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Manual de utilização para comentar nas redes sociais

Manual de utilização para comentar nas redes sociais

Ilustração: Shutterstock
Editorial Sociedade 6 min. 05.04.2019

Manual de utilização para comentar nas redes sociais

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
Com tanto disparate que se lê por aí, apetece dizer como na anedota: organizem-se, porra.

O psiquiatra Pio Abreu escreveu um livro em 2001 em que explica como tornar-se doente mental. Leu bem: não é como curar-se, mas sim como adquirir uma doença psiquiátrica. O médico explica que é "uma tentativa desesperada" de contribuir para a saúde mental. Em cada capítulo, dá os sintomas de uma doença e as técnicas para lá chegar. "Tudo coisas fáceis, porque difícil é o tratamento, e mais difícil, ainda, é manter-se saudável no meio desta complicada civilização consumista", defende.

A ideia, inspirada na teoria paradoxal da comunicação, parece louca, como a maioria das boas ideias. "Seja espontâneo!" é um exemplo de uma injunção paradoxal. Outro: "Não leia esta frase!"

Há umas semanas um leitor partilhou um artigo do Contacto em que dizia basicamente isto: "Não aceito que o que este artigo diz seja verdade, mas também não me apetece ler o artigo todo". E opinava isto e aqueloutro a partir do artigo que admitidamente não lera e, pior, se recusava a ler. A reportagem estava disponível, não era de acesso pago, e o leitor não sofria de analfabetismo. Como demonstra o estulto comentário que fez no Facebook, sabia ler e escrever. O objetivo era informar, mas como consegui-lo quando alguém se recusa a ler, preferindo fechar-se nos seus preconceitos?

O escritor e filósofo francês Roland Barthes dizia que o fascismo da linguagem "não consiste em impedir de dizer, mas em obrigar a dizer". Não se pode obrigar ninguém a ler ou a informar-se, isso é certo. Como não se pode forçar ninguém a pensar ou a dizer coisas reflectidas. Podemos objectar, discutir, discordar. Mas no lugar embruxado das redes sociais, às vezes isso parece um esforço inútil: são tantas as falácias e erros de lógica que tentá-lo é capaz de ser tarefa inglória.

Talvez fosse mais fácil se houvesse um manual de falácias. Assim, o comentador interessado poderia pelo menos dar-lhe um nome, usando o silogismo com propriedade, quem sabe perceber o que está a dizer, ganhando pelo menos consciência do erro. Aqui fica o meu contributo.

1. Insulte. Tem com certeza ideias, factos e argumentos, mas para quê maçar-se com eles? Deite-os borda fora e parta para a porrada. Chame nomes ao autor do post ou do artigo, às outras pessoas que comentam, acuse-os de tudo o que se lembrar. Umas bestas. O melhor de tudo: não precisa de ser verdade. É a chamada falácia ad hominem, um erro de lógica que consiste em atacar o interlocutor em vez do argumento. No processo, o argumento não sai beliscado, mas pelo menos despejou a sua bílis. É um erro, sim, mas "errare humanum est", não é? Em latim, um erro ganha patine. Para melhor efeito, esqueça que a locução latina completa diz "perseverare diabolicum" - se errar é humano, teimar no erro é diabólico. Em grego, "diábolos" significa "caluniador". Pinte o diabo.

2. Generalize. Pegue num exemplo à toa e converta-o em lei universal. Um ruivo pisou-lhe os calos? "Todos os ruivos são umas bestas". Em francês, é o que se chama fazer "amalgames", o que em português soa a "amálgama", chumbo no dentista. Dispare: pouco importa que uma andorinha não faça a Primavera. Não estranhe é se os outros também generalizarem em relação a si, atribuindo-lhe as piores características sem o conhecer de lado nenhum. Se disser que todos os refugiados são terroristas, prepare-se para aceitar que todos os portugueses são bestas de carga ou vivem à custa do RMG. Também pode usar o próprio exemplo para extrair uma conclusão errada. Exemplo: eu nunca tive este problema, logo este problema não acontece. Estou vivo, logo a morte não existe: um clássico imorredoiro para pequenos Descartes.

3. Borrife-se para a lógica. Curiosamente, pode usar a generalização também em relação a si mesmo, criando um paradoxo lógico. Diga "os portugueses vêm para o Luxemburgo para se aproveitar do sistema, não querem trabalhar". Naturalmente, a ser verdade, sendo você português, isso faz de si um calaceiro e um oportunista, mas não está preocupado com a lógica, certo? É o famoso paradoxo de Epiménides. Epiménides é de Creta e afirma: "Todos os cretenses são mentirosos". A ser verdade, Epiménides, que é cretense, também é mentiroso, pelo que o que diz não é verdade, o que faz com que não possamos confiar que todos os cretenses são mentirosos. Quod erat demonstrandum: acabou de dar um tiro no próprio pé. Não se dê por achado: se alguém lho fizer notar, expondo a sua ignorância, regresse à casa de partida e vingue-se com uma falácia ad hominem.

4. Desconverse. O assunto é pobreza? Diga que bem, bem, estão os refugiados. Em latim, é a chamada "ignoratio elenchi"Em inglês, chama-se a esta falácia um "red herring", um arenque vermelho, para não sair do bestiário. É um erro destinado a confundir, distraindo de uma questão. A questão continuará a existir, mas se for bem sucedido, terá conseguido que não se fale nela.

5. Baralhe e volte a dar. Em latim, chama-se "petitio principii", e consiste em partir de uma premissa errada para sustentar uma conclusão falsa. Exemplo: todos os jornalistas mentem, por isso estas notícias são fake news. Naturalmente, não é verdade, mas isso agora não interessa nada.

6.  ¿Por qué no te callas? Não consta que Aristóteles tenha dado nome a esta, mas chamemos-lhe "a falácia real". Foi usada pelo Rei Juan Carlos para mandar calar Hugo Chávez, e deve ser usada quando tudo o mais falhar. Vê-se muito nas redes sociais, embora por outras  palavras. Alguém critica um problema no Luxemburgo, e vem logo um realista objetar: "Se não estás contente, volta para a tua terra". É um argumento essencialmente xenófobo, sustentando que o estrangeiro não tem direito à palavra. Como em muitos casos é um português no Luxemburgo que diz isso a outro português no Luxemburgo, acaba por ser uma variante popular do paradoxo de Epiménides: se o outro não tem direito a falar porque é imigrante, quem o manda calar também devia estar calado.

Há mais no catálogo das falácias, mas a vantagem é que são em número limitado: reconduzem-se todas a um erro de raciocínio. E errar, além de humano, é fácil. Fazemo-lo todos várias vezes na vida, às vezes no mesmo dia. Comunicar - do latim "tornar comum", "partilhar" - é que é difícil e dá trabalho, e aqui não há receitas-milagre. É mais fácil não ouvir os outros, permanecendo orgulhosamente sós. As redes sociais amplificam os nossos piores instintos, convertendo o que podia ser uma oportunidade de sair de si, aprendendo alguma coisa no processo, num coro de vozes vociferantes. O mais fácil é repetir sempre os mesmos erros, e, como os loucos, estar sempre a falar sozinho.