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Luxemburgo vai acolher refugiados afegãos
Sociedade 8 min. 02.09.2021 Do nosso arquivo online
Afeganistão

Luxemburgo vai acolher refugiados afegãos

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Luxemburgo vai acolher refugiados afegãos

Foto: AFP
Sociedade 8 min. 02.09.2021 Do nosso arquivo online
Afeganistão

Luxemburgo vai acolher refugiados afegãos

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Os residentes e a sociedade civil do Grão-Ducado expressam já a sua solidariedade com os afegãos em risco de vida e estão prontos a ajudar os refugiados a recomeçar uma nova vida no país. O ministro Jean Asselborn multiplica os esforços junto da UE para uma solução europeia solidária.

A crise humanitária que se vive no Afeganistão com o regresso dos talibãs ao poder, com milhares de pessoas a querer sair desse país, está a preocupar os governos ocidentais. As Nações Unidas alertam que esta crise vai agravar-se agora com a retirada das tropas aliadas do Afeganistão. No Luxemburgo a solidariedade para com os refugiados afegãos já se manifesta de várias formas.

"Muitos cidadãos e residentes do Luxemburgo expressaram, através de vários canais, a sua solidariedade com os cidadãos afegãos que procuram segurança", declarou ao Contacto fonte do Ministério de Negócios Estrangeiros e Europeus, salientando, no entanto, que "nesta fase, infelizmente, não disponho de números detalhados para fornecer".

O Luxemburgo é um dos muitos países que se ofereceu para receber estes refugiados em risco de vida, tendo o primeiro-ministro Xavier Bettel anunciado, que nesta fase, o país vai acolher 12 famílias repatriadas do Afeganistão, para que no Grão-Ducado possam começar uma nova vida, em segurança e sem medo.

"O Luxemburgo está pronto para acolher os refugiados afegãos, mas neste momento, o principal problema é conseguir retirar as pessoas de Cabul, as que querem sair. A situação está caótica, e mais complicado será agora, após as forças militares do EUA abandonarem o país", realçou a mesma fonte do ministério de Jean Asselborn responsável também pela pasta da Imigração e Asilo no Luxemburgo. Ao final do dia 30 de agosto, o Pentágono informou que os militares norte-americanos tinham deixado o Afeganistão, como estava previsto, tendo assim terminado a presença dos militares dos EUA neste país, ao fim de 20 anos.

"Neste contexto, o Luxemburgo continua o seu compromisso a nível europeu para encontrar uma solução europeia para os desafios migratórios que resultarão da crise afegã", sublinha a fonte ministerial realçando que o ministro Asselborn "prossegue os seus esforços para alcançar uma verdadeira política migratória europeia que seja humana e baseada na solidariedade". 

Numa breve declaração ao Contacto, o próprio ministro Jean Asselborn reforçou a necessidade de uma Europa unida em torno destes valores: "A União Europeia deve permanecer fiel aos seus valores fundadores, nomeadamente a solidariedade e o respeito pela dignidade humana. Agora, todos os Estados-membros devem mostrar solidariedade nesta situação extremamente difícil para o povo afegão. Num espaço como a União Europeia, que tem 450 milhões de habitantes, se cada país fizer um pequeno esforço, poderemos superar este desafio coletivamente".

O Luxemburgo repatriou até à data e desde que os talibãs tomaram o poder, a 15 de agosto, "uma família de nacionalidade luxemburguesa que estava no Afeganistão a visitar os seus familiares, um juiz e a sua família e um médico com um filho, acolhido a pedido do MSF", informaram os ministros Jean Asselborn e o ministro da Defesa, François Bausch, na comissão parlamentar na sexta-feira, dia 27.

O país vai acolher também mais três outras famílias, duas a pedido da União Europeia e outra a pedido da Nato, precisaram os governantes.

Solidariedade saiu à rua


Dezenas de refugiados do Afeganistão manifestam-se em Kirchberg
Um protesto contra o regime taliban e para pedir ao governo luxemburguês que recebe afegãos que correm risco de vida.

"Na manifestação de sábado aqui no Luxemburgo vi muitos afegãos comovidos com a presença de pessoas de outras nacionalidades que fizeram questão de se juntar a eles. Agradeciam, com lágrimas nos olhos, a solidariedade demonstrada. O presidente da associação, Farid Azizi agradeceu-me a presença também ele emocionado", contou ao Contacto António Valente, dirigente do Comité de Ligação das Associações de Estrangeiros (CLAE). A manifestação foi organizada pela L'Afghan-Lux Community Outreach Asbl, a associação da comunidade afegã no Luxemburgo que saiu à rua para pedir ao Luxemburgo e à União Europeia proteção internacional e que continuem a ajudar os afegãos em risco de vida a sair do seu país. 

Várias ONG e entidades como o CLAE, a ASTI e a Amnistia Internacional Luxemburgo juntaram-se à associação, na manifestação e subscrevendo os seus pedidos urgentes. "Eu fiz questão de estar presente para mostrar a esta comunidade que não estão sozinhos. Estavam mais de 100 pessoas na manifestação. A situação é muito preocupante no Afeganistão e tal como eu, outros residentes também se quiseram juntar aos manifestantes afegãos, muitos deles jovens e apelar para que o Luxemburgo e Europa não cruze os braços e ajude quem quer sair do País. Trata-se de um drama terrível, sobretudo o mundo tem de estar atento à situação das mulheres e jovens que podem ter agora o seu futuro comprometido", realçou António Valente.

