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Luxemburgo: Médicos do Mundo tratam portugueses sem acesso a cuidados de saúde

Luxemburgo: Médicos do Mundo tratam portugueses sem acesso a cuidados de saúde

Foto: Paulo Lobo
Sociedade 3 min. 16.11.2016

Luxemburgo: Médicos do Mundo tratam portugueses sem acesso a cuidados de saúde

No ano passado, os portugueses no Luxemburgo foram a segunda nacionalidade que mais recorreu aos Médicos do Mundo, que presta cuidados de saúde a pessoas sem assistência médica. A maioria são sem-abrigo, mas há também imigrantes recém-chegados ao país que não encontraram trabalho.

Arminda tem 56 anos e todos os dias tem de tomar medicamentos para a hipertensão. O problema é que não tem segurança social no Luxemburgo nem dinheiro para um médico, e as farmácias não vendem medicamentos sem receita médica. A alternativa é ir às permanências dos Médicos do Mundo, em Esch-sur-Alzette. “Lá dão-me os medicamentos para 15 dias, ou se tiverem de sobra, para um mês”, conta ao Contacto.

Sem os voluntários da ONG, a imigrante portuguesa também não teria sido tratada a outros problemas de saúde. “Uma vez estava constipada e o doutor mandou-me abrir a boca e viu que eu tinha os dentes estragados”. Esperou dois meses para ver um dentista, que lhe arrancou quatro dentes. E quando se queixou de “dores de cabeça e problemas na vista”, foram os Médicos do Mundo que lhe conseguiram óculos novos.

Arminda chegou ao Luxemburgo há sete meses, à procura de trabalho, mas não fala francês e continua “sem encontrar nada”. Sem contrato, a imigrante portuguesa, que vive em casa de um filho, não tem autorização de residência no país, e sem ela, não tem direito a assistência médica.

10% dos doentes são portugueses

Arminda é um dos casos de imigrantes portugueses sem acesso a cuidados de saúde obrigados a recorrer aos Médicos do Mundo. Segundo o relatório europeu da organização não governamental, divulgado esta terça-feira, no ano passado os Médicos do Mundo atenderam 177 doentes no Luxemburgo. Dezoito eram portugueses, a segunda nacionalidade que mais recorreu à ONG em 2015. Em primeiro lugar estão os imigrantes romenos (26%), seguidos dos portugueses (10%) e marroquinos (8%). Os luxemburgueses representam 7% do total.

Em 2015, a maioria dos doentes que recorreram à associação eram sem-abrigo (56%). “Sem morada, não têm acesso a cuidados de saúde”, explica a responsável dos Médicos do Mundo no Luxemburgo, Sylvie Martin. Mas há também imigrantes recém-chegados que não encontraram trabalho, tal como Arminda.

Os cidadãos europeus não são obrigados a declarar-se durante os três primeiros meses de estadia noutro país da UE, mas passado esse período, “têm de fazer prova de que têm rendimentos para ter autorização de residência”, explica a responsável. Sem ela, “ficam na mesma situação dos imigrantes indocumentados” e não têm acesso a cuidados de saúde.

No Luxemburgo, os Médicos do Mundo têm centros de atendimento em Bonnevoie e em Esch-sur-Alzette. Por ali passam doentes “a precisar de ser suturados, por causa de quedas ou de violência”, gente que dorme ao frio e tem dores musculares, pessoas com problemas de saúde mental, como explicou em fevereiro ao Contacto o enfermeiro Serge Depotter, voluntário na ONG.

Seja qual for a doença, os meios da organização humanitária são limitados. “Como trabalhamos com medicamentos doados, temos um stock limitado, e não podemos, como um médico, receitar um tratamento específico. Vemos entre o que temos o que é mais adequado”, disse na altura o enfermeiro ao Contacto.

O relatório anual dos Médicos do Mundo foi realizado em 12 países – Alemanha, Bélgica, Espanha, França, Grécia, Holanda, Luxemburgo, Noruega, Reino Unido, Suécia, Suíça e Turquia. Globalmente, 94% dos doentes atendidos eram estrangeiros, sendo 24% cidadãos europeus.

As barreiras no acesso a cuidados de saúde incluem “falta de cobertura médica” (68%) e “dificuldades financeiras” (24%). De acordo com o relatório europeu, 94% das pessoas atendidas viviam abaixo do limiar de pobreza. Mais de metade das crianças assistidas não tinham sido vacinadas contra o sarampo, papeira e rubéola. Pelo menos 40% das grávidas atendidas não tinham recebido quaisquer cuidados pré-natais antes da visita aos gabinetes dos Médicos do Mundo.

A ONG insta os países da UE a “oferecer sistemas de saúde pública universal, fundados na solidariedade e equidade”, abertos a todos os residentes, “independentemente do seu estatuto de imigrante”.

Paula Telo Alves

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