Marquises entre as pálpebras
Marquises entre as pálpebras
Dizia-se que era para aumentar o espaço dentro de casa, mas, na verdade, erguíamos muros de aço e vidro entre nós e o exterior. Formas higiénicas de observação do Outro, à distância. Ganhávamos uma marquise para o mundo, perdíamos uma varanda para o mundo.
Esta alteração arquitetónica, muito em voga na altura, não era mais do que uma metonímia da forma como pensávamos. Cresci num clima a que posso chamar racista. Portugal estaria a adaptar-se à liberdade democrática, havia estatísticas oficias de criminalidade – sempre tão maquilhadas durante o Estado Novo – e novos medos e receios começavam a tecer-se. Depois de turbas de retornados das ex-colónias, chegavam vagas de imigrantes dos PALOP para se estabelecerem naquela zona. Lembro-me de os meus pais me proibirem de ir brincar para a rua e de me seguirem, com binóculos, no caminho para escola.
Durante o Estado Novo, o acesso à informação era extremamente maquilhado, os números oficiais eram uma ilusão. Quem lesse jornais, se não tivesse a capacidade de entender as entrelinhas, achava que Portugal era um país de conto de fadas. Como lidar, agora, com a informação aterradora que nos entrava pelas casas à hora das refeições e que nos dizia, todos os dias, que o Outro era o inimigo?
Assim ia a cabeça de tanta gente. Com marquises entre as pálpebras, porque os olhos deixaram de ser varandas, o espaço dentro de casa não aumentou.
No início dos anos 80, nos subúrbios de Lisboa, uma criança como eu vivia sobretudo no ambiente doméstico da casa. Um quarto-cela, onde consegui criar um universo meu e onde as perguntas sobre o exterior, a curiosidade sobre o Outro – que me era aparentemente vedado – fervilhavam. Como era estranha a minha liberdade. Eu, que representava a primeira geração a nascer em democracia, mal saía do quarto.
As respostas encontrei-as na literatura. Borges, Queiroz, Pessoa, Duras, Eliot, Llosa, Plath. Na verdade, Jorge, Eça, Fernando, Mário, Sylvia. Como não os tratar pelo nome próprio? Os bons escritores, os bons livros, têm a capacidade de alteridade, a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro e de o humanizar. São armas de empatia e de criação maciça.
Portugal está prestes a ir a votos. Dentro de dias iremos escolher o próximo Presidente da República e, pela primeira vez, temos a extrema-direita na corrida com projeções preocupantes nas sondagens e, nas ruas, a figura grotesca da xenofobia disfarçada pelas sibilantes francesas. Estamos a viver uma época bastante perigosa. Se olharmos para a História, percebemos que o terror é cíclico e que, de tempos a tempos, voltamos a erguer marquises e a fechar varandas. Nesses momentos, o único voto útil que existe é o voto em prol da afinidade com o Outro.
Neste lugar do mundo onde dizem que a democracia existe, já são tantos os exemplos de falta de democracia que já duvido como Calvino, nas suas Cidades Invisíveis, se não estaremos a construir debaixo de terra uma cópia idêntica do nosso mundo, e lá continuaremos as nossas ocupações depois de mortos, para chegarmos à conclusão de que, afinal, foram os mortos a construírem o nosso mundo à semelhança do seu.
Alexandre O'Neill avisou-nos: o medo vai ter tudo, pernas ambulâncias e o luxo blindado de alguns automóveis. O meu ponto é este: no discurso da tolerância, nada justifica a aceitação do discurso da intolerância, não é aceitável, não pode ser defendido pela razão. Não há um único bom motivo para alguém justificar a defesa do medo e da ameaça, para dar voz a quem persegue opositores, quer “limpar” os críticos, fechar jornais, distribuir armas, construir muros, perseguir os que são diferentes.
Acredito que o outro é o nosso ponto cardeal. Todos os pontos cardeais são referenciais. O Sul só é Sul porque há um Norte. O Leste está a leste de algo. Negar o Norte que referencia o Sul é negar a existência de Sul em si mesmo. Também acontece com as pessoas e os seus parentescos: a mãe é referência da filha, a filha referência da mãe; o eleitor é a referência do eleito, o eleito a referência do eleitor. Existem na interdependência. A maior dependência acontece entre os que se nomeiam na existência do outro. Não há nome para esses: Norte, Sul, Amante, Amado, Leste, Oeste. Somos pontos cardeais que existem porque o outro existe. Escreveu Carl Sagan: Para criaturas tão pequenas como nós, a imensidão só é tolerável por meio do amor. Votemos com amor.
(Texto adaptado a partir da uma intervenção feita nas Correntes d’Escritas 09, Póvoa de Varzim.)
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