Este imigrante português acredita que muitos mais residentes no Luxemburgo teriam estado presentes no evento de sábado "demonstrando a sua solidariedade", mas não o fizeram "porque desconheceram a existência da manifestação que aconteceu, num fim de semana em que muitos regressaram de férias, e foi organizada de urgência". "É magnífico que nos queiram integrar na sociedade luxemburguesa", afirmou ao Contacto Farid Azizi, presidente da Afghan-Lux Community Outreach.

"Esta é uma sociedade que tem apoiado o povo afegão", e por isso, "quero agradecer ao Governo do Luxemburgo o acolhimento que tem dado aos refugiados afegãos nos últimos anos", vincou Farid Azizi. Agora este apoio é mais preciso do que nunca pois os direitos humanos estão de novo a ser atropelados e ignorados pelos talibãs no Afeganistão. As perseguições já começaram alerta este afegão.

Com urgência, Farid Azizi pede às autoridades luxemburguesas que concedam "vistos humanitários aos afegãos2 que ainda se encontram no seu país e "têm agora a vida em risco por terem colaborado com organizações e Governos estrangeiros". O presidente da associação afegã pede que lhes sejam concedidos os vistos para quem possam chegar ao Grão-Ducado. Sabe que "o Luxemburgo por ser um pequeno país não poderá acolher todos, porque há muitos em risco", mas os que poder ajudar que ajude, pois eles "estão em perigo". Entre eles, há familiares seus e dos outros afegãos já radicados no Luxemburgo.

"Os talibã já começaram a ir, de casa em casa, à procura de quem colaborou com as forças estrangeiras. Foram a casa do meu tio buscar o seu filho porque trabalhou com organizações internacionais e agora ninguém sabe do seu paradeiro", relata Farid Azizi que está há seis anos no Grão-Ducado e a terminar a sua formação na Universidade de Luxemburgo. 

Nos últimos dias, este estudante tem estado na Alemanha a trabalhar 12 horas por dia, com as equipas que recebem os refugiados afegãos que chegaram ao país vizinho vindos do Afeganistão, em missões de evacuação e repatriamento e estão à espera de partir para os EUA, onde irão viver.

Ao Luxemburgo, a associação Afghan-Lux Community Outreach pede também a concessão de vistos humanitários europeus para os familiares dos afegãos que se encontram no Grão-Ducado, com o estatuto de refugiado ou proteção subsidiária. Que a proteção internacional e a reunificação familiar sejam aceleradas face à situação de risco dos afegãos. A nível europeu, a associação alerta para a criação urgente de corredores humanitários seguros e proteção internacional para os refugiados.

Atualmente existe uma comunidade cerca de 1.800 afegãos no Luxemburgo, disse Farid Azizi e destes, cerca de 750 ainda não têm a situação regularizada, pelo que este dirigente lança também o apelo às autoridades luxemburguesas para "legalizar" estas pessoas para que possam trabalhar.

O apoio dos portugueses

António Valente não tem dúvidas: "A comunidade portuguesa no Luxemburgo é muito solidária, e neste momento é sensível ao drama que os afegãos estão a viver. Os portugueses estão prontos a ajudá-los". "Sempre que existe uma situação crítica e se pede ajuda à comunidade portuguesa, os portugueses mobilizam-se e prestam auxílio na hora, mas não de olhos fechados, têm de ter conhecimento de todo o problema, pois já tiveram alguns dissabores2, vincou este dirigente do CLAE.

2Estamos de portas abertas para ajudar os refugiados afegãos que precisem e nos procurem. No que nos for possível, dentro dos nossos domínios ajudamos, por exemplo, oferecendo cursos de línguas, roupas, bens alimentares, entre outros apoios", garantiu ao Contacto Isabela Nascimento do Centro Apoio Social e Associativo (CASA)  no Luxemburgo. Uma instituição sem fins lucrativos, fundada pelo português José Trindade, seu presidente, e que dispõe de auxílios nas mais variadas áreas, nomeadamente sociais, jurídica e psicológica.

Apesar da "prioridade ser sempre o auxílio aos residentes do Grão-Ducado, luxemburgueses e imigrantes" como frisou Isabela Nascimento, "ajudamos todas as pessoas em dificuldades". "Se houver refugiados afegãos no país que nos procurem pedindo auxílio o CASA. irá obviamente disponibilizar auxílio2, vincou Isabela Nascimento.

Também a Cáritas Luxemburgo está pronta para apoiar os refugiados afegãos no "recomeço de uma nova vida no Grão-Ducado", como sublinhou ao Contacto Marie-Josée Jacobs, presidente desta organização.

Após serem tratados os primeiros trâmites legais dos refugiados afegãos, como autorização de residência, a Cáritas do Luxemburgo entra em ação, sendo uma das entidades que presta apoio a estas pessoas, acompanhando-as e auxiliando desde os primeiros dias e durante os primeiros anos, de modo a garantir uma boa integração na sociedade de acolhimento.

Entre a sociedade luxemburguesa, particulares, associações e demais entidades estão prontas a apoiar estes refugiados, mas primeiro há que encontrar meios para retirar os afegãos em risco, e trazê-los em segurança para a Europa, e esse é, de momento, o problema mais urgente.

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