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Marquises entre as pálpebras
Opinião Sociedade 4 min. 14.01.2021

Marquises entre as pálpebras

Marquises entre as pálpebras

Foto: AFP
Opinião Sociedade 4 min. 14.01.2021

Marquises entre as pálpebras

Filipa MARTINS
Filipa MARTINS
Cresci nos subúrbios de Lisboa, nos anos 80, que se expandiam de forma encastelada, fortificada. Numa altura em que se fechavam varandas com inox para se erguerem marquises.

Dizia-se que era para aumentar o espaço dentro de casa, mas, na verdade, erguíamos muros de aço e vidro entre nós e o exterior. Formas higiénicas de observação do Outro, à distância. Ganhávamos uma marquise para o mundo, perdíamos uma varanda para o mundo.

Esta alteração arquitetónica, muito em voga na altura, não era mais do que uma metonímia da forma como pensávamos. Cresci num clima a que posso chamar racista. Portugal estaria a adaptar-se à liberdade democrática, havia estatísticas oficias de criminalidade – sempre tão maquilhadas durante o Estado Novo – e novos medos e receios começavam a tecer-se. Depois de turbas de retornados das ex-colónias, chegavam vagas de imigrantes dos PALOP para se estabelecerem naquela zona. Lembro-me de os meus pais me proibirem de ir brincar para a rua e de me seguirem, com binóculos, no caminho para escola.

Durante o Estado Novo, o acesso à informação era extremamente maquilhado, os números oficiais eram uma ilusão. Quem lesse jornais, se não tivesse a capacidade de entender as entrelinhas, achava que Portugal era um país de conto de fadas. Como lidar, agora, com a informação aterradora que nos entrava pelas casas à hora das refeições e que nos dizia, todos os dias, que o Outro era o inimigo?

Assim ia a cabeça de tanta gente. Com marquises entre as pálpebras, porque os olhos deixaram de ser varandas, o espaço dentro de casa não aumentou.

No início dos anos 80, nos subúrbios de Lisboa, uma criança como eu vivia sobretudo no ambiente doméstico da casa. Um quarto-cela, onde consegui criar um universo meu e onde as perguntas sobre o exterior, a curiosidade sobre o Outro – que me era aparentemente vedado – fervilhavam. Como era estranha a minha liberdade. Eu, que representava a primeira geração a nascer em democracia, mal saía do quarto.

As respostas encontrei-as na literatura. Borges, Queiroz, Pessoa, Duras, Eliot, Llosa, Plath. Na verdade, Jorge, Eça, Fernando, Mário, Sylvia. Como não os tratar pelo nome próprio? Os bons escritores, os bons livros, têm a capacidade de alteridade, a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro e de o humanizar. São armas de empatia e de criação maciça.

Portugal está prestes a ir a votos. Dentro de dias iremos escolher o próximo Presidente da República e, pela primeira vez, temos a extrema-direita na corrida com projeções preocupantes nas sondagens e, nas ruas, a figura grotesca da xenofobia disfarçada pelas sibilantes francesas. Estamos a viver uma época bastante perigosa. Se olharmos para a História, percebemos que o terror é cíclico e que, de tempos a tempos, voltamos a erguer marquises e a fechar varandas. Nesses momentos, o único voto útil que existe é o voto em prol da afinidade com o Outro.

Neste lugar do mundo onde dizem que a democracia existe, já são tantos os exemplos de falta de democracia que já duvido como Calvino, nas suas Cidades Invisíveis, se não estaremos a construir debaixo de terra uma cópia idêntica do nosso mundo, e lá continuaremos as nossas ocupações depois de mortos, para chegarmos à conclusão de que, afinal, foram os mortos a construírem o nosso mundo à semelhança do seu.

Alexandre O'Neill avisou-nos: o medo vai ter tudo, pernas ambulâncias e o luxo blindado de alguns automóveis. O meu ponto é este: no discurso da tolerância, nada justifica a aceitação do discurso da intolerância, não é aceitável, não pode ser defendido pela razão. Não há um único bom motivo para alguém justificar a defesa do medo e da ameaça, para dar voz a quem persegue opositores, quer “limpar” os críticos, fechar jornais, distribuir armas, construir muros, perseguir os que são diferentes.

Acredito que o outro é o nosso ponto cardeal. Todos os pontos cardeais são referenciais. O Sul só é Sul porque há um Norte. O Leste está a leste de algo. Negar o Norte que referencia o Sul é negar a existência de Sul em si mesmo. Também acontece com as pessoas e os seus parentescos: a mãe é referência da filha, a filha referência da mãe; o eleitor é a referência do eleito, o eleito a referência do eleitor. Existem na interdependência. A maior dependência acontece entre os que se nomeiam na existência do outro. Não há nome para esses: Norte, Sul, Amante, Amado, Leste, Oeste. Somos pontos cardeais que existem porque o outro existe. Escreveu Carl Sagan: Para criaturas tão pequenas como nós, a imensidão só é tolerável por meio do amor. Votemos com amor.

(Texto adaptado a partir da uma intervenção feita nas Correntes d’Escritas 09, Póvoa de Varzim.)

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