Escolha as suas informações

"Massacre" de 1428 golfinhos nas ilhas Faroé
Sociedade 1 5 min. 15.09.2021
Biodiversidade

"Massacre" de 1428 golfinhos nas ilhas Faroé

Biodiversidade

"Massacre" de 1428 golfinhos nas ilhas Faroé

Sea Shepherd
Sociedade 1 5 min. 15.09.2021
Biodiversidade

"Massacre" de 1428 golfinhos nas ilhas Faroé

Ana B. Carvalho
Ana B. Carvalho
A escala deste "massacre" na praia de Skalabotnur, nas Ilhas Faroé chocou muitos habitantes locais pelo conjunto de irregularidades registadas e o número "absurdo" de animais mortos na costa.

(Artigo com imagens sensíveis)

Na noite de domingo, dia 12 de setembro, um mega grupo de 1428 Golfinhos de Face Branca do Atlântico foi vítima de um "massacre" nas Ilhas Faroé, território da Dinamarca. As mortes ocorreram como parte de uma caçada Grind, uma tradição faroense de caça aos golfinhos, em que os animais são mantidos em grupo e conduzidos para terra por barcos a motor, até serem mortos por pescadores na costa.

A organização de conservação marinha Sea Shepherd expôs o "massacre" como sendo "a maior caça única de golfinhos ou baleias-piloto da história das Ilhas Faroé", tendo a segunda maior sido em 1940, quando 1200 baleias-piloto foram assassinadas. "É possivelmente a maior caça única de cetáceos alguma vez registada em todo o mundo", adiantaram.

Normalmente relutantes em publicar algo contra a tradição, a escala desta caça - que também terá matado fêmeas e crias indescriminadamente- também fez com que os noticiários faroenses se pronunciassem contra a prática, com Hans Jacob Hermansen, um antigo presidente da caça a chamar desnecessária a matança. Em perspectiva, este "massacre" em Skálabotnur, das Ilhas Faroé, aproxima-se da quota estabelecida para toda a época de caça de seis meses para matar e capturar golfinhos em Taiji, no Japão, excedendo todos os números de caça japoneses dos últimos anos.

Os vídeos 360 não têm suporte aqui. Ver o vídeo na aplicação Youtube.

As Ilhas Faroé encontram-se entre o Japão, Noruega e Islândia e são um dos principais culpados pelo abate de quase 40.000 baleias de grande porte desde que a caça comercial à baleia foi proibida em 1986. 

"Enquanto a Sea Shepherd tem lutado para impedir o Grind desde o início da década de 1980, este último massacre de golfinhos foi tão brutal e mal conduzido que não é surpresa que a caça esteja a ser criticada nos meios de comunicação das Ilhas Faroé e mesmo por muitos defensores e políticos nas Ilhas Faroé", lê-se na publicação que expõe o caso. Os defensores na natureza garantem que segundo os locais que partilharam vídeos e fotos com a Sea Shepherd, "esta caça quebrou várias leis faroenses que regulam o Grind".


As três denúncias da organização apontam em primeiro lugar para o facto de que o capataz de Grind designado para o distrito onde ocorreu a caça "nunca foi informado e, portanto, nunca autorizou a caça". Em vez disso, terá sido o capataz de outro distrito que prosseguiu com a caça "sem a devida autoridade". 

Em segundo lugar, muitos participantes da caça não tinham licença, necessária nas Ilhas Faroé, uma vez que há uma formação específica para matar rapidamente as baleias e golfinhos-piloto. "Algo que desta vez não foi cumprido, já que nas imagens que circulam, muitos dos golfinhos ainda estavam vivos e em movimento mesmo depois de terem sido atirados para terra com o resto da sua cápsula morta.


Ruído provocado pela atividade humana tem efeitos nefastos para os animais
Os danos causados pelo ruído nos oceanos são tão prejudiciais como a sobrepesca, a poluição e a crise climática, mas estão a ser perigosamente negligenciados. A boa notícia, segundo os cientistas, é que o ruído pode ser parado instantaneamente e não tem efeitos prolongados, como os outros desafios apresentam.

Por último, os ativistas expuseram que muitos dos golfinhos tinham sido atropelados por barcos a motor, o que teria resultado numa morte lenta e dolorosa. Segundo os habitantes locais terão comunicado à Seasheperd, a caça foi denunciada à polícia faroense por todas estas violações.

Golfinho ferido por hélice de barco a 12 de Setembro no Skálafjörður.
Golfinho ferido por hélice de barco a 12 de Setembro no Skálafjörður.
Sea Shepherd

No entanto, o governo local das Ilhas Faroé defendeu esta terça-feira a matança de mais de 1400 golfinhos durante a caçada, apesar da emoção despertada por este massacre de “magnitude invulgar”, mesmo para o arquipélago do nórdico, segundo a AFP.

“Não há dúvida de que a caça aos cetáceos nas Ilhas Faroé é um espectáculo dramático para as pessoas pouco habituadas à caça e abate destes mamíferos. Estas caçadas são, no entanto, bem organizadas e totalmente regulamentadas”, disse à AFP um porta-voz do governo de Torshavn.

Embora esta prática faça frequentemente manchetes com imagens aterradoras, aqueles que defendem a caça mantêm-na como uma atividade baseada na comunidade que se enraíza na tradição que remonta ao século XVI. Até agora, isto tem permitido às Ilhas Faroé evitar repercussões legais. 

O argumento baseia-se no facto da carne destinar-se a alimentar as famílias locais, no entanto, no caso do presente abate, é provável que haja demasiado para alimentar os 53.000 habitantes das ilhas, o que significa que uma grande porção poderá ser desperdiçada. 

No entanto, as autoridades de saúde têm vindo a alertar para a grande presença de poluentes na carne de golfinhos e baleias. Já em 2016 o então médico chefe do Departamento de Medicina do Trabalho e Saúde Pública nas Ilhas Faroé, Pal Weihe contradisse os conselhos do governo e reiterou um aviso à população do país para não comer carne de cetâceos. Altos níveis de poluentes como o mercúrio, PCB (bifenilos policlorados) e PFC (compostos perfluorados) dos oceanos de todo mundo acabam em mamíferos marinhos como baleias e golfinhos e são comidos nas Ilhas Faroé, Gronelândia, partes do Canadá e Sibéria.  

Milhares de golfinhos assassinados na noite de 12 de setembro nas Ilhas
Milhares de golfinhos assassinados na noite de 12 de setembro nas Ilhas
Sea Shepherd

A PETA há muito que defende o consumo de carne de baleia na ilha como uma "tradição", mas apenas 17% dos ilhéus afirmaram consumir regularmente carne de baleia piloto e gordura de baleias num estudo mencionado pela Euronews.

"Nestes dias está longe de ser a tradicional caça de subsistência dos séculos anteriores", diz Rob Read, COO da Sea Shepherds, à Euronews Green. "A Grind tem agora lugar com barcos de alta potência e Jet Skis, e é pouco mais do que um desporto disfarçado de tradição. "A carne não é necessária para a rica comunidade faroense, e o método de caça é totalmente indiscriminado, matando todos os membros da população". 

A informação partilhada pela SeaSheperd está a criar agitação em diferentes plataformas e redes sociais onde vários utilizadores estão a escrever às autoridades locais (Fisk@fisk.fo) a exigir o fim a esta prática. 

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.