a administração da TH em certos casos, mas alerta que deveria haver uma maior sensibilização para as mulheres na menopausa adotarem hábitos de vida saudáveis.

O modo de vida saudável é a melhor prevenção, diz esta especialista para quem, todos os médicos deviam perder um pouco do seu tempo nas consultas a informar as mulheres na menopausa, sobre “a alimentação correta, os riscos desnecessários, como fumar ou beber café, entre outros”.

“Mais saúde significa mais vitalidade e menos doenças”, argumenta esta médica.

Avaliar "riscos e benefícios"

Por seu turno, Fátima Cardoso, diretora da Unidade da Mama no Centro Clínico Champalimaud afirma em declarações ao jornal Expresso que já era conhecida a associação entre a terapêutica hormonal e o cancro da mama. Mas a duração dos riscos após a interrupção da TH é “uma novidade”.

 “Pensava-se que uma vez terminada a toma, o risco seria igual ao de uma mulher que nunca fez a terapêutica, mas afinal não é bem assim. Nenhum estudo anterior mostrava isto, e com esta abrangência”, diz.

E o que fazer agora? As mulheres devem deixar de recorrer à terapia hormonal para aliviar os sintomas da menopausa?

 “Não se trata de lançar o pânico, mas é preciso que as mulheres tenham noção das consequências da TH, para que recorram à terapêutica apenas aquelas cujos sintomas da menopausa são tão intensos que destroem a sua qualidade de vida”, considera esta Fátima Cardoso ao Expresso. À paciente deve ser dada “toda a informação” dos “riscos e benefícios” para que ela possa “decidir em conformidade”.  “A terapêutica não é o fator de risco mais importante para o cancro, é um fator que se vai associando a outros. Cabe à mulher decidir”, esclarece.

 Os maus números do cancro

 No Luxemburgo, surgem anualmente cerca de 500 novos diagnósticos deste tumor maligno, ao qual não sobreviveram 94 doentes, em 2016. Este cancro é a principal causa de morte nas mulheres no Grão-Ducado e no mundo entre os 35 e os 55 anos.

Em Portugal, são conhecidos 11 novos casos da doença por dia, com seis mil, anualmente. Por dia, o tumor da mama também faz quatro vítimas.

Na Europa, são diagnosticados meio milhão de casos, por ano, e esta doença é responsável por mais de 100.000 mortes anualmente.