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Marisol. "O maior problema para os homossexuais é serem aceites pelos pais"

Marisol. "O maior problema para os homossexuais é serem aceites pelos pais"

Foto: Shutterstock
Sociedade 6 min. 25.04.2019

Marisol. "O maior problema para os homossexuais é serem aceites pelos pais"

Tem namorada, mas num país em que "até o primeiro-ministro é homossexual", já viveu experiências terríveis. "Já fomos perseguidas por homens que queriam que nos beijássemos à frente deles", contou ao Contacto Júnior a jovem de 17 anos. Mas a maior dificuldade continua a ser contar aos pais. Uma entrevista realizada por alunas do Ensino de Português no Luxemburgo para o suplemento juvenil do Contacto.

Contacto Júnior - Quando é que percebeste que a tua orientação sexual era diferente?

Marisol (nome fictício), 17 anos - Desde criança sempre me senti diferente das outras raparigas: era muito mais tímida com elas do que com os rapazes. Nunca me senti uma verdadeira rapariga e ainda hoje é isso o que eu sinto. Nunca quis vestir roupa cor de rosa ou brincar com bonecas, gostava mais de jogar à bola com os rapazes. Tinha entre cinco e seis anos quando percebi que o que sentia quando estava com raparigas era muito diferente do que quando estava com os rapazes. Os anos passavam e sempre aceitei que era diferente e não me via a namorar com um rapaz. Esta ideia foi sendo reforçada com o passar do tempo, e quanto mais os anos passavam, mais eu tinha a certeza de que gostava mais de raparigas do que de rapazes. Quando entrei no sétimo ano de escolaridade, tentei ser mais rapariga, porque tinha medo do que os outros alunos iriam pensar de mim. Foi nesse ano que eu namorei com um rapaz, mas não sentia nada por ele, era como se fosse um irmão para mim. Depois de algum tempo, conheci uma rapariga que andava no liceu. Na altura tinha 13 anos e ela 16. No começo era só uma amizade entre duas jovens, mas com o tempo percebi que era muito mais do que isso. Tentava esquecer e deixar estes sentimentos de lado , porque para mim, nessa altura, o facto de ser lésbica ou gay não existia no meu mundo, eu não sabia que isso existia e sempre que alguém falava sobre isso as pessoas gozavam ou maltratavam essa pessoa, o que me deixou ainda com mais medo de me aceitar. Mas, com o tempo, o nosso relacionamento tornou-se mais profundo e correspondido e aí vi que era possível amar e ser amada. A partir daí comecei a aceitar-me, mas ainda sinto muito medo, sobretudo da opinião dos outros, o que vão as pessoas pensar de mim. E é muito difícil lidar com isto, é um grande sofrimento.

Como é que vives a tua homossexualidade no quotidiano? Quando é que a assumiste?

Assumi a minha orientação sexual com 13 anos. Comecei a aceitar-me, mas precisei de muito tempo para o assumir à frente dos meus amigos. No início falei-lhes, mas só com duas amigas, sobre o meu relacionamento, e elas aceitaram-no bem e sempre me apoiaram e ajudaram-me quando mais precisei. Algum tempo depois conheci outra rapariga, namorámos e foi graças a ela que tive a coragem de me afirmar junto dos meus amigos e de não me esconder mais. Agora não tenho mais problemas com isso e quando alguém vem ter comigo e aborda o tema, estou pronta para responder. Mas, infelizmente, há pessoas que não respeitam a orientação sexual de certos indivíduos. No meu caso o facto de ser lésbica e andar com a minha namorada de mãos dadas, já levou a que nos olhassem de lado. E já fomos perseguidas por homens que queriam que nos beijássemos à frente deles. Isso, para mim, é execrável!

Tens alguma experiência relacionada com situações de discriminação ou exclusão, por exemplo, pela família, na escola, no grupo de amigos ou noutros casos?

Pessoalmente tive a sorte de nunca ter sido discriminada por amigos, as suas famílias ou os meus familiares. Os professores das escolas que frequentei e frequento sempre me apoiaram em todas as situações.

Infelizmente, eu nunca tive a coragem de dizer ao meu pai.

A tua família tem conhecimento? Se sim, qual foi a sua reação?

A minha mãe e a minha irmã sabem que gosto de raparigas. Ambas reagiram bem, mas claro que uma mãe nunca está preparada para uma situação destas. A minha mãe aceitou-me e trata-me da mesma maneira, como sempre o fez. Mas, infelizmente, eu nunca tive a coragem de dizer ao meu pai, porque não tenho uma relação tão próxima e aberta com ele. Mas eu penso que ele sabe, nem que seja pela maneira como me visto, como sou com as pessoas, em especial, com a minha namorada. O meu irmão mais velho e a restante família também sabem, não que eu lhes tenha dito, mas através das redes sociais, e também porque me mostro assim como sou à frente de todos e sobretudo sem medo.


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Porque é que, em tua opinião, em determinados contextos as pessoas com orientação homossexual a omitem?

Porque, tal como eu sentia, têm medo de não ser aceites pela sociedade ou da reação dos mais próximos.

Como é atualmente vista a comunidade homossexual pela população em geral?

Penso que a homossexualidade hoje em dia é cada vez mais aceite pela sociedade. No entanto, os rapazes gays têm mais dificuldade em se afirmar, enquanto as raparigas assumem ser lésbicas ou bissexuais, pois elas não têm medo e enfrentam a situação. Mas o maior problema para os homossexuais é serem aceites pelos pais. Os homens são mais discriminados pelo simples facto de existir uma imagem machista do homem, que deve ser duro e forte, enquanto as raparigas têm de lidar mais com os piropos sexistas vindos de homens, na maior parte das vezes mais velhos.

Até o primeiro ministro do Luxemburgo é homossexual. Graças a ele, mais pessoas tiveram a coragem de se assumir.

Na tua opinião, o que poderá facilitar a integração social dos homossexuais?

A homossexualidade deveria ser um tema mais abordado nas escolas, mas também nos meios de comunicação social, como os jornais, revistas e televisão.

A sociedade luxemburguesa é heterossexista, isto é, vê a heterossexualidade como a norma?

Não creio que a sociedade luxemburguesa seja heterossexista, pois até o primeiro ministro é homossexual. Graças a ele, mais pessoas tiveram a coragem de se assumir.

Em relação às instituições consideras que tem contribuído para que se privilegie a heterossexualidade (por exemplo a religião, o Estado, a família, a escola os meios de comunicação social)?

Não percebo o porquê de algumas instituições, em pleno século XXI, ainda insistirem em discriminar pessoas com uma orientação sexual diferente. Somos todos iguais, somos todos de carne e osso e todos temos o direito de ser felizes, de amar e ser amados, independentemente do sexo, da cor, da religião.

Entrevista realizadas pelas alunas Vera Lúcia Pereira Sofia e Catarina Pereira Torres, do 10° ano, para o suplemento "Contacto Júnior" de 24 de abril, produzido mensalmente pelos alunos do Ensino de Português no Luxemburgo. 

Leia também a entrevista a Cláudio, de 15 anos: "Aos oito anos comecei a notar que a minha orientação sexual era diferente"


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